Reivindicando o Passado do Leste Europeu

 

Uma entrevista com a historiadora da arte Ieva Astahovska, diretora do estudo de investigação sobre o patrimônio da arte não-conformista dos anos soviéticos da Letônia.

 

People in Cages (1987), Performance de Sarmīte Māliņa, Sergejs Davidovs, Oļegs Tillbergs; © LCCA

 

“A Documentação e a Preservação do patrimônio da arte não-conformista dos anos soviéticos” é um projeto de investigação contínuo na Letônia, comissionado pelo Ministério da Cultura e objetiva criar um fundo contextual para o acervo do futuro Museu de Arte Contemporânea. “O projeto é reescrever a história, um processo que está tomando lugar simultaneamente no Leste e no Oeste”, afirma Ieva Astahovska, historiadora da arte, diretora do Departamento de Informação e Investigação do Centro de Arte Contemporânea da Letônia (http://www.lcca.lv) e diretora do grupo de pesquisa, constituído em torno de vinte investigadores, que trabalham sobre este tema na Letônia.

Esta pesquisa letã está agora relacionada aos projetos similares da Hungria (tranzit.hu), da Lituânia (National Gallery of Art), da Polônia (Wyspa Progress Foundation) e da Estônia (Estonian Institute of Art History), no projeto “Recuperando o Passado Invisível”, financiado pela União Europeia, concebido para resultar em uma conferência articulada no ano de 2011 e em projetos de colaboração contínua em um futuro muito próximo. Nós perguntamos para Ieva Astahovska sobre o contido termo “não-conformista”, no contexto da pesquisa, o papel da performance e da sua documentação na Letônia da década de 1960 à década de 1990 e de que maneira a existência de informações isoladas formaram a sua própria história e contexto da arte da performance na Letônia.

 

ZANE ZAJANČKAUSKA: Você poderia brevemente descrever o tema do projeto de pesquisa? Como o cenário da arte “não-conformista” é definido e considerado agora que algumas décadas se passaram?

 

IEVA ASTAHOVSKA: O estudo acontece dentro da atual tendência de investigar a desconhecida história do Leste Europeu e os processos de reescrever a história, que está acontecendo tão intensamente tanto na Europa Oriental quanto na Ocidental. Ao documentar o patrimônio letão da arte não-conformista, nós queremos registrar os eventos e processos da arte que nunca apareceram na história oficial. Não necessariamente, ainda acontece por causa do contexto político de uma particular peça de arte; frequentemente, adequados processos interdisciplinares não foram registrados como simples eventos artísticos por eles não se encaixarem em nenhuma das categorias das tradicionais belas artes e teatro.

O termo “não-conformista”, no título, é mais como uma adaptação formal no contexto do nosso estudo, porque a própria noção de não-conformidade é bastante controversa, especialmente no contexto da Letônia. Se alegarmos que o cenário artístico não-conformista e oficial da Rússia foram claramente segregados, então, no caso da Letônia, nós podemos somente falar de um tipo de semi-não-conformidade. Quase todos os artistas que nós mencionamos no contexto da arte não-oficial eram, ao mesmo tempo, membros da União dos Artistas da Letônia. A maior parte deles tinha, um dos dois, graduação ou, pelo menos, estudado na Academia de Arte da Letônia e, quase todos eles participaram de exposições, as quais não eram exposições em apartamento como na Rússia, mas, mais ou menos, exposições de instituições oficiais.

No contexto do nosso estudo, não-conformidade é menos relacionada com a mensagem política do que à forma das obras: experimental, avant-garde, diferente da doutrina dominante. O aspecto interdisciplinar dos processos de arte é também muito importante, porque, precisamente, os eventos interdisciplinares não foram mencionados nas oficiais crônicas. Este estudo abrange o período a partir da década de 1960 até a década de 1990; no entanto, nós examinamos, em menos detalhes, a segunda metade da década de 1980, porque essa já foi pesquisada exaustivamente em nossos anteriores projetos de análise.

