Com Dois Riscos, Escrevemos X

 

Escrevemos o Anti-Édipo a dois. Como cada um de nós era vários, já era muita gente. Utilizamos tudo o que nos aproximava, o mais próximo e o mais distante. Distribuímos hábeis pseudônimos para dissimular. Por que preservamos nossos nomes? Por hábito, exclusivamente por hábito. Para passarmos despercebidos. Para tornar imperceptível, não a nós mesmos, mas o que nos faz agir, experimentar ou pensar. E, finalmente, porque é agradável falar como todo mundo e dizer o sol nasce, quando todo mundo sabe que esta é apenas uma maneira de falar. Não chegar ao ponto em que não se diz mais EU, mas ao ponto em que já não tem qualquer importância dizer ou não dizer EU. Não somos mais nós mesmos. Cada um conhecerá os seus. Fomos ajudados, aspirados, multiplicados. [1]

 

Pré-risco ou o esboço do X no caderno de caligrafia

 

Márcia X., Pancake, 2001

 

Como um leve traçado, antes propriamente de ele se tornar um risco, antes de propagarmos uma arriscada ousadia e antes de tracejarmos uma noção mais clara do que é pretendido com este escrito, assumimos que a primeira pessoa do plural admitida aqui neste texto é fatalmente uma conexão de duas mãos (de diferentes artistas) a riscarem as linhas – mas não esqueçamos que vários segmentos de reta formam curvas, o que sempre nos agrada – para atingirem o X da mesma questão: a avaliação de como um dos trabalhos da artista carioca Márcia X. (1959-2005) está presente em uma criação específica de cada um(a) de nós.

O X abordado não é uma incógnita; é um X que multiplica, que distribui, que alastra, que espalha, expande.

Imaginemos Márcia como o centro de um X e as extremidades dessa letra como disseminações a partir desse mesmo centro. Logo, o nosso trabalho – cada um(a) formando um risco, uma barra sobreposta a uma contrabarra – é capaz de resgatar um mesmo cerne existente a partir do cruzamento dos dois; um ponto em comum. Essa noção é mais eficaz do que se imaginássemos um X sobre o outro, o que formaria um asterisco e indicaria, assim, uma lacuna ou omissão de trecho numa citação ou transcrição, afinal o tal X da questão levantada é delineado por duas pessoas justamente para mencionarmos o X pertencente ao nome de uma terceira, precisamente a que nos serviu de inspiração em algum(alguns) aspecto(s).

Com esses nossos dois riscos – cada um(a) riscando do seu próprio jeito sobre o risco dX outrX e cada risco referindo-se ao(à) outrX em terceira pessoa –, arriscamos a escrita de um X que merece ser especulado e esmiuçado para que outros cruzamentos se formem, para que esse nosso X não seja único e que o X inaugural não culmine num ponto final.

 

Risco 1

 

Marquei um X, um X, um X no seu coração

Pra você nunca me esquecer

Não vai me esquecer, juro que não [2]

 

Pancake (2001) é o nome da performance de Márcia X. em que ela se banhava com diversas latas gigantes de leite condensado e que, por fim, jogava sobre si, com auxílio de uma peneira enorme, alguns quilos de granulados coloridos. Essa é a ação específica que motivou Grasiele Sousa a criar uma intertextualidade com a tal obra através de Cabelódroma X. (2014), performance pela qual a artista retoma, inclusive, diversos dos seus trabalhos pessoais, mas que, nessa configuração, são referidos em cruzamento com os de Márcia X.

Para começar o meu risco (que se cruza com o dela), podemos ver o cabelo de Grasiele Cabelódroma como o “dromo” do seu “não drama”, ou seja, como o seu lugar de ponderação, como o seu espaço de imaginação, o qual, indubitavelmente, em aspectos formais, coincide com os longos cabelos revoltosos de Márcia X. apresentados sempre soltos em suas performances, sempre volumosos e descabelados, com exceção da sua derradeira performance A Cadeira Careca (2004) com coautoria de Ricardo Ventura.

