Entrevista com Yashira

 

Yashira, Frases sobre Isopor e Papel, Datas Variáveis

 

Yashira (Raimunda Luci de Souza, Caldas Novas, 1935) é artista formada pelo Instituto de Artes da Universidade Federal de Goiás. Já participou de várias exposições no Brasil e no exterior, incluindo edições da Bienal de São Paulo. Nos anos 1970, Yashira ficou conhecida pelas suas assemblagens e, posteriormente, pelas suas Esculturas Vivas, trabalhos em que as pessoas utilizam vestimentas feitas com plantas e folhas, produzidas pela própria artista. Naquele mesmo período, descobriu, através de uma revelação mística, que, em outra encarnação, fora monge budista no Japão. Desde então, a artista adotou o pseudônimo Yashira e passou a desenvolver a sua obra transitando por várias linguagens e materiais, com referências ao cristianismo, espiritismo, doutrina franciscana e misticismo. Sua atuação como artista também possui forte engajamento em defesa da natureza e da paz. Com o Exército de São Francisco, caminha pelas ruas das cidades, levando mensagens críticas contra o sistema, as injustiças, a miséria e a ignorância. Atualmente, a artista divide seu tempo entre duas cidades, Palmelo e Goiânia, onde produz de forma compulsiva. Em Palmelo, pequeno município formado em torno de um Centro Espírita, estão localizados o Solar São Francisco II (uma de suas residências) e o Museu Yashira, criado pela própria artista. Quando está de passagem por Goiânia, a artista reside no Solar São Francisco I, localizado no setor Sul.

 

Yashira, Só Corro. Alguém Pode Ajudar?, 2008

 

Yashira

Entrevista a Enauro de Castro e Yara Pina, no Solar de São Francisco I (Setor Sul, Goiânia, Brasil), em 5 de agosto de 2016

 

ENAURO DE CASTRO: Yashira, como tudo começou?

 

YASHIRA: Sua pergunta é a mesma que me fizeram ontem em Pirenópolis: me pediram para definir Deus. Aí, fiquei meio perdida e esqueci até de um pensamento que eu tenho… Eu tenho tanto horror à matemática e “coisa exata”… Foi difícil eu fazer contabilidade, foi difícil eu fazer desenho linear, desenho geométrico… Eu punha a régua, saía torto… eu punha circunferência, saía torto. Eu sou trêmula, eu sou médium… Elétrico… Elétrica, né?

 

ENAURO DE CASTRO: Começou assim? Desvirtuando dos padrões?

 

YASHIRA: Não, deve ter começado ou começou… no tempo em que fui discípula de Confúcio, de Voltaire…

 

ENAURO DE CASTRO: Outros tempos!

 

YASHIRA: É, outros tempos… Outras vidas passadas. Isso está dentro da gente. A arte está dentro de nós. É uma semente que fica e ninguém tira. É só a vivência que a gente tem, né? Então ela vai desabrochando… na hora em que você menos espera. Eu não sabia que eu iria trabalhar em arte nessa encarnação. Porque eu tive minha família, meus quatro filhos e marido. E estou aqui, né? Caminhando, caminhando… Então a coisa desabrocha sem a gente saber, como um parto. Pra mim é igual a parto.

 

YARA PINA: Quando foi seu primeiro contato com a arte? Você já produzia antes de entrar na faculdade de artes, ou foi lá que você se interessou?

 

YASHIRA: Eu sempre tive mania de “inventar” dentro de casa. Só sei que eu acabei caindo lá na faculdade de artes. E foi o que me salvou. A arte me transcende e me salvou de todos os absurdos que estavam no caminho.

 

YARA PINA: Mas como a Yashira descreveria o seu trabalho?

 

YASHIRA: Eu só escuto falar que sou louca, mais nada. Eu acho que não tenho que descrever não, só fazer. Defina Deus, primeiro, para depois eu definir minha obra. Então, não tenho definição.

 

ENAURO DE CASTRO: Depois de fazer o trabalho é que você busca a referência para ele?

