Esboçar um Diálogo, Desenhar a Troca: Uma Entrevista com Yara Pina

 

Yara Pina, Sem Título 4. Ação realizada em Goiânia, Brasil. Setembro de 2012. Frame de Glayson Arcanjo

 

Yara Pina nasceu em 1979, em Goiânia, cidade onde atualmente vive e trabalha. É bacharela em Artes Visuais e Especialista em Arte Contemporânea pela Universidade Federal de Goiás. Desde 2010, tem participado de exposições individuais, coletivas e também de salões de arte. Recentemente, foi premiada pelo 63º Salão de Abril em Fortaleza. Em seus trabalhos, a artista explora diferentes materiais em processos que buscam potencializar seu uso, propriedades e formas de inserir e inscrever as ações do corpo. Em sua grande parte, os trabalhos resultam em intervenções no espaço físico e em instalações que permeiam as fronteiras do desenho, performance, objeto, escultura e pintura.

A partir de um estreito diálogo com a performance, tem pesquisado as possibilidades e potências poéticas do desenho na contemporaneidade. Pensando sobre o desenho como linguagem que é operante em sua poética e cuja potência de discussão se mantém cada dia mais ativa, tentaremos aqui, na forma de um diálogo que foi se construindo gradativamente pelas formas e mídias possíveis, delinear alguns traços de seu pensamento, em um possível esboço do seu fazer artístico.

 

 

RENAN MARCONDES: Comecemos com uma pergunta mais direta: uma ação de ordem mais racional ou mental pode ser pensada como desenho também?

 

YARA PINA: Em meu processo, ações são meticulosamente planejadas, contudo, a realização delas está sujeita a imprevistos, digo do confronto entre corpo, matéria e suporte.

 

RENAN MARCONDES: Acho que minha pergunta vem um pouco desse lugar. Como você disse, a ação é meticulosamente planejada, ou seja, você primeiro pensa/projeta para depois agir. Essa ação geralmente é algo muito físico e corporal (por exemplo, jogar a cadeira contra a parede). A minha pergunta é se seria possível também pensar esse primeiro momento no qual você pensa/projeta a ação, como desenho. Ou seja: uma fala, escrever um texto, pensar sobre algo, discutir, etc. Essas ações também têm “potencial de desenho” para você?

 

YARA PINA: Sim, por exemplo, a cadeira é um objeto, utilizado como arma (como os vândalos as utilizam), como matéria do desenho, e marcas que imprimem o processo de destruição do objeto. Inclusive o desenho também está nos esboços dos meus trabalhos. Antes de executar boa parte dos trabalhos, eu realizo esboços, e até projetos, então o desenho também está presente no processo da obra e também no fazer da obra.

 

RENAN MARCONDES: Você considera o desenho um fenômeno da visibilidade ou da invisibilidade? A partir desta pergunta, queria saber de você o que significa visualizar um desenho, olhar para algo e reconhecer naquilo algo que possa ser nomeado como tal.

 

YARA PINA: Depende muito do processo e do fazer do artista. Nos meus trabalhos, não utilizaria as palavras visibilidade/invisibilidade, mas a maneira como o corpo age sobre um suporte, material ou objeto. Ao invés da palavra visualizar, eu prefiro utilizar a palavra “fazer” desenho; é na maneira de fazer que reconhecemos as várias formas de processá-lo.

 

RENAN MARCONDES: Entendo quando você fala da diferença entre visualização e feitio, mas ainda mantenho a minha pergunta: o que, nisso que você “faz”, caracteriza o resultado enquanto desenho e não como qualquer outra coisa (performance, instalação, etc.)? Resumindo e sendo bem objetivo, o que significa a palavra “desenho” para você?

 

YARA PINA: Em relação à performance, o que talvez diferencie, ou melhor, tensione a relação entre essas duas linguagens, no sentido de apresentação da obra, esteja na forma de explorar a presença do corpo, uma vez que priorizo a presença das inscrições do corpo ao invés do “ver” o corpo agindo, como faz a performance na presença do público. Sobre o significado de desenho, nunca pensei em dar significados. Prefiro pensar nos meios de como o desenho pode ser explorado e se fazer presente em meu processo. Sendo assim, procuro trabalhar o desenho de várias formas, explorando sua matéria, história, processo, conceito, suporte, atmosfera, etc. Se por um lado trabalho com um extenso reportório do desenho, por outro busco tensionar seu fazer com outras referências e linguagens. Dessa forma, eu não posso definir o que faço apenas como desenho, uma vez que busco criar um embate com outras linguagens, como a instalação, performance, pintura, escultura, fotografia, cinema e por aí vai. Por fim, eu não gostaria de enquadrar a palavra desenho. Isso cabe aos dicionários. Parafraseando Valéry, eu não quero “dizer” o que é desenho, eu quero “fazer” desenho.

 

RENAN MARCONDES: É possível um desenho desaparecer?

