Balões Pretos em Paisagem Luminosa

 

Jorge Restrepo e Gabriela Alonso, Aire, 2009. Fotografia de Jorge A. Espinosa

 

A Fundação para o Museu do Homem Hondurenho, em sua longa trajetória tem apoiado as expressões artísticas do país. Em sua agenda observamos um patrocínio aberto que contempla desde manifestações artísticas tradicionais até audazes propostas de arte contemporânea como foi a ação púbica chamada El Mayoreo, realizada por Jorge Restrepo num mercado de Tegucigalpa, e Alfombra, na mesma cidade. Nessa oportunidade, a Fundação abre seu programa para que Jorge Restrepo, colombiano, e Gabriela Alonso, argentina, formulem o projeto performático Aire.

Há vários anos, Jorge Restrepo e Gabriela Alonso desenvolvem uma importante atividade performática. Penso que Restrepo se lança em direção a uma performance motivado por uma necessidade natural de perceber a arte como espaço para a ação; busca apagar as fronteiras entre artista e público. Digo “necessidade natural” porque esse artista, dotado de uma sensibilidade excepcional, não poderia se limitar às bordas de uma tela. Nesse sentido, Alonso disse: “provenho da pintura e da gravura, incorporo mais tarde a fotografia e o vídeo. Quando já não atinjo nada, abranjo os espaços urbanos e eles, como suporte, me convidam à ação”. Ambos artistas se movem sob o mesmo princípio que permite a um poeta passar da poesia à prosa poética: a necessidade de dizer mais.

 

Jorge Restrepo e Gabriela Alonso, Aire, 2009. Fotografia de Jorge A. Espinosa

 

O Desenho Performático

A performance se desenvolveu na Universidade Zamorano, localizada no oriente de Honduras. Participaram aproximadamente mil estudantes dessa instituição. A obra se estruturou em duas ações: a primeira consistiu em encher balões pretos, manipulando-os depois para obter uma sinfonia de sons agudos e graves em todo o espaço; a segunda ação teve o propósito de encher os mesmos balões para lançá-los, de maneira imediata, para cima, criando a imagem de uma “nuvem preta”. Mais adiante estudaremos essa simbologia para dizer algo a respeito do seu significado; mas antes, quero me deter na análise de alguns aspectos formais que chamam a atenção para essa performance.

A performance tem traços pedagógicos que mostram os resultados precedidos de um processo. Muitas vezes esse processo está desenhado sobre a base de um cuidadoso plano de instruções, mas o artista deve ter cuidado para que essa ação pedagógica fique absolutamente subordinada aos objetivos estéticos do projeto. Caso ocorra o contrário, corre-se o risco de que a ação se converta num pobre espetáculo formal, e acredito que Restrepo e Alonso souberam resolver com cuidado essa situação. Aire é uma performance sombria, e assim se deve conceber esse gênero. Na minha opinião, os dois artistas confirmam a tese de Allan Kaprow, para quem a intervenção performática devia fundamentar-se num comportamento e num modo de fazer baseado na simplicidade, quer dizer, na mesura. Essa performance, apesar de ser a ação artística de caráter massivo mais importante que se fez em Honduras, não possui nenhuma complexidade formal; sua ordem de complexidade é a que dita sua função simbólica, porque a essa sobriedade formal lhe corresponderá uma rica estrutura de significações.

Se considerarmos que nessa universidade os estudantes só se reúnem para atividades estritamente acadêmicas, quero ressaltar que a mobilização de centenas de estudantes universitários até o lugar onde foram realizadas as ações performáticas é, em si mesma, uma performance. Esses jovens com suas camisetas pretas saindo em massa dos pavilhões em direção ao campo de futebol encenaram um verdadeiro acontecimento: parecia a rebelião das “camisetas pretas”. Os estudantes foram objeto e sujeito da performance; objeto porque seus corpos conformaram, junto com os balões pretos, a plataforma visual do projeto, e esses corpos, dessa maneira, foram dotados de uma identidade para inserir-se e ser percebidos; a camiseta preta não é uma arbitrariedade, é um dos traços de identidade sensorial. Por outro lado, os jovens foram sujeito porque, apesar de a performance ser uma ação em massa, cada um deles proporcionou uma energia particular às ações. Por isso quero enfatizar o que apontei no começo: as normas ou as instruções, mesmo sendo planejadas para que fossem executadas simultaneamente por centenas de estudantes, não apagaram o gesto com o qual cada um se entregou à ação. A instrução só aviventou um sentimento compartilhado. Sobre isso, Bartolomé Ferrando disse que “a participação ou a intervenção na obra é capaz de provocar a identidade do sujeito que intervém, a participação do outro contribui com certo equilíbrio de forças no interior do acontecimento artístico”. Se nas imagens do registo pudéssemos isolar os participantes, veríamos que cada um realizou uma ação para o outro, e a unidade de toda essa energia determinou o aspecto lúcido do projeto: Aire é o rito da respiração.

