Escritos Sobre a Dança

 

Harry Ellis, O grupo de Loïe Fuller no jardim do príncipe Troubetzkoy, 1905

 

A Dança

A natureza é nosso guia e o nosso maior mestre. Mas nós não a observamos.

Não há duas coisas que sejam da mesma natureza e exatamente iguais; o espírito que as move é o mesmo, mas cada coisa responde da sua própria maneira à grande força motriz na natureza, essa parte que em nós é divina!

As folhas movem-se em harmonia com o vento, mas cada folha se move da sua própria maneira.

As ondas do mar nunca são iguais, e, contudo, todas elas estão em harmonia.

Por essa razão, o que devemos observar é que a lei da impulsão é uma coisa, ao passo que a lei da harmonia é outra.

Simplesmente “marcar o compasso” não é harmonia – harmonia é a vasta gama constituída por uma infinidade de pequenos detalhes movendo-se como na música. Na dança, o compasso com os pés é um detalhe, o movimento do corpo e do braço é um outro, a postura da cabeça, o olhar, todos esses elementos são necessários para completar o vasto conjunto.

A perfeição na unidade do movimento poderíamos chamá-la de “música de visão” ou “música para o olho”, pois a harmonia no movimento é para o olho o que a música é para os ouvidos. Mas perfeição significa ser absolutamente semelhante à natureza, a fim de que o instinto e a espontaneidade sejam os únicos mestres. O olho é mais abrangente do que o ouvido; o olho, ilimitado em sua capacidade, no seu horizonte visual, é, dentre todas as outras características físicas no ser humano, o maior e mais elevado elemento. O olho pode ver mais música do que o ouvido pode ouvir. A dança está agora somente no início, e estamos no exato ponto onde a música se encontrava na sua origem.

O olho cria o seu mundo, sem a necessidade de educação, como ocorre com o som na música. A percepção através dos olhos é muito mais vasta do que através do ouvido. A vista é um sentido muito mais fino que a audição, do qual resulta que a perfeição no movimento é uma música, que um dia terá o seu lugar entre as mais altas expressões da arte conhecidas do ser humano.

Mas para atingir a perfeição, a dança ou movimento deve provir de um desenvolvimento de liberdade absoluta na expressão.

Um dado movimento, feito e refeito em determinado momento, por mais belo que seja, é tão somente o reflexo da verdade.

Uma célebre dançarina inspira as artes para que estas possam copiá-la. Ela própria não deve ser a cópia. A mesma dança vista e revista deveria ser como a folha de uma árvore – jamais completamente a mesma.

O movimento é um instrumento com o qual a dançarina lança no espaço vibrações e ondas de músicas visuais, e, com maestria, expressa todas as emoções humanas e divinas – isso é a dança…

 

Dança Ultravioleta

Pouco antes da morte do professor [Pierre] Curie, fui visitá-lo em seu laboratório em Paris para ver algumas amostras de experiência que me interessavam.

Havia a máquina elétrica “Alta Frequência”, mas não é disso que iremos falar aqui.

Dentre os vários experimentos, havia o do raio de luz chamado “ultravioleta”. Esse raio brilhava no espaço, mas não era visível a olho nu, apesar de provir de um projetor de 60 ampères – sistema de 220 volts. Essa irradiação era invisível até que um objeto fosse colocado em seu caminho, aí então o objeto tornava-se maravilhosamente iluminado.

Dessa forma, todo o espaço é penetrado por raios que provêm de diversos grandes sóis invisíveis. Nós não vemos os raios que iluminam os objetos, exceto quando um desses objetos os intercepta, tornando-os luminosos.

Peguemos como exemplo o nosso próprio sistema solar, em que há apenas um Sol, e nós podemos ver: Netuno, Vênus, Mercúrio, Júpiter, Marte e a Lua movendo-se no espaço, através da luz recebida pelos raios do nosso Sol. Os raios que não vemos, são criados pela ação da influência do Sol em nossa atmosfera.

Desse modo, indizíveis raios de luz surgem quando colocamos um objeto através deles, tornando-os iluminados, como se eles tivessem sido penetrados pela sua própria luz.

O violeta é chamado de “ultravioleta” quando essa cor é duplamente intensa e duplamente invisível.

