Mirar e Habitar: A Obra de Waléria Américo Diante do Mundo

 

Waléria Américo, frame de Mergulho na Paisagem, 2006/2008

 

A arte aparece muitas vezes como uma interrogação ou como um espanto lançado ao mundo. O espanto de Waléria Américo parece emergir de uma necessidade primária de encontrar, através da arte, os meios pelos quais possa estar no mundo. Tomamos esse aspecto do trabalho da artista plástica e performer – graduada pela Faculdade da Grande Fortaleza, com Especialização em Audiovisual e Meios Eletrônicos pela Universidade Federal do Ceará – como um modo de atravessar uma série de trabalhos de performance, vídeo e videoperformance desenvolvidos por ela. Nesses trabalhos, o corpo e o espaço são o centro da investigação estética e conceitual do processo de criação nos quais a artista desvenda alguns modos de como o corpo habita o espaço e, ao mesmo tempo, o espaço habita o corpo.

Em Tudo que Existia Dentro de Mim (2003), a performer procura se expandir o máximo possível pelo espaço. A ação, que consiste em encher com seu fôlego um enorme balão vermelho, permite que a noção de dentro/fora seja revista: ao expandir o que havia dentro de si para o mundo exterior este, o mundo, passa a ser significativamente e sensivelmente transformado por tudo aquilo que o sujeito, Waléria, é capaz de colocar enquanto agente em um mundo real. Segundo a descrição da própria artista: “viver a tensão presente na expulsão como via para tornar visível o que habita dentro e abrir espaço para absorver mais” [1].

No mesmo sentido, no vídeo Mergulho na Paisagem (2006/2008), a transformação sutil do mundo reaparece. A imagem resultante muito se assemelha às clássicas pinturas de paisagem do século XIX: um céu azul com nuvens sobre um lago plácido num todo amarelecido pelo efeito do verniz. Essa paisagem é, entretanto, contínua e repetidamente perturbada pela artista que lança pedras na água e, por alguns instantes, procuramos verificar se as pedras estão mesmo interagindo com a água, como se precisássemos ter a certeza de que não se trata de uma pintura. Ao afirmar que essas metáforas poéticas da artista assumem uma expressão sensível e significativa, queremos reforçar precisamente o fato de que, por exemplo, ao lançar o que havia dentro de si, existe uma transformação prática do mundo, o surgimento do balão vermelho ou de todas as coisas que se transformam no mundo diariamente pela vontade de todos os agentes que nele habitam.

A obra de Waléria Américo nos faz confrontar sem cessar com o fato de que habitar o mundo é algo que provoca sempre alguma estranheza. Uma inquietante estranheza. [2] Este é o único mundo que conhecemos e o conhecemos desde sempre e, ainda assim, reencontramos diariamente o mesmo mundo como se ele fosse familiarmente desconhecido.

Na performance Para Ver o Céu Mudar de Cor, a artista troca a ideia de transformar os elementos do mundo pela ideia de alterar o ponto de vista. Assim, a artista se coloca no alto de um edifício por onde passeia. A série de fotografias que registram a performance testemunham as nuances do céu a mudar de cor. O conceito simples se complica no acréscimo da instabilidade e do perigo representado pelo ponto de vista instável escolhido pela artista. Ao equilibrar-se no parapeito do prédio, a contemplação do horizonte passa a se relacionar também com seu estado interno: concentração, vertigem, medo e adrenalina podem fazer parte do horizonte de fim de tarde. [3]

Cabe ressaltar que interagir no mundo ou trocar o modo pelo qual contemplamos o mundo resultam na constatação unívoca de que não existe um mundo, mas mundos possíveis. Encontrar estratégias e meios de habitá-lo é sempre também uma apropriação pessoal daquilo que nos envolve. Nesse sentido, a performance Mirar é, sem dúvida, o trabalho no qual esse enlace é mais pungente. Na ação – que remete sem dúvida aos procedimentos da performance Para Ver o Céu Mudar de Cor, – a artista utiliza o telhado como mirante sobre a cidade e transmite, através de câmeras de segurança presas ao corpo, as imagens dessa paisagem. A performance associa o usual mirante à tecnologia tão comum às cidades contemporâneas, o resultado é um estranho modo de reconhecer a cidade, sobretudo devido ao fato de não estarmos habituados a olhar para as imagens de câmeras de segurança como objetos estéticos.

A cidade, que resulta na performance, é um novo ponto de vista sobre a cidade e permite refletirmos que o espaço não é fixo nem limitado a apenas uma forma e que cabe à arte subverter e apresentar modos distintos de perceber o mundo. A arte é, em si mesma, um modo de se estar no mundo e de tomada de posse daquilo que, por vezes, de outro modo, quedaria ininteligível e indizível. [4] Logo, se pensarmos no sujeito dessa ação, da criação, este é, sem dúvida, Waléria Américo, mas também somos todos nós, que a partir do ato simbólico da sua vontade artística, podemos pensar acerca dos modos da nossa própria vontade de habitar este mesmo mundo.

 

 

NOTAS

[1] Ver o portfólio da artista Waléria Américo em: <http://pt.calameo.com/read/000730059fcd6612278e3>. Acessado em 11 de fevereiro de 2013.

[2] Tomamos esse conceito de empréstimo da obra de Freud, mas não pretendemos, contudo, considerar nem os aspectos psíquicos, tão pouco os aspectos patológicos amplamente desenvolvidos pelo autor. Nós nos apropriamos desse conceito à guisa de inspiração e, sobretudo, assumindo a descrição que Freud faz de uma situação familiar que não somos capazes de identificar e, assim, algo que deveria ser bem conhecido por um indivíduo torna-se inquietantemente estranho. Cf. FREUD, Sigmund. L’Inquiétante Étrangeté et Autres Essais. Paris: Éditions Gallimard, 1985.

[3] Podemos nos referir ainda às seguintes obras nas quais a artista procura repensar o ponto de vista acerca da paisagem: Horizonte Nômade (2006), Acima do Nível do Mar (2007) e Plano de Fuga (2009).

[4] Nem toda obra consiste em uma reflexão acerca do mundo envolvente, mas enquanto objeto de uma imaginação criativa, esta impõe-se como algo destinado a habitar o mundo.

 

 

PARA CITAR ESTE TEXTO

MACEDO, Suianni Cordeiro. “Mirar e Habitar: A Obra de Waléria Américo Diante do Mundo”. eRevista Performatus, Inhumas, ano 1, n. 3, mar. 2013. ISSN: 2316-8102.

 

Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy

© 2013 eRevista Performatus e a autora

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