Entrevista com Manuel Vason

 

A presente entrevista com Manuel Vason, feita pela curadora Joanna Zylinska, foi originalmente publicada em língua inglesa na plataforma virtual Photomediations Machine. Juntamente, nessa publicação, encontra-se o statement do artista.

As fotos que acompanham o texto foram realizadas em âmbito do workshop Becoming an Image [1], evento que integrou a Mostra Performatus #1, a qual foi organizada por Paulo Aureliano da Mata e Tales Frey. Nesse workshop, que ocorreu no Instituto Hilda Hilst, em Campinas (SP, Brasil), Vason desenvolveu ações individuais e colaborativas com artistas convidados – Ana Hupe, Ana Montenegro, Cecília Cavalieri, Daniela Glamour Garcia, Elen Braga, Henrique Lukas, Maurizio Mancioli, Nathália Mello, Paulo Aureliano da Mata e Priscilla Davanzo – entre os dias 18 a 25 de março de 2014.

 

Manuel Vason representado na ilustração da artista Veridiana Scarpelli para a undécima edição da eRevista Performatus

 

Statement 

Manuel Vason

 

Vejo a minha prática como uma batalha constante contra a impossibilidade de alcançar a “presença”.

Há anos eu me esforço muito para unir fotografia e performance, e vivo todos os dias a ilusão de ter realizado a minha ambição.

No cerne da minha prática há um intercâmbio; entre eu mesmo e o outro artista, entre a obra e o espectador.

Eu me vejo refletido em todos os artistas que conheci, com quem colaborei e por quem me apaixonei… Será que a arte pode ser um relacionamento?

Trabalhar com mentes e corpos diferentes me permite descobrir, todos os dias, algo novo em relação à minha própria mente e meu próprio corpo.

Eu sempre quis ser escultor, apesar de vir usando a fotografia como minha mídia principal.

A superfície é o meu material.

A superfície é o meu maior inimigo.

Talvez a curiosidade esteja me comendo por dentro, mas por enquanto está bem gostoso.

 

Collective Re-Action #4, trabalho criado durando o workshop Becoming an Image em Campinas, São Paulo, 2014

 

Entrevista com Manuel Vason

Joanna Zylinska

 

JOANNA ZYLINSKA: A fotografia parece ter papel importante na sua prática. Mais do que a mera documentação de uma ação ao vivo – algo que é dito para paralisar e, assim, aniquilar a ação –, parece estar dotada de uma força muito mais vital, ser elevada a um papel de agente ativo na performance em si. Será que pode comentar um pouco a respeito de como vê esta relação entre performance e fotografia?

 

MANUEL VASON: Meu ponto de partida é que, se você está interessado em experimentar uma performance, deve ir de encontro a ela ao vivo, em uma interação direta com sua apresentação. De maneira nenhuma tenho a intenção de criar imagens que tenham a arrogância de substituir a apresentação ao vivo ou fazer as vezes dela. Minha prática é informada pela noção de frustração que eu experimentei toda vez que me pediram para documentar uma performance ao vivo. Com todas as minhas boas intenções e diálogo extenso com o artista performático, nunca tenho a pretensão de ser capaz de criar um documento com a capacidade de substituir ou tomar o lugar do evento ao vivo. Portanto, decidi transformar a minha frustração em um estímulo propício e fazer experiências com uma forma alternativa de documentação fotográfica.

Tentei documentar a ação ao vivo trabalhando com o artista performático antes e depois da apresentação perante público ao vivo. Eu tirava uma foto usando uma câmera Polaroid grande, de 10 X 8, permitindo ao artista performático apresentar a ação ao reagir à imagem “instantânea”. Com isso, tratei os artistas performáticos como colaboradores e compartilhei minhas decisões fotográficas com eles (decisões que dizem respeito ao ponto de vista, ao enquadramento, ao foco, à iluminação, à composição etc.). Tomei providência para me hospedar na casa do performer com o objetivo de desenvolver mais intimidade e confiança entre nós. Intermediei a criação de performances para a câmera em locações site-specific, com o objetivo de distanciar as minhas colaborações da parede “branca” da galeria ou do fundo “preto” do teatro.