 

YARA PINA: Em meu processo, o fazer do desenho está vinculado ao espaço de sua criação, da intervenção, etc. Contudo, ele também poderá ser realizado novamente em outras espacialidades e temporalidades. Dito de uma outra forma, presença, espaço e tempo estão interligados.

 

RENAN MARCONDES: Concordo que presença, espaço e tempo estejam interligados no seu processo, mas a minha pergunta tem mais a ver com as possibilidades do desenho enquanto linguagem, e não ainda diretamente ligadas ao desenho sendo operado no seu processo. Refaço a pergunta, mas reformulando-a a partir das suas outras respostas: É possível “desfazer” desenho?

 

YARA PINA: Sim, é possível, desfazer. Assim como o “fazer”, o “desfazer” também é um ato criativo… Portanto, o ato de desfazer também é fazer desenho. Na minha opinião, vários artistas desfizeram o desenho: Georges Seurat, Paul McCarthy, Trisha Brown, Carolee Scheneemann. São várias as formas de desfazer o desenho. Então o desfazer está muito relacionado ao enquadramento do que se toma como “fazer” desenho. Engraçado que me lembrei agora do trabalho de Robert Rauschenberg, de 1953, Erased de Kooning Drawing, no qual ele apaga o desenho de Willem de Kooning.

 

RENAN MARCONDES: Sim, mas esse apagamento opera num nível conceitual, pois o desenho apagado é de outro. Eu entendo mais esse apagamento como uma metáfora a uma progressão natural da história da arte (uma vez que o de Kooning o antecedia como uma grande figura da arte) do que como uma questão sobre o próprio fazer do desenho. Acho que essa questão do desfazimento como problema processual aparece mais em Giacometti, por exemplo. Giacometti, inclusive, é um cara que me vem à cabeça olhando seus primeiros trabalhos, os desenhos de 2010, porque existe uma pulsão de um gesto que se repete e se impõe sobre a matéria que é a questão em si. Queria ouvir mais de você sobre essa pulsão que vejo recorrente em seus trabalhos. É um processo consciente essa repetição quase obsessiva do gesto?

 

YARA PINA: Sim, é conceitual. O próprio título do trabalho é uma referência, mas também é processual, uma vez que Rauschenberg apaga literalmente o desenho de Kooning, um processo físico de remover ao invés de acumular a matéria no suporte, e isso é muito interessante. Ao apagar o desenho, Rauschenberg sobrepõe seu gesto ao de Kooning, o fazer “apagar” também deixa marcas sobre o suporte, entende? A borracha deixa sua marca. E isso é um processo do desenho. Além do mais, a borracha é um instrumento tradicional da prática do desenho assim como o “apagar”. Os esboços da pintura são uma prova disso; se desenha para depois apagar. Por outro lado, existe um gancho com o trabalho de Giacometti, que opera com o ato de acumular, acumular, acumular matéria – sobrepondo linhas –, ao invés de removê-la, como fez Rauschenberg. Na minha opinião, Rauschenberg é um grande “desfazedor” do desenho.

Em relação às pulsões, acho que elas estão relacionadas com a forma de o corpo agir sobre um determinado material, objeto, suporte, etc. Contudo, durante o embate com o suporte, seja ele parede, papel ou, até mesmo, o próprio objeto, não sei como se dará esse enfrentamento, não sei de que forma esses materiais irão reagir à ação do meu corpo e vice-versa; existe o imprevisto ali. Por isso, um gesto nunca será inscrito uma vez só, ele sempre será repetido. Se pretendo destruir uma cadeira, tenho que repetir o gesto de lançá-la várias vezes contra a parede; para quebrar uma moldura, tenho que arremessá-la várias vezes no chão. E a prova da repetição – do corpo agindo – está na materialidade do gesto, digo, nos resquícios da matéria impregnada na marca. Na faculdade, quando eu desenhava sobre o papel, isso ainda não era muito claro para mim. Achava que quando o lápis quebrava ou o papel rasgava o desenho havia “falhado”. Vendo agora, percebo que desde o início havia uma pulsão pelo ato destrutivo assim como pelas marcas de seu processo.

 

RENAN MARCONDES: As marcas do processo começam a operar quase num nível simbólico, não? Eu sempre tenho a sensação, vendo as obras de caráter mais material e menos processual (como as instalações, objetos, etc.), de que sou colocado em frente a uma certa violência. A destruição que estamos comentando não necessariamente gera um resultado final “destruído” (como podemos inclusive ver nos exemplos acima), mas eu sinto que no seu trabalho a violência surge como um espectro, mais como um tema. É como se a forma da obra deixasse muito claro que ela foi violentada, mas ao mesmo tempo velasse essa informação por um caráter hermético que vejo no seu trabalho. Até quando você deixa de articular questões inerentes ao processo do desenho, aparecem os objetos cortantes embrulhados, ou um indício de gesto violento nas fotografias refletidas sobre a televisão desligada. Você poderia comentar um pouco sobre esse deixar-à-mostra/esconder a violência?