Antes de prosseguirmos, é válido comentar essa última ação da Márcia X. em que um exemplar da famosa cadeira “Chaise Longue Model Nr. B 306” de Le Corbusier foi raspada por dois outros performers enquanto a artista permanecia sentada sobre a tal cadeira em frente ao Palácio Gustavo Capanema no Rio de Janeiro. Ao se levantar, o que sobrou por debaixo da artista foi justamente a sua silhueta composta por cabelos, a qual podemos forçosamente (ou não) relacionar às composições de Grasiele Sousa quando ela usa seus longuíssimos fios de cabelo para transformar o seu rosto em uma única silhueta cabeluda, para dar sentido ao seu “cabelódromo”.

 

Grasiele Sousa, Cabelódroma X., 2014. Fotografia de Tales Frey

 

Mas retomemos o risco proposto para que ele não faça tantas curvas.

Logo no início da performance Cabelódroma X., as “artes marciais” já são referidas sagazmente sob o propósito de fazer referência ao trabalho da artista que é o nosso grande X da questão. Do que seria a movimentação que sustenta o kung fu, o karatê, o judô, o jiu-jitsu, o muay thai, o taekwondo, entre outras artes marciais, ela retoma – através de movimentos corporais – o texto Noite de Artes Marciais, divulgado pela Márcia X. na sua ação Academia Performance (1987) ao mesmo tempo que (des)penteia os cabelos com uma escova.

 

Grasiele Sousa, Cabelódroma X., 2014. Fotografias de Tales Frey

 

Não seria forçoso dizer que a leitura de Grasiele para a performance Pancake é também uma espécie de cover [3], só que, em vez de leite condensado, ela usa potes abissais de condicionadores capilares e, no lugar de granulados coloridos, usa pequenas escovas de cabelo de brinquedo multicolores que são lançadas sobre si. A imagem formada é icônica, pois a referência é ultra-assumida: a bacia (dentro da qual ela se posiciona), a acomodação dos objetos, enfim, tudo é estrategicamente organizado de forma similar à performance de X., tudo é taticamente constituído para que voltemos o nosso olhar à referência.

Por fim, depois de Grasiele construir sobre si um aspecto completamente repugnante e exibir o contrário da ideia de embelezamento fixada nos produtos capilares, a artista inicia uma série de poses que aludem a certas imagens iconográficas como a de Monalisa, de Leonardo Da Vinci, a de Vénus de Milo, de Botticelli, o topete de Elvis Presley, representações clássicas de Jesus Cristo, a obra O Grito, de Munch e moicano punk que muita gente já fez no cabelo enquanto tomava um banho com a cabeça lotada de xampu ou condicionador.

 

Grasiele Sousa, Cabelódroma X., 2014. Fotografia de Priscilla Davanzo

 

De certa forma, o mesmo universo lúdico-acriançado subvertido por meio da pilhéria é obtido em Cabelódroma X. para infantilizar o mundo adulto e erotizar o universo infantil e, também, o X que sublinha o “xuxismo” tão presente na cultura carioca – e que foi disseminado pela Rede Globo por todo o Brasil (e seus arredores) nos anos 80 e 90 do século XX – e está presente em quase todas as obras da Márcia X. que ingressam fundo em questões associadas ao dito “universo feminino”, sendo performances que a artista chamou de obsessões ligadas à limpeza, alimentação, rotina, religião e beleza. Tais performances são releituras de rituais de purificação com banhos longuíssimos e dissolutos (de coca-cola, de sabão em pó, de leite condensado) em que Márcia achincalha uma suposta identidade feminina e um tal papel sexual da mulher na sociedade ocidental que a subordina a uma visão (machista/heterocentrada) externa que faz exigência de um padrão comportamental e estético. E o “xuxismo” está decisivamente impregnado aí; vejam Xuxa como referencial de beleza e comportamento para adultXs e crianças em um comercial dos anos 90 do hidratante Monange ou em um exagerado banho de leite em uma banheira no filme Lua de Cristal (1990).

