A identidade, a Arte e a Vida de Ana Mendes

 

Self-portrait (2011), performance de Ana Mendes

 

As inspirações para um artista desenvolver os seus métodos criativos advêm de diferentes meios e cada artista edifica a sua obra com as bases temáticas que lhe perfazem sentido. Ana Mendes, artista portuguesa, diz que a vida como um todo é estímulo para suas criações. Com obviedade, certos tópicos são recorrentes nas suas obras – como o argumento, por exemplo, em torno da noção de identidade e da crença em Deus –, mas, apesar das propagações de um mesmo tema, os trabalhos de Ana Mendes não têm um arquétipo e não são concretizados em um mesmo tipo de suporte artístico. A hibridez é recursiva quase sempre nas suas obras, não permitindo, inclusive, que rotulemos com facilidade o gênero artístico proporcionado em cada uma de suas invenções. A performance para ela é um meio frequente de manifestação, até porque é uma expressão artística que rejeita amarras, que nega definições intransigentes e, pelo que percebemos, essa ideia soa aprazível para a artista que se apoia em um território mais versátil.

Na conceituada escola alemã da Bauhaus, Ana foi uma “guest student” e, como sabemos a respeito da tradição de ensino desta escola, antes de ser fechada pelos nazistas em 1932, a instituição buscava estabelecer uma síntese entre a arte e a tecnologia para atingir as formas “puras”. Uma extensão da Escola da Bauhaus, após seu encerramento, ocorreu nos E.U.A. em 1933 com a criação do Black Mountain College, onde a metodologia de ensino propunha um estudo geral de fenômenos fundamentais, tais como espaço, forma, cor, luz, som, movimento, música, tempo, etc. O curso não pretendia oferecer “formação em nenhum segmento específico do teatro contemporâneo” [1]; tratava-se, portanto, de um ensinamento interdisciplinar e, talvez, tenha sido justamente esse perfil de doutrina que movimentou Ana Mendes a se enquadrar na Bauhaus University em 2012 para aprimorar seus conhecimentos e aplica-los com mais perceptibilidade nas suas obras.

 

Self-portrait (2011), performance de Ana Mendes

 

O primeiro trabalho da artista que presenciei, sob intermédio do vídeo, foi o Self-portrait, durante o Rapid Pulse International Festival em Chicago em 2012. Tão potente quanto a uma apresentação ao vivo, a obra nos remetia a entrevistas feitas em zonas de fronteira, tal qual a que enfrentei para entrar nos E.U.A. para ali expor meu trabalho ao vivo e conhecer o de Ana Mendes através de uma exibição de videoperformances. Na sua performance, a artista mostrava-se em um palco livre de quaisquer ornamentos; além do corpo e da voz da artista, havia um microfone e uma pequena garrafa de água. Uma voz em off perturbava Ana Mendes com perguntas intermináveis sobre a sua nacionalidade, sobre sua vida sexual, doenças que pudesse ter, entre outras questões. Na iluminação cênica, observávamos os tons de cores que iam gradativamente sendo alterados até restar a escuridão preenchida pela voz que perguntava e pela voz que respondia. Com este trabalho, que abordava sobretudo motes em torno da identidade e da territorialidade, Ana ultrapassou diversas demarcações territoriais para apresentar essa performance: na Espanha, na Suécia, em Portugal, na Inglaterra, na Irlanda, na Holanda, na Bósnia e, sob o formato de vídeo, nos Estados Unidos.

O próprio diálogo estabelecido com a artista através de e-mail marcou a reminiscência do que falávamos sobre identidade e territorialidade. Iniciei de Portugal as perguntas a artista e terminei do Brasil, enquanto ela me respondeu da Inglaterra e da Alemanha. Quatro territórios distintos inteiraram a conversação virtual que era escrita e lida nesses diferentes países. Partindo de mim, um português tipicamente brasileiro – agarrado a gerúndios –, enquanto Ana Mendes registrava a informalidade no uso impecável da segunda pessoa.