 

YARA PINA: O que proponho em alguns casos – quando apresento as armas – é a mostra, ou seja, a potencialidade de ferir desses objetos cortantes e pontiagudos. Sendo assim, a violência presente nesses objetos não surge da maneira de o corpo agir, mas de sua própria aparência, na forma de sua apresentação. Os objetos, sejam eles armas em si ou armas improvisadas, são recorrentes nas ações dos criminosos, vândalos e assassinos. Portanto, deixá-las à mostra é uma forma de incorporar o contexto e o universo simbólico aos quais estão inseridas. Já em outras ações, a violência está mais presente na forma de o corpo agir e utilizar o material, deixando marcas ou agredindo uma superfície ou objeto. Então a violência parte principalmente do corpo, da sua ação violenta impressa na marca deixada.

 

RENAN MARCONDES: Por fim, queria saber da sua trajetória como artista (e todos os trâmites de validação e nomeação que estão inevitavelmente inseridos nela): ainda há espaço para o desenho? Existem formas prévias desses espaços? E culturalmente, como você pensa o Brasil nesse contexto de pesquisa em artes e especificamente da pesquisa e experimentação sobre o desenho, ainda mais depois da experiência no Drawing Center (da qual eu também gostaria de saber mais)?

 

YARA PINA: Formei-me em 2009, pela Faculdade de Artes Visuais da UFG. Desde 2010 tenho participado de Salões e mostras coletivas em diferentes estados. Em 2012, fui premiada pelo Salão de Abril de Fortaleza. Aos poucos, convites para integrar mostras coletivas em torno do desenho também começaram a surgir. Este ano integrei uma mostra de desenho no Drawing Center.

Minha relação com o desenho existe desde a graduação e até hoje minha produção permeia o repertório dessa linguagem. Por outro lado, meu processo está muito contaminado e em confronto permanente com a linguagem da performance.

Se ainda existe espaço para o desenho? Sim. Primeiramente, vemos que alguns artistas desenvolvem sua poética muito arraigada à história, ao conceito e ao processo do desenho. William Kentridge é um grande artista do desenho. Por outro lado, percebemos que outros artistas mantêm uma ligação muito forte com o desenho e com a performance em seus processos e vice-versa. Ainda mais, várias outras linguagens, como a dança, têm explorado algumas práticas do desenho. Já em relação aos espaços dedicados especificamente à promoção, experimentação, mostra e pesquisa sobre o desenho, ainda não tenho conhecimento aqui no Brasil. Mas temos presenciado várias exposições coletivas e também encontros e eventos que buscam reunir artistas que trabalham com essa linguagem. Aqui em Goiânia, desde 2011 o artista Glayson Arcanjo organiza o Desenha!, evento que desenvolve várias atividades, mostras e palestras com artistas e profissionais de diferentes estados, áreas e linguagens. Em 2012, participei da mostra coletiva Diálogo Desenho, curadoria de Glayson Arcanjo, que reuniu artistas residentes em Goiânia que trabalhavam com o desenho, performance, videoarte, fotografia e instalação.

Já fora do Brasil temos o Drawing Center, que desde os anos de 1970 se dedica especialmente à história e à produção contemporânea do desenho. Na França, temos o Drawing Now Paris!, que promove anualmente um grande salão do desenho contemporâneo. Isso sem falar nas grandes mostras de desenho como, por exemplo, a exposição que o MoMA realizou, em 2010, On Line: Drawing Through Twentieth Century. Por fim, o projeto Tracey se constitui num espaço de pesquisa sobre a prática contemporânea do desenho.

Em relação à experiência com o Drawing Center, ela ainda está andamento. O Open Sessions é um programa que reúne artistas do mundo inteiro. Entre os meses de fevereiro e março foi realizada uma exposição coletiva, e a outra etapa será uma atividade com o público, ainda em desenvolvimento. Além de visibilidade e projeção, a troca de experiências com os outros artistas tem sido enriquecedora. Os curadores nos deixaram à vontade para a escolha das obras. Decidimos por apresentar dois vídeos que documentaram duas ações: Sem Título 2 (2011) e Sem Título 4 (2012). Integrar a mostra no Drawing Center tem sido uma realização. Acredito que além de ser um espaço de grande atuação e credibilidade, é uma referência para todo artista que explora a história, o processo, o conceito e a prática contemporânea do desenho.

 

 

PARA CITAR ESTE TEXTO

MARCONDES, Renan. “Esboçar um Dialogo, Desenhar a Troca: Uma Entrevista com Yara Pina”. eRevista Performatus, Inhumas, ano 2, n. 10, mai. 2014. ISSN: 2316-8102.

 

Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy

© 2014 eRevista Performatus e o autor

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