 

YASHIRA: Eu não busco, não. Eu não busco. Acontece é que vem na minha mão. Vem o livro, vem informação, vem tudo, mas já estava tudo pronto, eu já fiz… Minha vivência passada já estava dentro de mim. Porque senão iriam falar que eu estava copiando. Aí eu não teria feito, né? Essa é que é a realidade.

 

ENAURO DE CASTRO: Pra você não existe hierarquia de materiais. Não existe material superior a outro. Você abandonou as técnicas convencionais da arte e passou a trabalhar com tudo… (tinta óleo, pigmentos orgânicos, excrementos de animais etc.). Enfim, por que não existe hierarquia para você?

 

YASHIRA: Porque tudo na natureza é igual. Se Deus não separa nada, não posso separar. Eu não sou consumista. Eu sou povão, eu sou franciscana. O que interessa para mim é que os materiais sejam úteis e tenham sentido.

 

ENAURO DE CASTRO: E você diz também que nada é por acaso?

 

YASHIRA: Não, nada é por acaso, tudo já é planejado no plano espiritual por nós mesmos antes de encarnarmos.

 

ENAURO DE CASTRO: Você também não hierarquiza religiões e nem pessoas… Você não hierarquiza arte e religião. Como é a relação entre arte e religião para você?

 

YARA PINA: Completando, o que aproxima e diferencia a arte da religião?

 

YASHIRA: Religião é se ligar a Deus. Religare. Não tem como se ligar a Deus se não for também através da arte. Religião e arte são escolas.

 

YARA PINA: Então, para você a arte também tem a função de transmitir a mensagem de Deus?

 

YASHIRA: Para mim isso está em primeiro lugar, é primordial. Porque se nós, artistas, não fizermos isso, quem irá fazer?

 

Yashira, Bienal de São Paulo, 1973

 

YARA PINA: Yashira, você já participou da Bienal de São Paulo, em 1973, enquanto ainda estava na faculdade. Na época, você utilizava o nome Luci Borges. Quando a Yashira “surgiu”?

 

YASHIRA: Yashira foi depois que eu me mudei para Palmelo. Depois disso não assinei mais o nome Luci Borges. Em Palmelo, fiquei “hibernada”, trabalhando como Yashira, desde 1976.

 

Yashira, Sem Título, s/d

 

YARA PINA: Quando você começou a desenvolver a Arte Viva? [Obras realizadas com materiais orgânicos, tais como folhas, troncos, cascas, galhos, cipós e restos de animais mortos.]

 

YASHIRA: Ah, não sei não… Acho que foi depois que entrei na faculdade. Em 1973, houve a separação da minha família, do meu marido. Mas acontece que eu falei “chega de ser palhaço da sociedade. Eu agora vou ser palhaço de Jesus. Eu vou entrar na faculdade de artes porque lá eu irei aprender muita coisa boa. Vai ser uma maravilha. Porque aqui é só aparência”. Eu estava procurando a essência, né? Sempre procurei, estava lá. Tem uma coisa que o professor Adelmo falou e que eu nunca esqueci: “O artista não pode copiar. A máquina copia. O artista tem que criar”. E aí pronto, eu fui mergulhar a fundo para ver o que ele estava querendo dizer, né? Porque tudo já havia sido feito, mas Escultura Viva não.

 

Yashira, Exército de São Francisco, datas variáveis

 

ENAURO DE CASTRO: Foi durante ou depois da faculdade de artes que você começou a trabalhar com as Esculturas Vivas? [Pessoas que usam indumentárias e vestimentas confeccionadas pela própria artista com folhas e plantas.]

 

YASHIRA: Foi depois que terminei a faculdade de artes. Daí eu já criei o Presépio Vivo. São Francisco já havia criado e eu não sabia. Mas aí eu li o livro, eu fui colega de Francisco de Assis. Ele tinha oito companheiros e um deles era eu. Mas isso é outra história. Mas quando eu fiz a obra, o Presépio Vivo, eu ainda não tinha lido o livro. Mas no passado eu já havia vivenciado ambientes de arte verdadeiros.

 

YARA PINA: E onde você foi buscar a referência para criar a Escultura Viva? Como surgiu a ideia?