Da nossa troca de e-mails, destaco a seguinte pergunta e resposta:

 

TALES FREY – A arte da performance, que tem o corpo como fundamental suporte, é um meio recursivo de expressão para a elaboração dos seus trabalhos dentro de uma temática que gira em torno da noção de identidade, que é tão abundante neste presente momento. Comente isso e, se possível, comente os seus trabalhos que mais abordam essa ideia.

 

ANA MENDES – O meu trabalho é baseado na ideia de movimento e ritmo. Quando começo um trabalho, muitas vezes não tenho um objectivo ou ideia ou tema concreto, trabalho com intuição. Apenas no final do trabalho, ou pelo menos, do primeiro esboço, consigo ter uma noção do que estou a fazer e dos vários layers envolvidos. Procuro não dominar todos os sentidos do meu trabalho, defini-lo ou limitá-lo. Quero que as pessoas o possam interpretar livremente. Por isso, trabalho com uma linguagem tão contida… 

Neste contexto, eu não tenho temas definidos. A vida como um todo interessa-me… Mas, é verdade, que a identidade é um tema recorrente. No caso da peça Self-portrait, foi um acidente, porque eu nunca quis falar sobre mim própria, sempre achei que as minhas peças eram sobre o outro… No entanto, ao fazer uma residência na Irlanda, um dos mentores sugeriu que eu fizesse um trabalho sobre a minha identidade. Eu recusei no início, mas acabei por aceitar precisamente por ser algo tão impensável para mim. Achei que podia ser um desafio interessante. Por outro lado, eu sempre coleccionei os meus dados pessoais, e questionei-me a mim própria acerca do peso que a nossa herança (genética, o sítio onde nascemos, a história da nossa família etc.) tem na nossa vida. Resolvi fazer então uma performance que funciona como um questionário de polícia. Uma voz off faz-me perguntas sobre a minha vida pessoal, desde o local de nascimento até ao historial de doenças na minha família. Eu respondo a todas as questões de forma automática, usando dados verídicos, mas a forma como eu respondo às questões faz com que a realidade pareça ficção.

Depois de fazer Self-portrait, escrevi outra peça chamada Outro Homem para um encontro de novas dramaturgias organizado pelo Colectivo 84 no Teatro São Luís, em Lisboa, sobre a identidade portuguesa vista do ponto de vista de dois imigrantes. Neste momento, estou a desenvolver outra performance chamada Dance Play que cruza a identidade alemã, vista sobre a perspectiva de um estrangeiro, com a relação entre o inglês e o alemão, enquanto duas línguas que derivam uma da outra, e a identidade de homem versus mulher, enquanto dois géneros que derivam um do outro…

Por isso, sim, acho que a identidade é um tema que tem muito a ver com o meu trabalho. Não sei se vou continuar a trabalhar neste tema, porque como disse não é propriamente uma busca… acho que o momento em que vivemos agora no mundo é propício para esse tipo de abordagens, porque a identidade é uma questão que se coloca em tempos de mudança. Se mudas sempre, perguntas-te quem sou eu, porque é preciso permanência para construir uma identidade.

 

À esquerda, consta a instalação Backspace (2011) de Ana Mendes

 

Ana Mendes trabalha principalmente nas artes cênicas: teatro – escrevendo peças – e performance. Também, desenvolve projetos artísticos em vídeo, som e fotografia. E por explorar diferentes suportes, opta por vezes por assumir as concepções multidisciplinares em que mistura as diferentes modalidades que ela vem realizando nos últimos anos. No Canadá, a artista expôs Backspace, uma instalação composta por um espelho (que distorce a imagem das pessoas) juntamente com um texto em áudio e, então, os visitantes ouvem a peça gravada através de fones de ouvido ao mesmo tempo que ridicularizam ou apreciam positivamente as suas imagens deformadas diante do espelho. Conforme explica a artista, o áudio funciona como um ensaio acerca da anorexia – “no início a gravação é mais divertida e interativa, mas termina com uma listagem de descrições técnicas e bibliográficas”.