Grasiele é certeira em fazer essa junção toda do universo da X. na sua ação que mantém o seu empenho de criar reperformances com nova roupagem, mas não ignorando as suas fiéis convicções e problematizações ao substituir o leite condensado por cremes de cabelo justamente para evidenciar o apelo da indústria de cosméticos tentando induzir certo consumo sinestésico, ou ainda, ao utilizar imagens icônicas desconstruídas para borrar as referências de mulheres objetificadas em representações no decorrer da história da arte.

 

Risco 2

Já deixou de ser novidade a afirmação de que, no vai e vem arte e vida, encontramos usos diversos para a palavra performance. Predicado para o carro, o esportista, o desodorante, a barra de cereal, o xampu, a atitude rockstar. Nome de estabelecimento. Elogio àquelX que realiza algo considerado extraordinário. Gênero artístico. Performance-arte: expressão daquelXs que precisam de testemunhas – e não plateias – para uma demonstração. Notar que se está diante de uma performance parece uma tarefa mais concreta e estimulante que chegar a um consenso sobre o seu significado. Toda situação em que performances geram desconfiança sobre o seu “valor artístico” são apreciadas por nós. Mantê-la assim, “meio entendida”, “mal compreendida”, “não assimilada” pode garantir que dia a dia se arrisque uma maneira inusitada de realizar – reivindicar – algo como performance. Não se delineia com facilidade essa tal performance, todavia facilmente a vemos associada a “qualquer coisa”. Regra geral da arte-vida contemporânea: tudo pode ser arte, desde que eu a apresente – segundo Marcel Duchamp – e você a perceba – segundo Richard Schechner – como tal. Então, com vocês, as performances do aniversário!

A primeira que nos veio à memória foi a comemoração dos quarenta e cinco anos do falecido e ex-presidente estadunidense John F. Kennedy. Aquele em que a moça, capa de revista e estrela de Hollywood Marilyn-blonde-sex-symbol-Monroe cantou “Happy birthday, mr. president” para o próprio e para uma plateia que ovacionou tal feito. Certamente, o caráter midiático alcançado com a performance “corpo e voz de veludo” da diva foi almejado por muitXs outrXs aniversariantes. Resta saber se houve outra ocasião de maior sucesso que esta. Sabemos que JFK não gozou de algo mais espetacular que a festa brindada com a canção da amante, dado que o ano seguinte foi o de seu último aniversário em vida.

Passando para a escala da vida comum, lembramos da performance do aniversário realizado em um buffet que poderia ser visto como um arremedo desta ocasião de êxito maior que foi a festa do presidenciável norte-americano. É no Salão de festas que qualquer um(a), “pessoa comum”, tem seu momento de destaque neste dia tão importante. TodXs lhe aguardam. Ansiosamente. Com presentes. Sorrisos. Viva você! Independente do desempenho da equipe contratada para animar a festa (“Marylin cover”, doceirXs, boleirX, garçons/garçonetes-coquetel-malabaristas, animadorXs, músicXs, DJ, palhacinhXs, karaokê etc. etc. etc.), há certo consenso de que nesta data querida deve-se reluzir uma positividade única, oriunda da certeza de que valeu a pena nascer, estar vivX, ter saúde, orgulhar-se da pessoa que se é. Parece imperativa a felicidade e satisfação transmitida com a ação-clichê do apagar as velinhas fincadas no bolo e fazer um pedido. Não para nós…

Com a ajuda de nossos familiares e, posteriormente, por vontade própria, levamos adiante esse ritual que não cessará de acontecer. Se assim for – pois não há como abortar todos os papéis e cenas de um teatro social acordado –, gostaríamos de pedir que, vez por outra, pudéssemos ser liberados de uma produção forçada de autoestima no dia em que se faz anos. Por que não “amarrar um bode” no dia do aniversário? Ou sentir um alívio por ver esse dia passar em branco? Quem sabe, desviar das obrigações que envolvem o ritual-clichê-festivo e manter-se porosX a afetos “reais”? Partilhar de um silêncio, apatia, excitação, indiferença, mix de alegria e tristeza tão prováveis à(ao) aniversariante do dia. Queremos essas possibilidades para nós.