 

YASHIRA: Onde eu busquei? Ué, eu dei vida às pessoas, na roupa que vestiam, no jeito de ser… Porque tudo era morto, tudo já estava pronto. A pedra que eu tinha feito – eu fiz vários pássaros, corujas. Eu sou apaixonada por corujas. Fiz uma corujona de pedra… –, as coisas vão surgindo na medida em que eu trabalho. Tudo já havia sido feito, de metal, de pedra… Tudo que eu observava estava “morto”. Não tinha vida. Daí eu pensei, vou fazer “gente viva” para sentirem o que eu preciso passar.

 

ENAURO DE CASTRO: Como surgiu o exército de São Francisco?

 

YASHIRA: A primeira vez foi em Brasília, durante o Congresso Nacional de Esperanto, em 1981. Quando eu lancei a moda ecológica. O Exército de São Francisco é uma corrente. Não se faz corrente com um elo só. Por isso essa obra não me pertence.

 

ENAURO DE CASTRO: Acho isso importante, o fato de você pensar o Exército de São Francisco como forma de pensar coletivamente…

 

YASHIRA: Eu acredito nisso. Não tem sentido fazer se não for para mostrar uma parte mais divina da natureza (humana, física, mental, vegetal ou animal). Porque as pedras estão fazendo arte. Cada pedra que você encontrar por aí… Pare e olhe, ela já está manifestando arte.

 

YARA PINA: E o que o artista tem que criar?

 

YASHIRA: O artista tem que criar o incriado, o que não existe, o que ninguém fez… O diferenciado, o original.

 

Yashira, Escultura Viva, 1981

 

Yashira, Palhaço da Cultura, 1988

 

Yashira, Sem Título, 1988

 

ENAURO DE CASTRO: E sua relação com a moda? Você já fez vários vestidos. Você diz que a moda é a gente que faz. É de cada um…

 

YASHIRA: Sim, a gosto de cada um…

 

YARA PINA: E as indumentárias ecológicas? Fale um pouco sobre a diferença entre as indumentárias utilizadas pelo Exército de São Francisco e as Esculturas Vivas…

 

YASHIRA: A indumentária ecológica é roupa feita com arte, tudo o que remete à natureza. Acho que não tem nada mais importante do que a mãe natureza. Ela dá tudo desde a hora que nascemos até a hora que “voltamos”. Ela faz a lei de Lavoisier, transforma o corpo que apodrece em outras coisas. Nada é perdido, tudo se transforma. O objetivo é isso, é mostrar que nada se perde tudo se transforma. A gente não pode só gastar, temos que reciclar. Por isso que desde o começo eu venho reciclando tudo.

 

ENAURO DE CASTRO: Pra você então o consumo é um problema sério

 

YASHIRA: O consumo é sério demais.

 

Yashira, Sem Título, 2012

 

YARA PINA: Você definiu indumentária ecológica, mas e a Escultura Viva?

 

YASHIRA: Tudo tem o mesmo objetivo, do ser humano ser “humano” e não ser máquina. O manequim de vitrine que divulga moda é feito pela máquina, parece um robô, não tem alma e nem vida. Você faz com ele o que quiser. Por exemplo, ganhar dinheiro e consumir. Já Escultura Viva é diferente… Aquele que não tiver inteligência e não for artista, e não tiver cultura, não aceita ser Escultura Viva. Não aceita porque tem vergonha de ser, pois não quer ser o que é. Quer ser “máquina” como o manequim da vitrine, igual a todo mundo. Voltando às indumentárias, o luxo da moda é você ser a moda, do jeito que você quiser.

 

YARA PINA: De que forma você escolhe as folhas que compõem as indumentárias?

 

YASHIRA: Eu não escolho.

 

ENAURO DE CASTRO: A gente já falou de indumentárias, Escultura Viva, Exército de São Francisco… Tudo isso é performance?

 

YASHIRA: Eu falo que o trabalho é recriado por todos que participam, pois ali ninguém tem que ter compromisso comigo, mas tem que ter compromisso com o que está fazendo.

 

YARA PINA: Como é o trajeto do desfile do Exército de São Francisco?

