Carta Aberta de uma Bailarina que se Recusou a Participar na Performance de Marina Abramović no MOCA

 

Sara Wookey, carta publicada a 23 de novembro de 2011.

 

Sara Wookey executando Trio A (1966), de Yvonne Rainer, no Festival performático VIVA!, em Montreal. Fotografia de Guy L’Heureux

 

No dia 7 de novembro, participei de uma audição para a produção da artista performática Marina Abramović no âmbito da gala anual do Museu de Arte Contemporânea (Museum of Contemporary Art ou MOCA) de Los Angeles. Eu quis fazer a audição, porque tinha vontade de participar do projeto de uma artista cujo trabalho acompanhei com interesse durante vários anos, e porque se tratava de um projeto do MOCA, uma instituição à qual estou ligada enquanto artista residente em Los Angeles. De aproximadamente oitocentos concorrentes, fui uma das duzentas pessoas selecionadas na audição. Foi proposto a mim o papel de uma das seis mulheres nuas que reencenariam a obra emblemática de Abramović, Nude with Skeleton (2002), no centro de mesas com lugares que chegaram a custar 100 mil dólares cada. Recusei pelas razões que aqui explano, razões que, acredito, têm de ser tornadas públicas.

Escrevo para abordar três pontos essenciais:

– Primeiro, para juntar a minha voz ao discurso em torno desse evento como artista que criticou a experiência e decidiu afastar-se; uma voz que, eu sinto, tem estado por demais ausente da cobertura dada pelo LA Times e pelo New York Times;

– Segundo, para tornar clara a minha identidade como fonte de informação das condições que são pedidas aos artistas e explicitar o porquê de eu ter optado, até agora, por permanecer no anonimato com relação ao meu e-mail para Yvonne Rainer;

– E, terceiro, para alavancar uma mudança no pensamento dos trabalhadores da cultura, considerando o impacto em toda a linha, a curto e a longo prazo, das nossas escolhas pessoais, quer ao aceitar quer ao recusar qualquer tipo de trabalho.

Cada ponto visa apoiar o meu interesse preponderante na organização e formação de um sindicato que assegure padrões laborais e salários justos para os artistas performativos e de belas-artes, dentro e fora de Los Angeles.

Recusei participar enquanto performer porque o que eu previa era algumas horas de trabalho criativo, uma refeição e a possibilidade de estabelecer contato com outros colegas na mesma linha de ideias, e tudo isso acabou resultando em um trabalho mal remunerado. Pressupunha-se que eu deveria ficar ali, nua e muda numa mesa em rotação lenta, começando o trabalho ainda antes de os visitantes chegarem e ficando até depois da saída deles (um total de cerca de quatro horas). Pressupunha-se que eu deveria ignorar (permanecendo naquilo que Abramović chama de “modo performático”) qualquer assédio físico ou verbal durante a atuação/exposição. Pressupunha-se que eu deveria me comprometer com quinze horas de ensaio e assinar um contrato de confidencialidade, onde se declarava que se eu falasse a alguém do que sucedera na audição seria processada pela Bounce Events, Marketing, Inc., a produtora do evento, e teria que pagar um milhão de dólares além das despesas com os advogados.

Eu receberia 150 dólares como remuneração. Durante a audição, não houve qualquer referência a segurança, letreiros ou sinais indicando perigos para os artistas, e quando perguntei qual o tipo de proteção nos seria dado, responderam-me que não podiam garantir proteção. Enquanto candidata na audição para esse trabalho, tive uma experiência extremamente problemática, potencialmente abusiva e de exploração.

Sou bailarina e coreógrafa profissional, com dezesseis anos de experiência nos Estados Unidos, Canadá e Europa. Tenho um Mestrado em Dança (Belas-Artes) da Universidade da Califórnia, Los Angeles. Enquanto artista profissional trabalhando para ter uma vida de classe média de Los Angeles, sinto-me ultrajada que não existam medidas práticas padronizadas, oficiais ou não, para as condições de trabalho e os benefícios para artistas e performers, ou para as relações entre criador, executante, local de apresentação e produtora, sobretudo quando concerne a indivíduos e instituições tão respeitados e profissionais como é o caso de Abramović e do MOCA. Já produzi mais de uma dúzia de trabalhos performáticos, na Europa, com elencos de 15 a 20 artistas. Ao contratar bailarinos, era obrigada a respeitar uma tabela de remunerações nacional, acordada em base sindicalista, conforme o número de anos de experiência de cada artista. No Canadá, onde executei recentemente uma obra de outro artista, recebi 350 dólares por uma performance de 15 minutos, não incluindo o tempo de ensaio, que foi pago em separado, até um total de 35 horas, em conformidade com as normas estipuladas pela CARFAC (Canadian Artists Representation/Le Front Des Artistes Canadiens), criada em 1968.