Outro aspecto formal que interessa definir para os propósitos desta análise é o espaço. Em Aire, o espaço é um campo aberto, vasto e livre. Na verdade, o campo é uma paisagem absolutamente atmosférica. Essas características do espaço o associam à natureza conceitual da obra. A meu juízo, o espaço escolhido se converte em signo e passa a formar parte da trama semântica. O espaço é um material, não um vazio, dizia Nicolas Schöffer. Nada melhor que conceber som e plasticidade num espaço que possui toda a energia para potencializar o desenvolvimento de uma ação performática.

 

Jorge Restrepo e Gabriela Alonso, Aire, 2009. Fotografia de Jorge A. Espinosa

 

As Determinações Simbólicas

A passagem formal da performance nos aproxima inexoravelmente do estado de suas significações. Eu tinha dito que a performance Aire constava de duas ações: a primeira, uma ação sonora (sons dos balões ao esvaziar-se), e a segunda, uma ação visual (uma nuvem de balões pretos).

A ação sonora corresponde ao cartão de Gabriela Alonso que, desde a performance Não só os Soldados Morrem na Guerra, tinha concebido, no gesto de esvaziar os balões (brancos), um “berro que rememora as sirenes”. Essa metáfora pode ter implicações de dor e advertência. Alonso também liderou a performance Aire na Argentina, como uma homenagem ao trabalho de Restrepo em Aliento. Ali Alonso introduziu a libertação alegre dos balões brancos… Hoje os dois artistas retomam o conjunto de cenas e as ampliam, com uma performance de massa, num novo território, e com um apoio conceitual que se foca em outras problemáticas. É como se os dois artistas, Alonso e Restrepo, conversassem cara a cara com a história da arte contemporânea. Em Zamorano, presenciamos centenas de jovens deixando escapar o ar pela boca dos balões, e aquilo foi um concerto que avivava todos os sentidos, era um som que comunicava, que dizia e não dizia, som-choro, som-confusão, som-alarme, som-alerta, som-espasmo. Nesse dia, o som alcançou a dimensão de todas as emoções possíveis: som-poesia. A simbologia adquire conotações dramáticas quando o ar que se liberta provém de balões pretos e não brancos. O resultado desemboca numa metáfora que relembra um profundo ensejo de liberdade que toca todas as bases da cultura humana.

Mesmo que as coordenadas conceituais da performance estejam assentadas na ficha técnica, devo confessar que Aire é um projeto que vai além da sua programação. A ação o liberta dos limites conceituais pré-fixados, permitindo que o observador construa seu próprio universo conceitual sem cair em indeterminações vagas, pois ambos artistas estabelecem uma simbologia que remete a contextos críticos bem estabelecidos. É nesses contextos que o público adquire toda a liberdade de indagar e propor leituras: o som é um universo sonoro que pode convocar a simples excitação dos sentidos como a mais fina reflexão.

A segunda ação da performance consiste em encher os balões e lançá-los ao ar, formando, por alguns segundos, uma nuvem preta. A ação é efêmera, dura o tempo que o ar demora para escapar dos balões: “ar és e ao ar voltarás”. O carbono sequestrado por uns segundos volta a multiplicar suas moléculas, a se encontrar com a vida, a motivar a respiração do planeta, a equilibrar o oxigênio; nessa obra, o ar é conceito e é material, é recurso para a ação e é a ação mesma. Não esqueçamos que a novidade da linguagem performática reside na natureza do seu signo que opera direta e imediatamente sobre a realidade, elaborando seu perfil ideológico a partir da ação e não da simples contemplação. A proposta dos balões pretos outorga à ação uma sobriedade particular, escapando do colorido circense para adquirir uma preferencialidade crítico-reflexiva. Dizia anteriormente que Aire é uma performance que convoca a outras variantes conceituais: os balões pretos que terminam conformando uma nuvem preta, além da alusão à contaminação, remetem à imagem de um país ensombrado pela crise política mais profunda dos últimos trinta anos. Os códigos dos balões pretos transluzem uma metáfora arrepiante, sórdida, brutal: contaminação do ar, mas, ao mesmo tempo, envenenamento do espírito.

Finalmente, cabe ressaltar um momento histórico com o qual se correlaciona – e se sustenta – essa obra. De maneira simultânea à realização da performance, representantes dos países que integram as Nações Unidas se preparavam, em Copenhague, para dar início à cúpula sobre a mudança climática. Considerada por muitos como a reunião que definirá a viabilidade do planeta, essa congregação focará sua atenção na negociação dos limites das emissões de carbono geradas pela atividade humana. Esse arcabouço de decisões políticas de tal transcendência é a razão pela qual a performance Aire é transcendente e pertinente.

Balões pretos, jovens alegres em camisetas pretas, sons graves e agudos, todos habitando uma paisagem espetacular que nos faz pensar em um complexo mundo de contradições que a arte explora desde “a pele nua de uma lágrima” até o doce vento que leva o canto dos pássaros.

 

 

 

PARA CITAR ESTE TEXTO

LANZA, Carlos A. “Balões Pretos em Paisagem Luminosa”. eRevista Performatus, Inhumas, ano 1, n. 1, nov. 2012. ISSN: 2316-8102.

 

Tradução de Jorge Lara

Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy

© 2012 eRevista Performatus e o autor

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