Mulher no Ano 2000

 

 

Carolee Schneemann, Ask The Goddess, 1991. Fotografia de Barbara Yoshida. Cortesia de Carolee Schneemann

 

Até o ano 2000, nenhuma jovem artista mulher vai se deparar com a resistência determinada e o solapamento constante que enfrentei quando estudante. Seus cursos de Estúdio e Istória [1] geralmente serão ensinados por mulheres; essa artista mulher nunca vai se sentir como uma convidada de última hora no banquete da vida; ou como um monstro desafiando seu papel “determinado por Deus”; ou uma beligerante cuja dedicação à criatividade só pode existir à custa de um homem, ou homens e suas necessidades. Ela também não vai entrar no “mundo da arte” para agraciar ou desgraçar algum clube dominante de artistas, historiadores, professores, diretores de museu, editores de revista, galeristas – todos homens, ou comprometidos com preceitos masculinos. Tudo isso já está, maravilhosamente, desabando aos nossos pés.

Ela vai estudar cursos de Istória da Arte enriquecidos pela inclusão, descoberta e reavaliação de obras executadas por artistas mulheres: obras (e vidas) até recentemente enterradas, destruídas de modo proposital, ignoradas ou creditadas a artistas homens a quem tinham sido associadas. Nossa estudante futura terá contato com uma istória criativa feminina contínua – geralmente construída contra probabilidades impossíveis – de seu presente, até o Renascimento e além. No ano 2000, livros e cursos só terão títulos como “O Homem e Sua Imagem”, “O Homem e Seus Símbolos”, “História da Arte do Homem”, para cutucar a fonte de doença e de mania masculina que levou o homem patriarcal a atribuir a si mesmo e a seus ancestrais masculinos todas as invenções e artefatos por meio dos quais a civilização se formou no decorrer de milênios! A nossa mulher vai ter cursos e livros sobre “A Invenção da Arte pela Mulher”, “Mulher – A Fonte da Criação”, “As Origens Ginecocráticas da Arte”, “A Mulher e Seus Materiais”. Seus estudos acerca da antiga Grécia e do antigo Egito vão reconciliar manipulações de tradução, interpretação e conteúdo real de língua e imaginário simbólico com a luta prolongada e agonizante entre os princípios integrais e cósmicos da ginecocracia e das culturas agressivas, centradas no homem, como as fundações da religião judaico-cristã no mundo ocidental.

Há quinze anos eu disse ao meu professor de Istória da Arte que eu achava que as mulheres de peito à mostra montando em touros, entalhadas em marfim, pintadas em afrescos de cerca de 1600 a.C. em Creta, podiam ter sido feitas por mulheres retratando mulheres. E eu considerava que as estatuetas neolíticas de fertilidade preponderante podiam ter sido confeccionadas por mulheres para si mesmas – para acompanhá-las durante a gravidez e o parto. E me perguntava se os afrescos dos Mistérios, Pompeia – quase exclusivamente tratando de gestos e ações femininas –, poderiam ter sido pintados por mulheres. Ele ficou chocado e incomodado, dizendo que não havia absolutamente autoridade nenhuma para dar apoio a tais ideias. Desde então, dei a mim mesma a autoridade de apoiar e prosseguir com essas ideias. Até o ano 2000, arqueólogas, etimologistas, egiptólogas, biólogas, sociólogas feministas vão ter estabelecido além de questionamento o meu preceito de que as mulheres determinaram as formas do sagrado e do funcional – as propriedades divinas do material, suas formações religiosas e práticas; que ela fez evoluir a cerâmica, a escultura, o afresco, a arquitetura, a astronomia e as leis da agricultura –, todas coisas que pertenciam de modo implícito aos domínios femininos de transformação e produção.

As noções obscuras de um núcleo harmonioso de civilização sob a proteção da Grande Mãe Deusa, em que a unidade divina da criação biológica e imaginativa feminina era normal e dominante, em que a mulher era a fonte de todas as imagens vivas e criadas, vão mais uma vez aparecer para esclarecer nossos próprios desejos conscientes. Os rituais sagrados de formar materiais para corporificar energias vitais vai retornar à fonte feminina.

Uma outra mudança será a reunião de istoriadores pioneiros – eles mesmos desacreditados ou esquecidos pela autoridade tradicional masculinizada. No ano 2000, as mulheres estarão nas listas de leituras obrigatórias! Que alegria receber: Helen Diner, J. J. Bachofen, Michelet, Rilke, Gould-Davis, Jane Ellen Harrison, Robert Graves, Jacquetta Hawkes, Ruth Benedict, Robert Briffault, Erich Neumann, H. D., Marie LeCourt, Ruth Herschberger, Bryher, H. R. Hays, Minna Mosdherosch Schmidt, Clara E. C. Waters, Elizabeth F. Ellet!

O aspecto negativo de tudo isso é simplesmente que as moças que chegarão a esses estudos vitais na verdade nunca vão acreditar que nós, em nosso trabalho de base desesperado, éramos tão tolhidas e isoladas; que uma crença e dedicação a uma istória da arte feminina foi delineada por aquelas que a poderiam ter ensinado; que nossas energias mais profundas foram alimentadas em segredo, com precedentes que mantemos em segredo – nossas mulheres perdidas, agora encontradas e a serem encontradas novamente.

 

 

NOTA

[1] Nota da Tradução: Carolee Schneemann usa istory (istória) para evitar o pronome possessivo masculino his incorporado na palavra history (história).

 

 

Carolee Schneemann, trecho de Woman in the Year 2000, 1975, em Carolee Schneemann e Bruce McPherson (orgs.), More than Meat Joy: Complete Performance Works and Selected Writings, New Paltz, NY: Documentext, 1979, p. 9-11. Com permissão da autora e da Documentext (McPherson & Company).

 

PARA CITAR ESTE TEXTO

SCHNEEMANN, Carolee. “Mulher no Ano 2000”. eRevista Performatus, Inhumas, ano 2, n. 9, mar. 2014. ISSN: 2316-8102.

 

Tradução de Ana Ban

Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy

© 2014 eRevista Performatus e a autora

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