Recentemente, tenho trabalhado em um novo projeto de livro em que uma nova performance é apresentada em duas imagens: na primeira imagem eu serei o fotógrafo e, na segunda, serei o corpo fotografado pelo artista performático. Penso que performance e fotografia compartilham o conceito de “apresentação”. Ambas as formas de arte tendem à exposição, ambas as formas de arte têm o objetivo de provocar uma emoção no público. Mas as duas formas de arte têm uma relação diferente com o tempo. Ao passo que a fotografia tende a encapsular o tempo, a performance tende a se desenvolver com o tempo. Em vez de insistir nas diferenças, a minha tendência é misturar as duas formas de arte com o objetivo de criar novas formas de extensão ou de existência paralela.

 

Collective Re-Action #3, trabalho criado durando o workshop Becoming an Image em Campinas, São Paulo, 2014

 

JOANNA ZYLINSKA: Eu queria perguntar a respeito da especificidade da mídia fotográfica para você e as forças de mediação que ela cria. Qual é o aspecto da fotografia que o levou a usá-la na relação com a performance? (Por que usa fotografia e não, por exemplo, desenho – que provavelmente poderia cumprir o papel de representação em um sentido técnico, ainda que de maneira menos exata?)

 

MANUEL VASON: Eu estudei fotografia antes de conhecer a arte performática. Vivenciei um grande número de performances ao vivo através da minha câmera e às vezes me considero um artista ao vivo trabalhando com fotografia. Eu adoro os conflitos e as correspondências entre as duas formas de arte e acredito que seja possível praticar uma “intermediária”, uma forma de arte híbrida. Também tenho consciência do poder da imagem e da possibilidade de comunicação sem qualquer necessidade de tradução formal.

 

JOANNA ZYLINSKA: No projeto Becoming an Image [Transformar-se em Imagem], você exemplificou uma série de ações colaborativas que resultaram em algumas imagens formidáveis. Você tinha uma certa ideia dos tipos de “imagem” em que os participantes deveriam se transformar?

 

MANUEL VASONThe Collaborative Actions [As Ações Colaborativas] são o resultado da oficina Becoming an Image [Transformar-se em Imagem]. Durante a primeira parte da oficina, pede-se a todos os participantes que reúnam diversos temas, desenhos pessoais, fotografias, textos, referências, etc. Todo esse material fornece os ingredientes básicos para as nossas ações. Durante a oficina, meu papel varia entre o de líder e o de participante. Tenho consciência de que às vezes as minhas contribuições têm um peso diferente, mas adoro produzir e reagir a material que não é meu.

 

Collective Re-Action #2, trabalho criado durando o workshop Becoming an Image em Campinas, São Paulo, 2014

 

JOANNA ZYLINSKA: Que papel as instruções dadas por você aos participantes têm no projeto? Qual é o objetivo delas?

 

MANUEL VASON: Durante cada oficina, tenho uma quantidade de tempo muito pequena mesmo para construir confiança e intimidade entre os participantes. As instruções são receitas práticas para ações mentais e físicas. A verdadeira fortuna da fotografia digital enquanto meio é a possibilidade de obter resultados rápidos. Durante os primeiros dias, os participantes são bombardeados com tarefas que precisam cumprir por contra própria e também com o corpo dos outros participantes. O processo exige dedicação, mas a energia que vem a seguir tem valor incalculável.

 

JOANNA ZYLINSKA: As fotografias são mais do que um registro do que aconteceu na época nesse projeto? É possível chegar ao ponto de descrevê-las como participantes não humanas das suas ações?

 

MANUEL VASON: Espero que essas imagens funcionem como agentes. Espero que desencadeiem a imaginação do espectador, espero que provoquem sensações, espero que desencadeiem ações futuras. Os corpos nessas imagens são iguais ao corpo do espectador. Acredito que nós todos podemos nos identificar com essas imagens e olhar para elas com espírito ativo de participação.

 

Collective Re-Action #8, trabalho criado durando o workshop Becoming an Image em Campinas, São Paulo, 2014

 

JOANNA ZYLINSKA: Você destaca a noção de “intercâmbio” como algo que delineia boa parte da sua prática, incluindo esse projeto específico. Que tipos de riscos e de aberturas você, enquanto artista, assume nesse tipo de intercâmbio?