Essa espécie de “festividade às avessas” que apontamos sugere a realização de outra party. Não desistimos de celebrar o dia do aniversário, apenas estamos em busca de algo que nos mobilize desde onde estamos: nem tão “Happy birthday, mr. president”, menos ainda festa de buffet de quinta. A seguir, conheceremos o caso do aniversariante que ousou trocar a performance do salão (que lhe dava direito a velinhas e à Marilyn cover) por uma outra “arte do aniversariar”.

Calda de brigadeiro, granulado colorido, balas, doces, pipocas, dois corpos em ação. Em uma sala, nós, as testemunhas, vimos tudo acontecer na performance Indestrutível (2015). Diferentemente da popularidade dos outros aniversários aqui mencionados – quem não sabia deles? –, este necessita de maiores detalhes.

 

Tales Frey, Indestrutível, 2015. Fotografias de Grasiele Sousa

 

Logo que entramos na sala, ao centro, temos duas figuras. Uma está apoiada na outra, as cabeças se tocam e duas das quatro mãos seguram um dos corpos. Em poucos minutos, quem está à frente vai ao chão em queda livre. A brusca separação elimina quaisquer dúvidas sobre a existência desses seres. Quem ficou em pé é alguém que se move, respira, é bípede, veste calça, blazer e, curiosamente, cobriu cabeça, mãos e pés com calda de chocolate e granulado colorido. Deitado, ficou aquele que apelidamos por bolo de aniversário modelo silhueta do aniversariante. Não demorou muito tempo para que os dois estivessem novamente juntos como no início. Eles estão em pé e parecem realizar uma espécie de meditação, ou, pelo menos, uma concentração preparatória das etapas seguintes desse aniversário.

De súbito, o corpo “sem vontade própria” cai mais uma vez. E é levantado outra vez. E as cabeças se tocam. A situação é repetida algumas vezes e, com precisão, o posicionamento ocupado por eles: a pessoa semi black tie pele de chocolate granulado colorido fica atrás da massa corporal enfeitada como bolo de festa. Vemos a testa de um encostada na nuca do outro. Uma delicadeza de encontro que parece querer sintonizar esses dois seres para um rompimento que logo em seguida acontece.

Quando nascemos há um “corte” extremo, o umbilical. Com uma tesoura separa-se “criador e criatura” e, aqui, anos depois de nascido, vemos alguém livrar-se festivamente de uma parte de si mesmo. Nomes aos bois: Tales Frey pele calda de chocolate granulado fez de seu 33º aniversário um evento para destruir publicamente uma versão de si. Talvez, aquela que concentrava em peso, tamanho e sabores um espaço que virtualmente precisava ser arejado para que a vida se atualize, com novos desafios, problemas – nem bom, nem mau – a serem vividos. O artista, ao criar um modelo de si feito de tantas cores e sabores próprios das festas de aniversário infantil, não deixava dúvidas aos presentes que algo ali remetia a uma comemoração, um tanto quanto esquisita, todavia, aceitável. A audiência ficou até o fim.

Depois de algumas idas e vindas ao chão, o Tales boneco partiu ao meio e, a essa altura, não havia cabeças que se conectassem como no começo. De uma prática aparentemente cerebral, contida, programada, passamos à outra toda gesto, puro movimento externalizado. Tudo assumia uma intensidade que não tinha volta, o caminho era destruir aquele “modelo de si”. E, assim, depois do corpo partido ao meio, vieram braços, cabeça e pernas soltas. Aos poucos, não era mais identificável o corpo humano, conforme a escola nos ensina: cabeça, tronco e membros, cada parte no seu lugar.