 

YASHIRA: Geralmente, parte daqui [Solar de São Francisco I, Setor Sul, Goiânia, Brasil], desce a avenida Araguaia, depois a Paranaíba, sobe a avenida Goiás, até chegar ao Palácio das Esmeraldas, na Praça Cívica.

 

Yara Pina: Yashira, essa foi a primeira vez que você fez a Escultura Viva [Congresso Nacional de Esperanto, 1981]?

 

YASHIRA: Sim, foi a primeira vez, em Brasília.

 

YARA PINA: Você já disse que não possui registro de nada… Todos os registros em imagens foram documentados por outras pessoas. Qual a importância dessas imagens para você? Uma vez que você afirma que não parte de você documentar seus trabalhos?

 

YASHIRA: Eu não sou fotógrafa, não posso trabalhar em três, quatro coisas… Todas as imagens que eu tenho foram outras pessoas que me deram, sem eu pedir.

 

Yashira, Enterro da Cultura/ Morte da Burocracia, 1981

 

Yashira, (Morte) Enterro da Burocracia e Burocratas, 1982

 

ENAURO DE CASTRO: Mas a gente percebe que você documenta tudo. Estou me referindo àquelas fotocopias em papel, elas são resultado de várias intervenções [colagens feitas com imagens, textos, documentos, reportagens de jornais, reproduzidas e, posteriormente, distribuídas].

 

YARA PINA: Você poderia falar um pouco desse processo…

 

YASHIRA: O que me leva a interferir é porque tenho que completar. Só isso… com o momento que eu tenho naquele momento. Porque depois que passou, eu sinto o que foi aquele momento, daquilo que foi… Então, eu coloco no hoje.

 

YARA PINA: Então, sua proposta é completar…

 

YASHIRA: Completar o espaço da página com mensagens, para depois xerocar… Porque posso distribuir mais barato e atingir mais pessoas…

 

YARA PINA: Dar um novo significado também?

 

YASHIRA: Também… Sempre a mesma coisa.

 

ENAURO DE CASTRO: O que eu acho interessante em seu trabalho é isso, é que nada é definitivo, tudo pode mudar o tempo todo.

 

YASHIRA: Tudo é renovação, dia e noite, noite e dia.

 

ENAURO DE CASTRO: Não é nada fixo, tudo é mutante, mutável. Tudo é a lei de Lavoisier…

 

YASHIRA: Tudo. É dentro dessa lei que eu trabalho.

 

Yashira, Sem Título, 2009

 

YARA PINA: E o Museu Yashira? Quando surgiu e por quê?

 

YASHIRA: O primeiro museu foi esse aqui [Templo da Paz, Solar São Francisco I, localizado no Setor Sul, em Goiânia]. Eu não criei o museu, ele foi incriado. Aconteceu, amadureceu… Já o de Palmelo, foi quando me mudei para lá, em 1979. E levei tudo daqui para lá, porque eu não sabia o que fazer com o que tinha aqui. Tive um sonho mediúnico… Metade do que tem lá no Museu, em Palmelo, foi destruído, dilapidado… Está tudo amontoado lá até hoje. Nunca mais quis mexer. Está lá do mesmo jeito. Por isso que eu não quis inaugurar.

 

Solar de São Francisco II, Palmelo, Brasil, 2008

 

YARA PINA: E qual é a situação atual desse museu?

 

YASHIRA: Ele está fechado porque ninguém acredita nele.

 

YARA PINA: Você se comunica com muita naturalidade com Deus e com os espíritos… Como a transcendência para o plano espiritual interfere em seu trabalho artístico?

 

YASHIRA: Eu já me deito programada para isso, para trabalhar pela paz mundial. A transcendência é para me salvar das loucuras que estão em volta. Não das minhas loucuras, mas das loucuras contra o meio ambiente. Eu vim para ajudar o meio ambiente.

 

 

PARA CITAR ESTA ENTREVISTA

CASTRO, Enauro de; PINA, Yara. “Entrevista com Yashira”. eRevista Performatus, Inhumas, ano 5, n. 17, jan. 2017. ISSN: 2316-8102.

 

Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy

Edição de Da Mata

© 2017 eRevista Performatus e xs autorxs

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