Embora a vida como um todo seja a mola propulsora para as criações de Ana Mendes, seu interesse pela identidade do indivíduo é incomensurável, seja ela referente aos padrões de beleza e a sua busca por uma construção corporal que lhe dá uma determinada especificidade, seja ela referente aos limites territoriais e ao multiculturalismo, ou ainda, às crenças que constroem o indivíduo e lhe dão alguma identificação particular na sociedade.

 

Das Ist Mein Gott (2012). Série de fotos e videoperformances de Ana Mendes

 

Das Ist Mein Gott (2012). Série de fotos e videoperformances de Ana Mendes

 

Das Ist Mein Gott, ou Este é o meu Deus é uma série de fotografias e videoperformances em que Ana Mendes, com a colaboração de outros artistas, expôs tanto a ideia de identidade territorial quanto a religiosa em um trabalho que cada um dos imigrantes, cúmplices da obra, escolheu um objeto que pudesse representar a ideia de Deus de forma abstrata.

Dentre os artistas que colaboraram com este trabalho estão: Ali Kilniç, da Turquia, ateu, estudante de filosofia na Alemanha, o qual escolheu um tênis Nike como forma de expor o seu Deus. Uma forma irônica que mostra uma marca ícone do capitalismo brutal em conformidade com um nome que corresponde ao deus da Fortuna em Grego, representado na imagem como um tênis tão comum na sociedade de consumo. Já Hsinyen Cynthia Wei, de Taiwan, estudante de performance em Chicago, usa arroz e incenso para representar o seu Deus, pois estes são os elementos usados para a reza em seu país. Marija Ančić, da Sérvia, expõe a sua total descrença em Deus na ausência de algo que possa representá-lo ao mesmo tempo que afirma a sua crença convicta, quando sem nada nas mãos pode afirmar que tudo é Deus quando mostra nada como Deus. Shailor González, do México, cozinheiro, escultor e pintor, expõe um pedaço de carne como Deus. Tão pungente como todos os outros contribuintes desse trabalho, o artista oferece ao observador um pedaço de um ser morto, ou seja, um pedaço de um corpo desprovido de alma em sua forma pura e bruta, meio de expressão que revela a sua posição com relação ao pensamento religioso que condena a matéria em prol do espírito.

Em seus trabalhos, que emergem de forma orgânica – poucas vezes de forma mais sujeitada a encomenda, como no caso do Backspace, que nem por isso deixam sua organicidade de fora –  Ana Mendes procura expor suas indagações sem extravasar seu sarcasmo ou sua brandura, partindo de um micro para um macrocosmo, buscando averiguações que toam como um retrato da sua própria vida quando sacode os preceitos que definem o estrangeiro fora de seu território. Embora ela não queira revelar em seu trabalho a sua própria identidade, conforme observamos em seu discurso sobre o Self-portrait, por exemplo, acaba por fazer isso, não só porque a arte é inerente à vida, mas porque a artista parece se sustentar nas suas próprias vivências fora de Portugal para refletir condições que dizem respeito a outras pessoas que vivem em condições similares. Faz o mesmo quando pensa na existência de Deus e na aparência pessoal perante ao mundo.

E do universo tão reservado dessa artista de identidade que ultrapassa a sua condição de portuguesa – nela está timbrado um caráter multiculturalista por excelência – ela produz arte sem se preocupar com os meios e os fins, mas unicamente, com o princípio que parte do movimento e do ritmo, de onde advém a sublime expressão que é coesa ao nosso tempo e por isso a identidade, a arte e a vida de Ana Mendes nos fazem sentido.

 

Nota

[1] GOLDBERG, Roselee. A arte da performance: do futurismo ao presente, pág. 111.

 

Bibliografia

Disponível em: <www.anamendes.com> Acessado em: 02 de Fevereiro de 2013.

GOLDBERG, Rose LeeA arte da performance: do futurismo ao presente. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

 

 

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