Para demonstrar a influência e a importância dos raios de luz “ultravioleta”, o professor Curie colocou, no percurso da radiação, um vidro transparente repleto de água: ambos, o vidro e a água, foram iluminados por uma luz azul escuro.

Em seguida, ele pôs alguns grãos de pó na água, que caíram lentamente até o fundo, sem se misturar, e eu pude ver que os grãos não apenas conservavam a sua integridade, mas que, embora iluminados, não era por uma cor violeta, como se poderia imaginar.

Essa experiência impressionou-me profundamente, pois, na natureza das coisas, a luz colorida transformaria, ou deveria transformar, todas as coisas que ela atinge na sua própria cor, ou então numa outra cor – por exemplo, se o objeto é de ouro, a cor violeta deveria alterá-la para um vermelho vivo.

Como o objeto era branco, ele deveria naturalmente tornar-se, atravessado por um raio de luz violeta, num belo violeta. Mas o pó, parecendo com o enxofre, ao atravessar os raios violetas, não exerceu e não sofreu nenhuma mudança.

Refleti logo em como eu poderia transferir os maravilhosos elementos desse pó, como a força e a resistência, para um vestido, de modo a poder mostrá-lo ao mundo.

Pedi então ao professor Curie que me desse um pouco desse pó. Contar o laborioso trabalho que se seguiu, e para o qual contei com ajuda dos químicos mais sábios do nosso tempo, não seria interessante. Basta dizer que consegui o que me propusera.

E para demonstrar que os raios de luz ultravioletas são atualmente projetados sobre o vestido, possuo uma echarpe que é convertida de uma cor a outra, alternadamente, enquanto o vestido resiste a todos os esforços feitos para mudar a sua cor, e permanece insensível a todos os raios de luz.

E é por isso que, embora o vestido nunca se torne violeta, eu batizei essa dança de “a dança Ultravioleta”.

 

A Linguagem da Dança

O alfabeto consiste em caminhar, mas há muitas maneiras de caminhar, em correr, mas há muitas maneiras de correr.

Saltitar, saltar, pular, girar, torcer-se, balançar-se, deslizar, aprender a ter o pescoço e a cabeça livres, e, acima de tudo, a liberdade nos gestos dos braços e das mãos. Expressões que devem estar em harmonia com o resto: cair, ajoelhar-se, deitar-se, rolar, jogar, empurrar, puxar, todas essas coisas são o bê-á-bá da dança.

No início, a linguagem é simples e dá a impressão de reunir as letras do alfabeto em frases bem curtinhas, e isso feito, um grande progresso já foi realizado. Em seguida, vêm as coisas mais importantes, os grandes gestos, os gestos nobres, até que se tenha atingido os pontos mais altos da expressão.

Neste ponto, em que se pode exprimir A Mãe aos pés da Cruz, à espera da aurora para dar sua alma a seu filho crucificado – temos o ponto mais alto que a expressão humana pode atingir.

Ou a resignação do Cristo – o ponto mais alto da expressão divina.

Com o ritmo, isso seria a dança. E por ritmo quero dizer uma série de expressões reunidas e formando uma cadência, uma frase de elevada música espiritual.

Ao se fornecer o andamento necessário, você teria expressões unificadas, como a cadência de uma doce melodia.

Essa é a linguagem da dança.

 

Teoria da Dança

Quando uma dançarina deixa o palco, o esboço de sua dança, se alguém pudesse vê-lo, deveria ser tão perfeito em sua simetria quanto um pedaço de renda.

Por exemplo: um círculo para ser um círculo, deve ser completo. Assim deveriam ser as formas e os ritmos dos movimentos e figuras nos quais a dança foi registrada no palco.

Não fazer nada e fazê-lo bem deveria ser uma necessidade na luz e sombra de uma dançarina, como um momento de silêncio em uma orquestra, ou um momento de repouso do vento que sopra.

Devemos saber o que eles desejam e o que querem dizer, e depois fazê-lo.

O corpo, que a inexperiência, de início, expressa muito mal o que a dançarina sente, irá surpreendê-los com seus resultados depois dos “efeitos” e do “andamento”.