 

MANUEL VASON: A razão por que faço esse tipo de trabalho é por estar convencido de que fui contaminado pelas práticas de todos os artistas com quem colaborei até hoje. Quando faço intercâmbio com outro artista, exponho minha própria prática à influência da prática do meu colaborador. O ponto de partida de qualquer colaboração é apagar as suas expectativas e ao mesmo tempo estabelecer aquilo a que não se está pronto para se abrir mão. O benefício desse processo é solidificar os princípios da sua prática ao mesmo tempo que novas alterações também podem ser introduzidas.

 

JOANNA ZYLINSKA: Que tipos de presentes você recebeu dos participantes nesse processo de intercâmbio? Será que alguns desses presentes foram mais inesperados do que outros?

 

MANUEL VASON: Eu descreveria como presentes todas as lembranças e experiências mágicas que coleto durante cada oficina. Esses presentes marcam o que eu faço, o que eu quero fazer e por quê.

 

Collective Re-Action #7, trabalho criado durando o workshop Becoming an Image em Campinas, São Paulo, 2014

 

JOANNA ZYLINSKA: Eu queria falar um pouco sobre a relação entre intermediação e controle e, portanto, entre hospitalidade e violência nas suas colaborações. Esta questão surge a partir do meu próprio interesse em ética – que vejo como abertura à alteridade do outro, à sua humanidade, a permitir que o intercâmbio relacional se desdobre além do controle do assunto ético. No entanto, qualquer relação ética, quer dizer, qualquer relação com a alteridade, é sempre potencialmente marcada pela violência – no sentido de que pode haver potencialmente proximidade demais, amor demais, criatividade demais, etc. Para fazer com que essa relação seja puramente ética, precisamos sempre trabalhar não no sentido de eliminar a violência (porque isso seria uma fantasia impossível), mas sim no sentido do que o filósofo franco-lituano Emmanuel Levinas chamou de “violência boa”. Pode falar um pouco sobre o papel que a violência tem no seu trabalho?

 

MANUEL VASON: Eu não considero toda violência negativa. Acho que a violência é uma característica humana e, se reprimida, pode acabar se tornando ainda mais perigosa. Penso que devemos introduzir as conotações positivas da violência, transgressão e contaminação. A relação colaborativa existe em um modo de constante atração/repulsa: a condição é sempre desequilibrada, mesmo que o objetivo seja alcançar o ponto de equilíbrio perfeito. Esse mecanismo produz energia, e se a energia é um canal na direção de alguma produção criativa, então acho que é benéfico. Incentivo a diversidade porque a considero mais próxima do nosso ser intuitivo e oposta à nossa inclinação racional ao controle.

 

NOTA

[1] “Becoming an Image [Tornar-se em imagem] é o primeiro corpo de obra de Vason que, em vez de surgir de uma série de colaborações com artistas individuais, surge de um ambiente grupal em que Vason conduz ações colaborativas. O ponto de partida é o conceito de Act of Exchange [Ato de Intercâmbio]. A imagem produzida se transforma em uma pele usada para cobrir superfícies com objetos tridimensionais. Ideias são transformadas em ações, depois em fotografias e, finalmente, as fotografias são transformadas em objetos, que aspiram a provocar novas ideias. O ponto de partida é o Act of Exchange – Intercâmbio entre os artistas participantes – Intercâmbio entre as várias práticas, culturas, línguas, idades – Intercâmbio entre diversos meios de expressão – Intercâmbio entre cada artista e as locações, onde as ações se davam – Intercâmbio entre a obra produzida e os espectadores. O assunto de investigação é o processo, que é identificado com a palavra Becoming [Tornar-se]. A obra de arte é processo, a obra de arte está em constante transformação e a nossa compreensão da obra de arte está em constante mudança. O processo é a representação mais próxima de quem somos como seres humanos.” Ver em: VASON, Manuel. Becoming an Image [2013 – ongoing]. Disponível em: <http://www.manuelvason.com/becoming-an-image-2013-ongoing/>. Acesso em 01 de junho de 2014. Tradução de Ana Ban.

 

 

PARA CITAR ESTA PUBLICAÇÃO

ZYLINSKA, Joanna. “Entrevista com Manuel Vason”. eRevista Performatus, Inhumas, ano 2, n. 11, jul. 2014. ISSN: 2316-8102.

 

Tradução de Ana Ban

Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy

© 2014 eRevista Performatus e xs autorxs

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