Se o meu apelo para a criação de normas laborais para artistas parece estapafúrdio, pense-se na associação dos atores de cinema (Screen Actors Guild ou SAG, criada em 1933), na federação americana dos músicos (American Federation of Musicians ou AFM, fundada em 1896) ou na organização de cúpula dos atores e artistas associados da América (Associated Actors and Artistes of America ou 4As, fundada em 1919), que vinculam as indústrias do cinema, teatro e música a padrões de regulamentação e boas práticas para os artistas e animadores comercialmente ativos. Se existe algum grupo de trabalhadores da cultura que merece normas básicas de trabalho somos nós, performers, que trabalhamos em museus, cujos instrumentos são os nossos corpos e merecemos respeito e um tratamento humano. Os artistas de todas as áreas merecem um tratamento justo e igualitário e podemos organizar-nos, se nos preocuparmos o suficiente para nos empenharmos. Prefiro dar a cara como uma artista franca do que ser uma cabeça silenciada (ou, pior ainda, um “ornamento”), girando lentamente no centro da mesa. Quero uma voz, em alto e bom som.

Abramović convocou artistas, segundo citou o LA Times, que fossem “tipos fortes e silenciosos”. Sou seguramente forte, mas não me conformo com o silêncio nessa situação. Recuso-me a ser uma artista silenciosa em assuntos que afetem o meu modo de subsistência e a cultura da minha prática. Há assuntos muito importantes para serem silenciados e apenas calha de ser eu a denunciar e a romper o silêncio. Falo em resposta à ética, não ao material ou ao conteúdo artístico, e sei que não sou a única a sentir o que sinto.

Recusei a oferta de trabalhar com Abramović e com o MOCA, rejeitei participar na perpetuação de práticas laborais pouco éticas, exploradoras e discriminatórias, tendo em mente a minha comunidade. A situação me impulsionou a trabalhar a favor da criação de normas éticas, direitos laborais e pagamento equitativo para artistas, especialmente bailarinos, que tendem a ser os artistas mais mal pagos.

Chegou o momento de os artistas de Los Angeles e de todo o mundo se unirem, se organizarem e trabalharem para alterar as discrepâncias degeneradas entre os financiadores ricos e poderosos da arte e os artistas, essencialmente pobres, que estão ao seu serviço e de quem é esperado que propiciem o chamado conteúdo avant-garde, presciente ou “entretenimento”, como é cada vez mais o caso; que é, afinal de contas, o merchandising a serviço do dinheiro. Temos de fazer isso não por causa do que aconteceu no MOCA, mas como resposta a uma necessidade maior (dolorosamente demonstrada nos eventos do MOCA) de equidade e justiça para os trabalhadores da cultura.

Não julgo os meus colegas que aceitaram papéis nesse trabalho e eu própria sou vulnerável ao culto do carisma em torno dos artistas que são celebridades. Julgo, antes, as atuais condições sociais, culturais e econômicas que fizeram com que se tornasse normal, natural e até horrivelmente banal a exploração dos trabalhadores da cultura, quer seja perpetrada por entidades como o MOCA e Abramović ou autoimposta pelos próprios artistas.

Quero sugerir um outro modo de pensar: quando nós, enquanto artistas, aceitamos ou rejeitamos trabalho, quando participamos na realização de uma obra, mesmo (ou até especialmente) quando não é de nossa autoria, contribuímos para o estabelecimento de padrões e precedentes para a nossa classe e para todos os que nos seguirem.

Em suma, sou grata a Rainer por utilizar a sua posição (sem que eu tenha precisado pedir a ela) de autoridade cultural e respeitabilidade para tornar públicos estes problemas, para que fosse lançado um debate há tanto tempo adiado. Jeffrey Deitch, diretor do MOCA, foi citado no LA Times como tendo dito, em resposta ao e-mail que eu enviei anonimamente e à carta de Rainer, que “A arte é a respeito do diálogo”. Embora eu concorde com ele, a ideia que Deitch tem do diálogo nesta matéria não passa de um paliativo. Pois só obscurantiza uma situação de injustiça, na qual tanto a artista como a instituição provaram ser irresponsáveis ao recusarem reconhecer que a arte não está imune a padrões éticos. Tentemos um novo discurso que comece neste pensamento.

 

 

Sara Wookey (www.sarawookey.com) é artista,

coreógrafa e consultora criativa residente em Los Angeles.

 

PARA CITAR ESTE TEXTO

WOOKEY, Sara. “Carta Aberta de uma Bailarina que se

Recusou a Participar na Performance de Marina Abramović no MOCA”.

eRevista Performatus, Inhumas, ano 1, n. 3, mar. 2013. ISSN: 2316-8102.

 

Tradução de Susana Canhoto

Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy 

© 2013 eRevista Performatus e a autora

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