Fênix

 

Maciej Stawiński, Rena Mirecka, Amelia, 2003

 

Na vasta constelação de Grotowski, a estrela de Rena Mirecka comporta um lugar especial e brilha com uma única luz. Ela é uma das poucas pessoas que sempre estiveram lá desde o início, tornando-se um ponto de referência para aqueles que tentam encontrar seu próprio caminho entre as órbitas mutáveis e a queda dos corpos celestiais. Devendo muito a Grotowski, ela tem seguido seu próprio caminho e brilhado com sua luz própria, e não somente como uma única luz refletida.

Sua jornada se iniciou em 1959, quando, junto com a “gangue” toda, ela partiu de Cracóvia para Opole a fim de iniciar uma aventura que se tornou uma lenda no teatro mundial. Aluna de Halina Gallowa, um dos mais nobres pilares do Teatr Reduta, Mirecka, como a maioria de seus colegas da época, não sabia que estava prestes a entrar para a história do teatro. Suas primeiras apresentações no Teatro das Treze Filas, embora notadas, não foram satisfatórias provavelmente nem para ela mesma. Seu ponto de virada foi o papel principal em Shakuntala, segundo Kalidasa (1960), preparado e apresentado com a precisão estilística que sempre caracterizou sua atuação. Já naquela época, Mirecka cumpriu os deveres de assistente do diretor, bem como durante as seguintes estreias no teatro: Os Antepassados (1961), Idiota (1961), e Kordian (1962). Ela atuou em todos esses espetáculos, criando expressão, se não, conduzindo papéis.

Seus esforços e trabalho em breve começaram a trazer resultados extraordinários. Em 1962, no Teatro Laboratório das Treze Filas apresentou, pela primeira vez, um dos mais famosos espetáculos do grupo de Grotowski: Akropolis, com textos de Wyspiański. Algumas das ideias que foram utilizadas, e que eram revolucionárias na época, hoje são familiares, mas, ainda assim, ao assistir à monocromática gravação de sua apresentação, é difícil não ser tocado pela intensidade de luz fantasmagórica que emana do rosto de Mirecka-Cassandra, ao cantar uma música de amor e esperança; uma música perpétua do que aparenta ser momentânea e passageira como a juventude, beleza e rosas na grinalda da donzela. A face da atriz cantando com os olhos fechados, como se estivesse divinamente inspirada, é um dos ícones do teatro de Grotowski, ao lado do corpo de Ryszard Cieślak, brilhando de uma maneira semelhante, ou ao lado dos amantes que emergem de uma luz similar em Apocalypsis cum figuris.

 

Maciej Stawiński, Rena Mirecka, Wrocław, 1980

 

Após Akropolis, Mirecka tornou-se um dos pilares do grupo. Seus papéis a mulher, em A Trágica História do Doutor Fausto (1963), e Ofélia, em Estudo sobre Hamlet (1964), não só provaram suas habilidades em seu ofício e foram modelo das realizações das ideias de Grotowski, que foi a base do que foi chamado mais tarde de seu “método”, mas eles também foram a fase seguinte de seu desenvolvimento artístico pessoal através de diversos confrontos com vários modelos de existência, incluindo diferentes funções e posições simbólicas atribuídas a uma mulher em um mundo machista criado e dominado. Já sendo mestra e professora de exercícios plásticos, uma forma movimentada do training, Mirecka foi capaz de construir resultados muito precisos, em que seu corpo iria se transformar em uma composição de danças significativas em sua completa ambiguidade, juntando – como em A Trágica História… – tentações diabólicas com as dores da Mãe de Deus.

Essa ambígua dança veio a ser a forma máxima na obra-prima da atuação de Mirecka – Fênix, em O Príncipe Constante (1965). Crueldade e desejo de inocência, desejo de santidade e escárnio, autoconfiança e medo – todas essas contradições, que soam muito simples, entrelaçam-se na partitura repetida pela atriz com grande precisão e dedicação. Naqueles tempos, era uma moderna e pioneira coreografia que evitou todas as armadilhas do realismo psicológico e estilizado, tal como ações “frias” e “quentes”, que foram discutidas frequentemente e com avidez naquela época. Mirecka foi capaz de se conectar à fria perfeição das ações com paixão ardente que estava longe de imagens semelhantes à “loucura” e “êxtase”. O fogo gelado que foi comido pela sua Fênix, a partir do qual ela surgiria constantemente, tornou-se uma específica síntese e também a culminação da atuação de Mirecka.

 

Maciej Stawiński, Rena Mirecka no Laboratório Karawanasun, Brzezinka, 2012

 

No Teatro Laboratório, ela também representou Maria Madalena, primeiramente apresentando-se no âmbito de ensaios abertos de Os Evangelhos (1967), e no lendário Apocalypsis cum figuris (1969; alternando com Elizabeth Albahaca). Esse papel já é uma outra fase da pesquisa de Mirecka, que eu chamaria de uma pós-representação, em vez de pós-teatral. Ainda trabalhando dentro de uma instituição de teatro, participando de vários workshops e projetos, referindo de muitas maneiras o ofício do ator e a arte cênica e, ao mesmo tempo, não tomando parte nos trabalhos descritos como parateatro, a partir dos anos de 1970, Mirecka iniciou a luta para ir além da arte de atuar que ela já tinha dominado. Ela não iria renunciar a precisão, ela não cederia à tentação da “espontaneidade” característica do espírito dos tempos; em vez disso, ela se comprometeu a longo prazo e ainda em processo contínuo de transformação difícil de descrever, mas que é muito mais visível em fotos apresentando a artista no trabalho. Associo muitas dessas imagens a ícones; não devido a alguma ingênua estilização externa, mas sim devido à forma como elas funcionam. São imagens claras e precisas que apresentam não as pessoas em determinadas situações, mas que se referem a algo visto sobre elas pela parte do caráter ou da manifestação direta. Elas são vestígios, não um documento. Elas não falam da história de uma pessoa, mas do poder em que a pessoa confia e para que ela ou ele serve.

Pode parecer paradoxal que Rena Mirecka, que não cocriou o parateatro com Grotowski, seja – ao lado de Ewa Benesz (sua colaboradora próxima por muitos anos) – a sua representante mais importante. Penso, no entanto, que isso é precisamente o que demonstra o talento específico da artista – a síntese de frio e de fogo que deu grandeza a suas criações no teatro e que agora lidera a dança de resistência e da morte. Isso é o que ainda permite a Fênix queimar e renascer da chama.

 

 

O texto original foi publicado no catálogo Rena Mirecka – Teatr Człowieczy. Maciej Stawiński – 30 fotografii z lat 1980-2010!

 

PARA CITAR ESTE TEXTO

KOSIŃSKI, Dariusz. “Fênix”. eRevista Performatus, Inhumas, ano 1, n. 2, jan. 2013. ISSN: 2316-8102.

 

Tradução de Paulo Aureliano da Mata

Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy

© 2013 eRevista Performatus e o autor

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