 

ZANE ZAJANČKAUSKA: Qual foi o papel da arte da performance nesta zona de arte não-oficial?

 

IEVA ASTAHOVSKA: Arte da performance mais diretamente pertence a zona não-conformista e não aparece no evento oficial da crônica, porque nada desse gênero poderia ser abertamente expresso.

 Neste estudo, o conceito de arte da performance inclui performances iniciadas a partir de acontecimentos informais em apartamentos, como as de Andris Grīnbergs [1], onde ele convidou um monte de pessoas – às vezes completos estranhos – e encenou situações espontâneas ou de acordo com um roteiro pré-fabricado, com frequência, percebendo e nomeando isso como “sessão de foto” e não uma performance; também, nós consideramos pantomima e teatro gestual como performance. Pantomima ou teatro gestual funcionam como uma espécie de teatro amador, com um diretor, um coreógrafo, um artista caracterizado e um grupo de atores, com frequência, possuem algumas habilidades básicas de atuação, embora, no entanto, não sejam teatro. Nas performances de pantomima e teatro gestual, movimento tem consideravelmente mais significado expressivo; não existe literalmente uma ação ilustrativa. Por estranho que pareça, durante esse período de tempo, o movimento tornou-se um importante meio de expressão e atingiu a sua posição não só nas artes da performance, mas também na escultura e na pintura.

 

Uma das performances de Andris Grīnbergs: Model and Others, 1988; © LCCA

 

ZANE ZAJANČKAUSKA: Nós podemos falar de isolamento total da evolução da performance na Letônia a partir do desenvolvimento das artes da performance na Europa Ocidental?

 

IEVA ASTAHOVSKA: Absolutamente, a arte da performance do Ocidente está intimamente ligada ao conceitualismo, a uma ideia de arte que está sendo feita não só no sentido clássico, mas também para protestar contra a comercialização da arte que a coloca dentro de um cubo branco. Na Letônia, não houve quase nenhuma conexão com este contexto todo. No caso de A. Grīnbergs, houve oposição ao sistema e autoridade, mas mais sob uma forma lúdica; não era uma intenção política, mas sim “a arte da vida”, criando a sua própria humilde vida sem qualquer mensagem política.

Embora os artistas da Letônia tenham sido influenciados pelo Ocidente, essas influências quase sempre permaneceram em um nível meramente visual. Na medida em que nós temos conversado com os artistas, eles todos dizem que têm estado a olhar para as revistas de arte polaca, mas meramente a olhar, não as lendo. Discurso do espaço não existia aqui na Letônia (houve até uma certa reação alérgica a ele, devido a ideologia retórica do socialismo). Discussões teóricas de ideias, escassamente, tiveram lugar em tudo. Influências, quase sempre, hospedaram-se em um nível metafórico. Aparentemente, muito pouco foi necessário na época – uma pequena imagem teve literalmente um efeito eletrizante, mas o contexto conceitual era escasso. Falando de performance, muitos citam Beuys como um artista muito importante para eles, embora, eles apenas tomam a superfície e deixam de desenvolver a mensagem e as ideias que foram importantes para Beuys.

Na década de 1980, alguns contextos político-sociais fizeram-se emergir para algumas extensões, embora, elas não deixam de ser demasiadamente metafóricas, ao ponto disso ser até paradoxal: por exemplo, performances que podem unicamente ser interpretadas politicamente, tal qual People in Cages de Māliņa, Tillbergs e Davidovs durante o Art Days of 1987 [2]. Quando nós conversamos com eles agora, Tillbergs admite que ele seja interpretado politicamente, ainda que, ao mesmo tempo, Māliņa e outros insistam que não tinham nada a ver com a política, que eles não estavam interessados em qualquer tipo de articulação política. O vigoroso assunto é vago e impreciso na visualidade e metaforicidade da arte.

Em seu tempo, a dominante opinião na Letônia foi a de que um artista não era nem um jornalista nem um político; ele ou ela era precisamente um (ou uma) artista pela razão de ser associativo.