Essa estranha matéria em decomposição, à medida que era rasgada, batida com certa violência contra o solo, jorrava de dentro de si doces e guloseimas que se espalhavam por todo o espaço. Envoltos por uma atmosfera literalmente doce, não demorou muito para que xs “convidadXs” dessa festa começassem a recolher os destroços desse doce corpo para comer. Claro que as crianças estavam conosco e, quem sabe, Cosme e Damião também!

 

Tales Frey, Indestrutível, 2015. Fotografias de Grasiele Sousa

 

MuitXs de nós, provavelmente, conhecemos a “pichorra” ou pinhata, uma típica brincadeira de aniversário mexicana que consiste em ficar de olhos vendados e, com a ajuda de um bastão, conseguir quebrar uma estrela de cinco pontas feita de papel e recheada de doces e frutas. No momento em que os docinhos caem da pichorra as crianças saem em disparada para pegá-los. É uma aventura! E Tales, performer que é, ao liberar os docinhos daquele “corpo que não lhe pertencia mais”, desafiou os presentes a canibalizarem essa ação de aniversariar, assim como acontece com o evento da pichorra. De que maneira? Quem dali comeu ou levou para casa um docinho, assumiu o compromisso de testemunhar sobre esse acontecimento.

Em seu livro A Inconstância da Alma Selvagem, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro apresenta uma leitura pioneira sobre a “função” do ato de comer o(a) inimigX para algumas tribos ameríndias tropicais. Alimentar-se do corpo de um(a) oponente é um ato de reconhecimento de suas qualidades. O(a) inimigX de “carne e osso” morre, todavia seu “espírito” é incorporado por seu(s)/sua(s) executor(es)/executora(s) com a prática de canibalização. Ao contrário de certo horror, ou ainda, percepção desumana, que muitos concluíram sobre este costume, Viveiros o vê como um elogio à força que possui alguém estranho a si. [4]

Buscamos, nesta breve passagem acerca de um detalhado e longo estudo sobre o que viria a ser um modo de vida bastante original [5], em relação ao que ocidentais e povos ocidentalizados convencionaram para si – na maioria das vezes por imposição – como humano, uma aproximação com o ato de comer que realizamos na festa-performance de Tales. AlimentadXs como fomos pelos pedaços de seu corpo-festa, acabamos por “incorporar” uma certa força – ou ousadia! – diante do que performar na data do aniversário. Tudo bem se for qualquer coisa, inclusive uma que decepcione, que seja estranha ou incomodamente lúdica. É uma escolha e cada um(a) que comeu desta carne-guloseima carrega consigo alguma sensibilidade para testemunhar o aniversário e a performance de outrXs inusitados seres que desviam com alegria do festejo “mr. presidente” e do bufê.

Ressaltaria também que o ato de comer o(a) “inimigX”, como propõe Viveiros de Castro, foi praticado primeiramente pelo aniversariante. Lembro que, num dos registros da performance Pancake de Márcia X., uma criança é vista provando do leite condensado misturado aos granulados de bolo que a artista derrubava sobre si. Era uma situação possível: degustar para deglutir poesia. Alguns anos depois daquela pequena ter se deliciado com a performance Pancake, Tales se “maquiou” com a mesma matéria doce para comemorar o seu 33º aniversário. A mistura do granulado com a calda de chocolate e leite condensado que o performer passou sobre a sua face, mãos, pés e corpo do boneco pode ser uma ordinária mistura para cobrir um bolo como também uma extraordinária cobertura para o corpo como propôs Márcia X. na performance referida. Para levar adiante a “esquisita” força de Márcia X., Tales canibalizou a sua pele-cobertura presente em Pancake. E o que ele fez com ela, ao meu ver, foi inventar novas bases para o ato de aniversariar. AquelXs que foram audiência de Indestrutível (2015), que se lambuzaram com sua poesia, sabem disso.

