Loïe Fuller a partir do Quinto Volume do Livro “Figuras Contemporâneas: Tiradas do Álbum de Mariani”

 

 

Benjamin J. Falk, Retrato de Loïe Fuller, 1892

 

Ela dançou “como as sacerdotisas da Índia, como as nubianas das cataratas, como as bacantes da Lídia, semelhante a uma flor agitada pela tempestade. De suas orelhas os brilhantes saltavam; dos seus braços, pés e vestido jorravam centelhas invisíveis!”. Assim Salomé no aclamado livro de Gustave Flaubert; assim, em nossos dias, Loïe Fuller nos palcos dos music halls. E os séculos renascem no ritmo dos seus passos, nas lendas antigas, no ciclo celeste das estrelas, no prestígio dos tecidos e das pedras preciosas, no milagre do arco-íris e da libélula!

Primeiro, um fundo de sombra e uma sala escura; no palco surge Loïe, semelhante a uma borboleta em repouso; logo em seguida ela abre as asas, as antenas despontam, afloram os véus; a borboleta é uma flor brilhante com pétalas perenes; um vento passa agitando a flor, e a flor, subitamente, torna-se mulher, torna-se fada, torna-se lampejo, torna-se luz! Depois, tudo se acalma. E começam as danças, ora lascivas, ora hieráticas ou orientais, ora antigas ou fantásticas, seguindo o capricho fugaz dos pés leves e delicados. O poema das linhas unido ao poema das cores se acentua; formas que são nuances, nuances que são chamas, chamas que são prismas. Em seguida, tudo se apaga. E recomeça a dança humana, frívola, lenta ou grave, conforme o gesto dispensado.

Senhorita Loïe Fuller assemelha-se à dançarina de Tânagra, com seus véus sutis e curvas graciosas. Nas dobras do seu vestido fluido incendeiam-se ouro e verde, tons pálidos e sombras vermelhas, assim como na dança das Panateneias. Em seguida, ela é Salomé. Por fim, um compasso lento, rítmico e harmonioso expande-se em círculos; uma pavana de Watteau num décor dourado de outono sucede às danças sagradas da Bíblia; e o ritmo retoma, roda, gira, rodopia, descrevendo estranhas elipses, sinuosas curvas, inflama-se, dissipa-se, renasce, cresce e morre, tal como a chama multicolorida que um sopro brusco apaga!

Onde foi que senhorita Loïe Fuller – colorista como Monticelli ou Albert Besnard, elegante como Rosita Mauri, poetisa como o bardo mais inspirado –, onde foi que ela encontrou o segredo dessas danças divinas? A própria Fuller nos conta. Na Catedral de Notre-Dame, ainda assombrada, ao que parece, pelo espectro da bailarina cigana Esmeralda, ela entrou num dia de retiro e melancolia. Naquela hora, o sol fulgurante iluminava as maravilhosas rosáceas; e nos ladrilhos onde rezavam os fiéis, o prisma dos vitrais abriu subitamente em cores, nimbando a cabeça da jovem dançarina. Surpresa, ela tirou um lenço e deleitou-se a levantá-lo em direção às emanações multicoloridas; e o pequeno lenço branco pareceu-lhe de um tecido magnífico. Curiosa como se diante de um pássaro raro de penas azuis, ou de uma flor caprichosa, ela desejou esquadrinhar os reflexos vivazes e, no silêncio recolhido do templo, levantou insensivelmente, com gestos perscrutadores, o pequeno lenço branco nos raios solares. Um sacristão, espantado, apareceu nesse momento e pediu educadamente para que a moça se retirasse; ele pensou decerto que ela sofresse de alguma perturbação mental e não foi rude com ela. Mas a senhorita Loïe Fuller não estava sofrendo de algum tipo de demência: ela acabava, pelo contrário, de descobrir o segredo das danças de cores. A partir daí, vimo-la, para nossa alegria, se apresentar no Folies Bergère. Foi ela, frágil libélula, que por sua vez encantou Chicago e Paris, e é a abelha a zumbir alegrias e sonhos.

Através dela, os poetas, surpresos, descobriram novos mundos, os pintores, horizontes nunca vistos, e os músicos, extraordinárias escalas cromáticas: as danças de Loïe Fuller seduziram, enfeitiçaram, provocaram um feérico incêndio de tons, linhas, ritmos, graças incomparáveis.

Artista consumada, é a própria Loïe Fuller que prepara as suas danças; ela orienta o ritmo, cuida do corte e do acabamento dos seus trajes. Este ano nos reserva surpresas. Senhorita Loïe Fuller quer aproveitar a Exposição Universal para encantar os povos. Ela quer que todos aqueles que vierem a Paris daqui a alguns meses voltem deslumbrados com tamanho esplendor, e que a nossa capital, representada por ela, figure realmente, para todos, como a Cidade das Luzes.

Senhorita Loïe Fuller não é só uma artista consumada, de uma expressão facial intensa, de um estonteante virtuosismo como dançarina; ela também é uma moça inteligente, tão modesta quanto encantadora, apaixonada por sua arte, acolhedora e boa. Na Europa como na América seu sucesso foi colossal. Em todos os lugares surgiram imitadoras; contudo, nenhuma delas conseguiu igualá-la, nenhuma teve tanta elegância, tanto charme nem tanta singular beleza. Retirada em sua residência em Passy, onde as mais altas personalidades parisienses têm a honra de serem ali recebidas, a senhorita Loïe Fuller, afável com todos, adora conversar  sobre esta cidade de Paris que ela ama e a qual, por sua vez, lhe retribui.

Junte a tudo isso uma trabalhadora obstinada, uma incansável pesquisadora. Roger Marx, Jean Lorrain, Georges Rodenbach e muitos outros celebraram-na, em verso ou em prosa, como sendo a própria personificação da arte por excelência, dessa arte que é, a um só tempo, cadência, paleta e ritmo, e que inclui todas as matizes do Belo. O Velho Mundo, fascinado por essa jovem fada, dela guardou a visão intensa. Para ele, a Loïe criou festas luminosas. Diante desse velho Myrddin, a jovem Viviane dançou.

 

 

 

Entre as centenas de celebridades que deram apoio público ao Vin Tonique Mariani, um vinho tônico parisiense feito por meio da infusão de folhas de coca em álcool, estavam a atriz e líder revolucionária irlandesa Maud Gonne, a atriz Sarah Bernhardt e a dançarina Loïe Fuller, que escreveu:

 

Caro amigo,

 

“Meu reino” para uma cabeça de Shakespeare – uma língua de Molière – uma caneta de Dumas para louvar nosso Mariani! Não é vinho, é o sustento do lar da alma! Vamos, então, aprender não o seu abuso, mas o seu uso. Deixe o lema da “Casuars”. Guia-nos “temperança em todas as coisas”.

 

Loïe Fuller

 

 

PARA CITAR ESTE TEXTO

MARIANI, Angelo. “Loïe Fuller a partir do Quinto Volume do Livro ‘Figuras Contemporâneas: Tiradas do Álbum de Mariani’”. eRevista Performatus, Inhumas, ano 2, n. 9, mar. 2014. ISSN: 2316-8102.

 

Tradução de Fernando L. Costa

Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy

© 2014 eRevista Performatus e o autor

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