 

ZANE ZAJANČKAUSKA: Você já tinha mencionado que essas performances foram, às vezes, encenadas em sessões fotográficas. Qual foi o total papel da documentação no cenário da performance dos anos de 1960 a 1980?

 

IEVA ASTAHOVSKA: Nosso estudo é principalmente baseado na história atual, ou seja, em conversações com os artistas e em rever eventos. Para muitos eventos, nenhuma evidência visual tem sobrevivido, porque, na época, ninguém localizou sua particular importância.

Performance, como tal, é bastante elusiva e, além disso, havia muitos eventos espontâneos que poderiam ser considerados performances de acordo com a definição padrão; no entanto, as pessoas envolvidas não definiam dessa maneira o que eles próprios concebiam ou rotulavam como “a arte da vida”. Por exemplo, o artista gráfico Māris Ārgalis, referido por todos, literalmente, como um não-conformista (também, no sentido tradicional, já que ele confrontou os poderes de autoridade e ideologia), teve esta exposição Modelos, em 1976, na Casa da Ciência, cujo tempo utilizado para exposições na casa era ligeiramente menos restrito pela censura. À noite, antes da abertura desta exposição, seus amigos reuniram-se no local e, havia fotos de todos eles, sendo imagens penduradas no vestiário como cabides abandonados. No momento, isso foi uma ação espontânea e, quando perguntei a um dos participantes se aquilo era uma performance ou não, ele me respondeu que é claro que não era; ele estava apenas brincando.

No entanto, existe um outro aspecto. Happenings, como performance, têm sido, muitas vezes, tão expressivos em sua visualidade que têm servido como material de origem para o trabalho independente dos fotógrafos. Por exemplo, Zenta Dzividzinska [3] tem frequentemente fotografado pantomima; seu trabalho é muito expressivo, com jogo de cores preto e branco, tão comum na pantomima. Outro exemplo seria Laimonis Stīpnieks [4], que já fotografou performance com bastante frequência. E, nessas fotografias, você verá uma obra de arte por Stīpnieks e não a performance em si, mas sua documentação; ele acrescentou tanto de sua própria perspectiva que esse resultado superou o tema original (a performance). Além disso, isso não ocorreu somente na fotografia. Por exemplo, Atis Ieviņš assumiu a serigrafia, sob a influência de Warhol, e, também, utilizou as fotografias dos happenings de Grīnbergs em suas impressões. Igualmente, Jānis Kreicbergs, um fotógrafo de moda muito integrado na zona oficial de sua época, colaborou com Grīnbergs e fotografou Inta, a esposa de Grīnbergs, em uma performance, fazendo música com mulheres idosas da minoria nacional da Livônia [5]. E, em seguida, há uma foto de uma velha mulher da Livônia com uma ênfase no momento etnográfico. Isso não desempenhou qualquer importante papel na performance de Grīnbergs; no entanto, a fotografia muda o contexto e “ser letão” torna-se a principal mensagem.

 

ZANE ZAJANČKAUSKA: Além disso, você está no comando da biblioteca do Centro de Arte Contemporânea da Letônia, que também serve como um centro para documentar a arte. E o significado atribuído à documentação da arte da performance está mudando no momento? Por exemplo, estão as performances de apartamento, atualmente, ganhando popularidade em Riga, que de novo são deliberadamente documentadas?

 

IEVA ASTAHOVSKA: Bom, isso é uma ideia muito boa. Na realidade, não. Nós não fazemos isso, embora, nós tentamos gravar eventos e processos de arte, mas não performances de apartamento. Em todo o caso, eu penso que os tempos modernos são muito mais profundos a este respeito. Há sempre alguém que registra por curiosidade e os artistas em si são conscientes de suas performances como uma ação intencional.

 

ZANE ZAJANČKAUSKA: Voltando para o estudo: você poderia descrever brevemente o processo e o esperado resultado a partir dele?