Ressalto que performar o próprio aniversário é algo que Tales coloca em prática desde 2013, quando assumiu o compromisso de realizar ações desse tipo até o final de sua vida. Curiosamente, a primeira performance desta série ainda sem previsão de término – viva! –, intitulada Proxim(a)idade, aconteceu a partir da exposição pública do performer coberto por leite condensado e granulados de festa em um “casulo” montado a partir de fitas trançadas em X. Sim, o X de Márcia já era citado em 2013 por Tales e “marcado em seu coração” muito tempo antes; prova disso é o resultado de sua pesquisa de mestrado [6] dedicada ao trabalho dessa artista. Do aniversariante do casulo ao destruidor de uma versão de si, vejo que este amigo e performer que tanto admiro inventou novas bases para o ato de aniversariar, algo que considero mais interessante para realizar durante a vida que a dedicação a um projeto fúnebre de si, tal qual nossa avó da performance recentemente nos propôs. Viva a alegria que sempre é a prova dos nove!

 

O X da Multiplicação

Aplicado o Pancake de Márcia X. em nosso corpo – seja para retomarmos os rituais de embelezamento como uso da maquiagem, seja para sugerirmos os elementos utilizados nos preparativos de doces ou até mesmo do bolo (cake) de festas infantis – instituímos as inegáveis reverberação de X tanto em um risco como em outro.

A “maquiagem” fascinante e asquerosa de Márcia tem o poder de ilustrar tanto o concorrido doce da festa de aniversário quanto a deformação causada pelo excesso de maquilagem e, nos dois riscos aqui apontados para constituirmos o nosso X, podemos enxergar construções monstruosas, repugnantes, bem como, de forma inversa, composições demasiadamente atraentes (no sentido sexual que se refere à prática intitulada “bukkake” ou no fascínio do doce, cake, ou ainda, da pintura que auxilia no embelezamento da pele). Em Cabelódroma X. e em Indestrutível (assim como em Pancake), o jogo é dúbio quando as imagens das ações são apresentadas: há humor e há terror, há atratividade e repulsa, prazer e desprazer, entre outros vários antônimos.

Se em Indestrutível, além da própria especulação sobre a imortalidade por meio da recombinação da matéria, a permanência é acionada, em Cabelódroma X. a continuidade de um discurso que ainda faz imenso sentido é incontestavelmente ratificado. Retomar Márcia X. e dilatar a sua obra para ressignificá-la depois de pouco mais de uma década é prova de que a sua produção é superabundante de simbologias ainda contemporâneas e, nesse sentido, perene agora e, provavelmente, será ainda para a posteridade.

 

 

NOTAS

[1] DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e EsquizofreniaVol. 1. São Paulo: Editora 34, 1995, p. 11.

[2] Canção “Marquei um X”. Do álbum Xou da Xuxa Sete, lançado em 1992.

[3] Recentemente tomamos contato com a noção de “cover-performático” proposta pelo artista e pesquisador Henrique Saidel, o que achamos interessante e em certa medida nos motivou a pensar – com algumas ressalvas – na sugestão da reperformance Cabelódroma X. como uma espécie de cover. Ver em: SAIDEL, Henrique. “El ‘Cover’: Antropofagia y ‘Performatividad’”. Investigación Teatral, vol. 6, n. 9, 2016. Ver em: <https://goo.gl/ZmMXSk>. Acessado em 20 de dezembro de 2016.

[4] Ver em: VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A Inconstância da Alma Selvagem e Outros Ensaios de Antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.

[5] Em relação ao que ocidentais e povos ocidentalizados, na maioria das vezes por imposição, convencionaram para si como humano.

[6] FREY, Tales. Discursos críticos através da poética visual de Márcia X. Jundiaí: Paco Editorial, 2013.

 

 

PARA CITAR ESTE TEXTO

FREY, Tales; SOUSA, Grasiele (Grasiele Cabelódroma). “Com Dois Riscos, Escrevemos X”. eRevista Performatus, Inhumas, ano 5, n. 17, jan. 2017. ISSN: 2316-8102.

 

Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy

© 2017 eRevista Performatus e xs autorxs

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