Cabaret Voltaire

 

Hugo Ball declamando o poema sonoro Karawane, 1916, num dos últimos eventos do Cabaret Voltaire. Ball colocava os seus textos em suportes de pauta espalhados pelo palco e lia-os alternadamente durante a performance, erguendo e baixando as “asas” de papelão do seu fato

 

Quando fundei o Cabaret Voltaire, estava convencido de que haveria na Suíça alguns jovens que gostariam, como eu, não somente de usufruir de sua independência, mas também de prová-la.

Eu me dirigi ao Sr. Ephraïm, o proprietário da “Meierei”, e lhe disse: “Eu lhe peço, Sr. Ephraïm, que me ceda a sala. Gostaria de fundar um cabaré artístico”. Nós nos entendemos e o Sr. Ephraïm me cedeu a sala. Fui ao encontro de alguns conhecidos. “Deem-me, por favor, um quadro, um desenho, uma gravura. Eu gostaria de associar uma pequena exposição ao meu cabaré.” À imprensa acolhedora de Zurique, eu disse: “Me ajudem. Quero fazer um cabaré internacional: faremos belas coisas”. Entregaram-me quadros e publicaram algumas linhas. Então tivemos, no dia 5 de fevereiro, um cabaré. A Sra. Hennings e a Sra. Leconte cantaram em francês e em dinamarquês. O Sr. Tristan Tzara leu algumas de suas poesias romenas. Uma orquestra de balalaica tocou canções populares e danças russas.

Encontrei muito apoio e simpatia na pessoa do Sr. Slodki, que gravou o cartaz do cabaré, e do Sr. Arp, que colocou obras originais à minha disposição, algumas águas-fortes de Picasso, quadros de seus amigos Otto van Rees e Arthur Segal. Obtive ainda muito apoio do Sr. Tristan Tzara, Marcel Janco e Max Oppenheimer, que apareceram muitas vezes em cena. Organizamos uma noite russa, depois uma francesa (nessa última lemos obras de Apollinaire, Max Jacob, André Salmon, Jarry Laforgue e Rimbaud). Em 26 de fevereiro, chegou Richard Huelsenbeck, de Berlim, e, no dia 30 de março, tocamos dois admiráveis cantos negros (sempre com a grande caixa: bonn bonn bonn drabatja mo gere, drabatja mo bonnooooooooooooooo). O Sr. Laban assistia e ficou maravilhado. E, sob a iniciativa do Sr. Tristan Tzara, os Srs. Huelsenbeck, Janko e o próprio Tzara interpretaram (pela primeira vez em Zurique e no mundo inteiro) os versos simultâneos do Srs. Henri Barzun e Fernand Divoire, e um poema simultâneo composto por eles mesmos que foi impresso nas páginas 6-7 do presente caderno. Hoje, e com a ajuda de nossos amigos da França, da Itália e da Rússia, publicamos este pequeno caderno. Ele deve exprimir com exatidão a atividade deste cabaré cujo objetivo é lembrar que existe, para além da guerra e das pátrias, homens independentes que vivem de outros ideais.

A intenção dos artistas reunidos aqui é de publicar uma revista internacional. A revista será publicada em Zurique e terá o nome de “DADA” Dada Dada Dada Dada.

 

Hugo Ball, Zurique, 15 de maio de 1916

 

 

Este texto foi publicado em alemão e em francês no Cabaret Voltaire, seleção literária editada por Hugo Ball, em Zurique. Ele foi republicado no fac-símile das revistas dada, Dada, Zurich-Paris, 1916-1922, edição Jean-Michel Place, em 1981 (tradução dos textos em alemão por Sabine Wolf). Reproduzimos aqui a tradução francesa original de Hugo Ball (Nota do Prefacista Michel Giroud). Esta tradução foi realizada a partir da seguinte edição: BALL, Hugo. Dada à Zurich 1915-1917. Dijon, França: Les Presses du réel, 2006 (Nota da Tradutora Brasileira).

 

PARA CITAR ESTE TEXTO

BALL, Hugo. “Cabaret Voltaire”. eRevista PerformatusInhumas, ano 4, n. 15, jan. 2016. ISSN: 2316-8102.

 

Tradução de Suianni Cordeiro Macedo

Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy

© 2016 eRevista Performatus e o autor

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