É preciso tempo para aprender a caminhar, assim como para aprender a segurar uma caneta. Paciência, vontade, persistência e esforço têm por resultado a expressão da alma, exatamente como a semente necessita de tempo para se tornar uma árvore.

O bê-á-bá, ou o alfabeto da dança, é se mover no caos. Pouco a pouco os movimentos se intensificam, e com o tempo todo mundo ficará surpreso.

Ser musical é o próprio fundamento da dança – para a multidão.

Uma grande dançarina não precisa de música, pois a música limita-a em seus movimentos e não é a completa liberdade, e uma grande dançarina precisa da maior liberdade possível.

O talento segue qualquer um. O gênio cria algo novo, que nunca foi visto ou conhecido antes.

Mas todas as coisas devem ser criadas de coisas já existentes, colocando isso e aquilo juntos; pois cada coisa que vemos ou conhecemos, ou deixamos de ver ou conhecer, vem da terra que pisamos e dos dedos e do cérebro do ser humano.

Rembrandt deu ao mundo uma nova escola de pintura, mas ele utilizou para isso coisas antigas.

O talento utiliza somente as criações dos outros, e, no entanto, o talento nos surpreende; quando a surpresa se atenua, o tempo mostra-nos no horizonte a diferença entre o efeito da surpresa produzida em nós e a verdade.

Na dança, como em todas as coisas, há o talento, o grande talento e o gênio. Muitas vezes confundimos um com o outro, mas o tempo nos desvenda a verdade, pois o tempo é o horizonte da visão.

No reino da dança, comecemos primeiro com as crianças. Elas estão no bê-á-bá e, no entanto, elas nos fazem perceber como a linguagem deve ser bela quando o alfabeto é aprendido.

A dança seria uma expressão sentida, a expressão dessa sensação em movimentos ritmados. Uma dançarina pode fazer uma pose tal qual se vê num vaso róseo; contudo, para apreciar o que a dançarina no vaso representa, seria mais real e verdadeiro expressá-lo como o sentimos.

Uma criança pode expressar o amor de uma flor.

Uma mãe pode expressar o amor ao seu filho.

Uma criança pode expressar alegria.

Uma mulher pode expressar êxtase.

Uma mulher pode expressar dor.

Uma criança pode expressar tristeza.

Uma criança pode expressar o prazer do movimento.

Uma mulher pode expressar a alegria da paz.

Uma velha senhora pode expressar a tranquilidade.

E para transformar todas essas sensações em dança, isso significa uma música virtual – música dos olhos.

Para dançar, dançar, dançar, e dançar novamente – sentir, ressentir, pensar, e poder, mas não estudar esses movimentos, e quando alguém lhe perguntar como você fez, responda: “eu não sei, pois não sei o que faço, apenas fiz o que senti”.

 

Pássaro Negro

É um fato conhecido que o preto permanece sempre preto, mas é interessante saber que, em contradição com esse fato natural, nada decompõe as moléculas do ar mais profunda e completamente do que o preto. Mas a riqueza de suas miríades de cores só pode ser concebida e apreciada se um pedaço de pano preto, de seda ou de couro, for examinado ao sol por um microscópio, que deve possuir uma lente através da qual os raios do sol possam passar; ocorre então uma dupla decomposição das moléculas do ar, e as partículas menores, compondo o tecido, são cercadas por um arco-íris que muda a cada instante, mostrando a beleza de uma infinidade de cores inimagináveis.

Ao passo que esse mundo de cores microscópicas e maravilhosas, no infinito da natureza, não pode ser visto a olho nu, observei que os raios de luz que são transformados em efeitos, tomando as formas, podem ser refletidos, e os raios de grande força podem produzir, a partir do preto, cores escuras riquíssimas. Uma vez explicado esse princípio, é possível apreciar a maravilhosa grandeza da realidade.

De modo a ampliar a superfície em que o público pode ver e julgar essa prodigiosa lei da natureza, nós demonstramos tudo isso na dança chamada: O Grande Pássaro Negro.

 

 

PARA CITAR ESTE TEXTO

FULLER, Loïe. “Escritos Sobre a Dança”. eRevista Performatus, Inhumas, ano 6, n. 19, jan. 2018. ISSN: 2316-8102.

 

Tradução do francês para o português de Fernando L. Costa

Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy

© 2018 eRevista Performatus

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