 

IEVA ASTAHOVSKA: Nós somos um grupo bastante grande de pesquisadores e temos dividido as áreas de estudo entre nós, garantindo um processo coletivo através de reuniões regulares. Nós investigamos personalidades, eventos e processos, em grande parte, baseados em profundas conversações com os artistas. Um dos resultados deste estudo vai ser uma crônica com eventos oficiais listados, mas com uma específica parte não-oficial realçada. E este material será de uso para conclusões mais conceituais.

O resultado final do estudo será uma exposição até o final de 2010 e uma conferência em 2011, onde vamos tentar combinar o material do nosso estudo da Letônia com processos paralelos em outros países do Leste Europeu, que também estão enfrentando os processos de reescrever a história. Nós estamos cooperando com instituições na Lituânia, Estônia, Polônia e Hungria. Ao mesmo tempo, nós estamos tentando integrar a cena da Letônia no quadro geral, uma vez que a Letônia é, mesmo no contexto da Europa Oriental, bastante marginal. Outro aspecto importante é trazer a dimensão do Leste Europeu no contexto da Letônia, uma vez que, apesar de ser bastante integrado, nós ainda vivemos de uma maneira muito regional.

 

A exposição, que apresenta os resultados da pesquisa, ocorreu no inverno de 2011, no Riga Art Space (http://www.artspace.riga.lv/en/izstades/izstade?izspas=246), sob o título “un citi” (literalmente, “un citi” [em letão] significa “e outros”; esse título se refere a uma lista de participantes, dos quais apenas alguns são mencionados, sendo “os outros” sempre incluídos através da abreviatura “etc.”)

 

Walk to Bolderaja, uma performance do grupo do Workshop of Restoration of Unfelt Sensations. Ano de 1980; © LCCA

 

Ieva Astahovska, pesquisadora de arte, crítica e curadora, está desenvolvendo seu doutorado na Acadêmia de Artes da Letônia. Ela trabalha no Centro de Arte Contemporânea da Letônia, onde lidera projetos de pesquisa sobre a arte contemporânea e a arte do período soviético, bem como palestras em diversas universidades da Letônia. Suas críticas de arte e artigos de pesquisa sobre a arte dos séculos XX e XXI da Letônia foram publicados em vários meios de comunicação impressos e imprensa on-line de arte, catálogos, simpósios, etc.

 

Zane Zajančkauska, autora e curadora, recebeu seu título de mestra na Academia de Cultura da Letônia. Ela trabalhou no Centro de Arte Contemporânea da Letônia, no Centro Nacional de Filmes da Letônia e, em Leipzig, no Museu de Arte Contemporânea. Autora de  “Helper for visitors to the Song and Dance Celebration”, de “ZE**SVETKI” e de várias publicações na imprensa cultural. Também, cofundadora da revista cultural de quadrinhos “Kush”.

 

Notas

[1] Andris Grīnbergs (1946) – um artista performático da Letônia, uma figura proeminente no cenário da performance da Letônia entre os anos de 1970 a 1980.

[2] People in Cages – uma performance dos artistas, da Letônia, Sarmīte Māliņa (1960), Oļegs Tillbergs (1956), Sergejs Davidovs durante o Art Days em uma das praças centrais de Riga: um homem vestido com o uniforme do Exército Soviética dormindo em um gaiola de metal.

[3] Zenta Dzividzinska (1944) – fotógrafo letão, membro da não-oficial criativa interdisciplinaridade de Riga.

[4] Laimonis Stīpnieks (1936) – fotógrafo e arquiteto letão.

[5] Livonians – um grupo étnico distinto historicamente no território da Letônia, já assimilado no século XIX. Hoje em dia, muito poucos permanecem na costa oeste da Letônia, onde o artista performático Andris Grīnbergs utilizou uma casa para encenar algumas de suas performances.

 

Tradução de Paulo Aureliano da Mata.

Revisão de Tales Frey.

 

Link para o texto original: http://www.perfomap.de/map2/kart/rti

 

 

© 2013 eRevista Performatus e o autor

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