O Corpo No Trabalho de Nino Cais

 

Nino Cais, Sem título (Camisa), 2004. Vídeo, 21’15”

 

O corpo, tal como surge no trabalho de Nino Cais, possui uma concepção bastante singular. Em uma de suas primeiras aparições públicas em São Paulo, no projeto “Ocupação” do Paço das Artes, em 2005, o artista costurava e amarrava utensílios como pires, xícaras e panelas a uma espécie de camisa de força. Não se tratava do mesmo instrumento usado para imobilizar pacientes psiquiátricos durante um surto, mas de uma tentativa de inventar uma aproximação entre o corpo do artista e os objetos que carregavam algum valor afetivo.

Nesse trabalho, seu corpo não é concebido como algo isolado e à parte do mundo, tampouco como matéria inerte que pertence ao sujeito. O que ocorre é uma formulação da própria impossibilidade de separação do corpo (dotado de interioridade) das lembranças e afetos em relação aos objetos de seu entorno. O corpo, nesse trabalho de Nino Cais, não se distingue completamente do mundo objetivo. É como se os utensílios que acopla ao seu corpo fossem extensões do artista, tal como uma bengala é o prolongamento do corpo de um cego ou o carro de corrida do corpo de um piloto. Tudo se passa como se os objetos tivessem incrustados em sua pele, reforçando a ligação primordial entre homem e mundo.

Ao longo de sua trajetória, o corpo do artista continua a se relacionar com os objetos com intimidade. Ora suas mãos estão intercaladas numa pilha de xícaras de metal, ora sua cabeça pressiona uma linha horizontal de utensílios domésticos. O corpo é elemento frágil que se equilibra sobre recipientes de vidro, seja como alusão direta de sua presença em cadeiras suspensas na mesma situação, seja como contato direto com o ambiente. A ligação entre o corpo e o espaço se acentua quando o artista passa a construir espécies de colunas com baldes, bacias e cabos de vassouras pressionados e tensionados entre o chão e o teto. Nesse caso, ao mesmo tempo que essas colunas de objetos cotidianos e banais funcionam como cariátides (estátuas de mulheres que suportavam na cabeça todo o peso das traves horizontais e da cobertura de um templo grego), o corpo do visitante circula alerta e inseguro entre as provisórias e instáveis colunas.

Em séries fotográficas posteriores, o corpo de Nino Cais aparece camuflado entre vassouras, panos de prato, pinguins de geladeira, tampas de panela, toalhas rendadas, enfeites de papel, flores, tapetes ou luvas. Há um apelo propositadamente kitsch, uma espécie de auto-ironia que enfatiza o vulgar, o barato e até mesmo o mau gosto médio de objetos feitos para o consumo das massas. Mesmo que esse corpo tenha o rosto coberto, o que dificulta o rápido reconhecimento de quem está ali atrás, ele não perde completamente a sua identidade. É como se os personagens e máscaras fossem inventados e sobrepostos a esse corpo que forja ficções, fantasias e outras identidades. Há nesses trabalhos certo estranhamento gerado tanto por imagens demasiadamente coloridas como por alusões a contos fantásticos e mundos oníricos.

 

Nino Cais, Sem título, 2007. Fotografia, 100 x 80 cm

 

Nino Cais, Corpo branco (da Série Guardas), 2013. Fotografia, 80 x 120 cm

 

Mesmo assim, não se trata de qualquer corpo, tampouco de um corpo tornado coisa, mas de um corpo como intenção de significar. O artista retira o sentido já dado dos objetos cotidianos, torcendo a sua função inicial e, assim, atribuindo significados inéditos a eles: seja por acentuar o caráter simbólico dos objetos, seja porque as relações que eles adquirem em contato com o corpo do artista subvertem o já instituído. Desse modo, o corpo de Nino Cais, a partir das escolhas particulares, institui sentidos que cada objeto não teria isoladamente.

Em alguns trabalhos, o corpo do artista passa por uma espécie de perda de sua subjetividade, como se fosse apenas um suporte para um vaso, tal como uma mesa de centro. Entretanto, a força desses trabalhos reside justamente no fato de o corpo que o artista habita se distinguir do mundo justamente por não ser um mero objeto inerte. E, de fato, na obra de Nino Cais, o corpo jamais poderia ser reduzido a uma base que recebe passivamente os sentidos externos a eles. Ao contrário, em vez de mero sustentáculo, é o corpo que doa e recebe sentido dos objetos. A sua presença é incontornável e mesmo quando talvez exista uma vontade de anular ou igualar o corpo a um objeto barato, ele reaparece chamando a atenção para o aspecto bizarro dessa operação, como se nos lembrasse de sua especificidade em relação aos objetos cotidianos.

No mundo contemporâneo, a representação do corpo de fato atende cada vez mais aos imperativos do consumo. E revistas de moda ou de moldes para costura, tais como as usadas pelo artista em suas colagens, são um campo fértil para esse tratamento do corpo como coisa. Nessas publicações, corpos esquálidos tendem a se aproximar de um cabide para vestimentas de grife. Ou então o corpo se torna uma mera imagem que representa um papel sensual, portador de uma atitude artificial, uma pose, que tem em vista um nicho do mercado consumidor predeterminado. Em suas colagens, Nino Cais sobrepõe padrões e padronagens com motivos florais aos rostos dessas imagens de corpos, que já possuíam elas mesmas a função de ditar padrões. Uma operação de reiteração como o sinal trocado, como anulação.

 

Nino Cais, Sem título (da Série Anos 70), 2009. Colagem, 24 x 23 cm

 

Nino Cais, Sem título, 2009. Desenho, 42 x 29 cm

 

Também nos desenhos de Nino Cais, o corpo é representado com frequência. Mas neles o ponto de partida é a sua própria imagem fotografada e transposta para o papel. Sua silhueta sofre intervenções com linhas, rendas e motivos florais. Seu corpo se funde com objetos, plantas ou animais, mas ainda assim a referência não deixa de ser o seu corpo próprio.

Os desenhos e colagens do artista, depois de um longo processo de experimentação, se desdobram a partir da apropriação de imagens de livros antigos e da tentativa de criar volumes que extrapolem o plano. A estratégia de inserir formas circulares recortadas sobre rostos de figuras desconhecidas pode ser vista como continuação de trabalhos anteriores, em que as imagens de corpos impressas em revistas transfiguravam a identidade das personagens.

De todo modo, o corpo, o seu próprio e os de outros, se configura como um dos elementos centrais da investigação do artista: ele é imagem representada e experiência direta com o mundo. Trata-se de um corpo que se volta sobre si mesmo para investigar suas potencialidades e limitações e, assim, ele reflete sobre seus próprios atos, posturas e vínculos com os objetos. É fundamental em sua poética a contínua pergunta sobre as possibilidades significadoras do corpo e, mais do que isso, sobre o sentido que ele dá aos objetos que o rodeiam. Na prática de Nino Cais, a tradicional oposição entre atividade e passividade já não faz mais sentido. O corpo age sobre o mundo e sofre em si mesmo a ação que exerce sobre ele.

 

Cauê Alves (São Paulo, Brasil, 1977) é mestre e doutor em filosofia pela FFLCH-USP e professor do curso Arte: história, crítica e curadoria, da PUC-SP.

 

 

© 2013 eRevista Performatus e o autor

Texto completo: PDF