Suianni Cordeiro Macedo: “O Retrato de Vieira da Silva por Murilo Mendes”

 

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A Vieira da Silva, que nos propõe Murilo Mendes, é um retrato literário, onde à observação crítica e apurada se misturam harmonicamente à imaginação e à memória. A Vieira da Silva, que surge desse conjunto de obras, é ao mesmo tempo memória –lembrada nos tempos brasileiros e saudada sempre nos anos de amizade – e experiência – experimentada nos anos de observação cuidada da obra pictórica. Nesta obra, pretendemos decompor a estrutura de pensamento que rege à escrita sobre artes plásticas de Mendes, para que, à medida que as suas estruturas estejam à mostra, possamos recompor uma imagem desta artista. O olhar de poeta-crítico lançado por Murilo Mendes à obra da artista realça os problemas plásticos e estéticos que a moveram em direção à criação de um estilo refletido e particular. Ao mesmo tempo, desvela as múltiplas reflexões que o poeta empreendeu para se aproximar da imagem através da palavra poética sem subordinar a primeira à segunda.

 

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VIEIRA DA SILVA: RETRATO LITERÁRIO

Luzya Marxiellen

 

Sua forte ligação com as artes plásticas e a peculiaridade com a qual a esboça em algumas de suas obras fizeram de Murilo Mendes um crítico de arte diferenciado. Nele, a obra poética e a obra plástica dialogam em expansões de sentidos. A partir desta constatação, a pesquisadora Suianni Cordeiro destaca, em livro lançado em agosto no Museu de Arte Murilo Mendes (MAMM), o retrato literário que o poeta traça da pintora portuguesa, e sua amiga pessoal, Maria Helena Vieira da Silva.

Na introdução de O retrato de Vieira da Silva por Murilo Mendes, Suianni ressalta que as obras de Murilo que têm por tema a autora lisboeta ou suas pinturas registram de maneira única uma imagem da artista. A construção do retrato literário resulta em um misto da mulher em si e de suas obras, chegando a um ponto em que se pode confundir autor e criatura.

Devido ao fato de que seu marido, Árpád Szenes era judeu e de ela ter perdido a nacionalidade portuguesa, o casal residiu por um longo tempo no Brasil, durante a Segunda Guerra Mundial e no período pós-guerra. Foi aí que os laços de amizade se estreitaram entre o casal e Murilo Mendes. Ao retornarem à Europa, os amigos continuaram em contato através de troca de correspondências – que se encontram documentadas no MAMM.

Influenciada pelo movimento cultural abstrato, que pode ser definido pela não representação realista de objetos, a artista apresenta relações formais entre cores, linhas e superfícies para compor a realidade de sua obra. No entanto, durante o período em que permanece no Brasil, a pintora retrata algumas formas de realidade do país, com isso escapando às premissas da vanguarda europeia.

Pelos retratos literários que surgem dos traços do poeta brasileiro sobre a amiga portuguesa, percebe-se que a Vieira da Silva que surge do conjunto de obras é simultaneamente memória – quando, lembrada pelos anos de estadia em território tupiniquim – e experiência, resultante dos anos de observação cuidada da obra pictórica. O texto de Murilo expande a obra de arte e cria um espaço intermediário entre a poesia e a pintura, onde o leitor participa ao mesmo tempo dos fazeres plástico e literário. E a partir do que o poeta descreve, pode-se concluir que a pintora jamais deixou a influência abstrata de lado, já que, mesmo retratando cenas do real, sua essência abstrata não mudara.

Suianni Cordeiro diz que lançar seu livro no MAMM foi de extrema importância para sentir a resposta da repercussão da obra, que tem por objetivo desvelar as múltiplas reflexões que o poeta empreendeu para aproximar uma imagem palpável através da palavra poética. No entanto, ela estabelece parâmetros para que a primeira não esteja subordinada à segunda. “Foi importante trazer pra cá, pois é interessante divulgar para as pessoas que têm o mesmo interesse em estudar o Murilo, podendo sentir de perto a recepção do público. Além disso, foi fundamental estreitar os laços e conhecer a instituição, que, mesmo fornecendo todo o apoio durante a pesquisa documental, não havia conhecido ainda”, pontua.