Entrevista com Beth Moysés

 

Beth Moysés representada na ilustração da artista Veridiana Scarpelli para a oitava edição da eRevista Performatus

 

Beth Moysés

Entrevista a Arthur Moreau, em 17 de outubro de 2013

 

ARTHUR MOREAU: O que instiga você a fazer arte? O que move você para fazer arte?

 

BETH MOYSÉS: A paixão que eu tenho pela arte. Sou totalmente apaixonada por aquilo que eu faço. Sou apaixonada também pela causa de transformar alguma coisa na condição da mulher na sociedade. Esse lado artístico, que é o fazer, e o lado ideológico que é construir alguma coisa melhor para esse povo, que eu vivo, que as minhas filhas, que as pessoas de uma forma geral vivem. Eu quero colaborar para as mudanças necessárias. Quero que as pessoas cresçam, quero que as pessoas tenham mais solidariedade umas com as outras e que as relações afetivas se transformem também.

 

ARTHUR MOREAU: Dentro disso, mais especificamente, o que incomoda você no mundo, o que mais você gostaria que se transformasse?

 

BETH MOYSÉS: Em primeiro lugar, a vivência que eu tive do feminino e do masculino na relação do casamento. Na família que me trouxe à vida eu notava, desde pequena, entre o meu pai e a minha mãe, as dificuldades de relacionamento. Eu achava tudo muito injusto na relação entre homem e mulher. Por que o homem pode tanto e a mulher pode tão pouco? Uma série de diferenças que me incomodavam. Isso desde muito nova.

Paralelamente, sempre gostei muito de arte. Nunca imaginei que eu iria juntar um dia a arte com todo esse questionamento que existia dentro de mim.

 

ARTHUR MOREAU: Você já sofreu algum preconceito no mercado da arte?

 

BETH MOYSÉS: Pode ser, mas nada muito explícito. Acho que os homens não gostam do meu trabalho. Aliás, tem muita gente que não gosta do meu trabalho. Acho que gostam mais na Espanha. Há muitos casos de violência contra a mulher lá e eles querem mudar essa situação. Isso é muito bacana. O estado luta, o povo luta, as pessoas querem mudar tudo isso. Mas, ao mesmo tempo, continua a violência.

Há pouco tempo vi em um programa na televisão que a cada uma hora e meia uma mulher é assassinada pelo seu parceiro no Brasil. É muita coisa! Aqui no Brasil acham que eu faço um trabalho que é dos anos de 1970. “A mulher já está liberada! Já tem autonomia. Ela não precisa de mais nada disso. Você está falando de uma coisa que já passou!” Só que não passou, eu desenvolvi um trabalho na delegacia das mulheres por seis meses e percebi que não passou coisíssima nenhuma! As mulheres continuam apanhando, continuam sofrendo violência psicológica, que é pior do que a violência física. Porque a violência física você detecta, você vê se está roxa, se a mulher apanhou. E tem uma violência psicológica que não é detectável. Que na hora que você se dá conta, você já está lá no fundo do buraco. E você não consegue se recuperar. Então o “maltratador” faz a autoestima da mulher ficar baixa e daí ele consegue manipulá-la da maneira que ele quiser. Acho que é uma coisa patológica ou é uma situação cultural, patriarcal, uma herança de pai para filho, que, então, virou uma coisa patológica.

 

ARTHUR MOREAU: Como você calcula o preço das suas obras?

 

BETH MOYSÉS: Sou péssima de negócios. Não sei calcular. Peço para o galerista colocar o preço. [Os meus trabalhos] não têm preço, para mim não têm preço. Quero que ela [a minha obra] vá para o mundo. Quero fazer, quero não parar de fazer. Gosto de criar o tempo todo. Para mim, eu criando, estou feliz.

 

ARTHUR MOREAU: Qual é o curador ou a curadora que você mais admira e por quê?

 

BETH MOYSÉS: O curador que eu mais admiro é o Rafael Doctor Roncero. Ele é espanhol. Foi ele quem me levou para a Espanha. A Espanha foi tão importante na minha vida… Faz dez anos que eu vou para lá, as pessoas entenderam o meu trabalho, eu me sinto muito feliz. Ele me convidou para fazer uma performance em Madrid, onde duzentas mulheres participaram. Elas caminharam pelo Paseo del Prado, e nesse caminho elas foram despetalando um buquê de noivas. Existe um respeito. Aqui no Brasil, a primeira performance coletiva que eu fiz foi no dia 25 de novembro de 2000, Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher. Essas mulheres se vestiram de noiva e caminharam pela avenida Paulista. Cento e cinquenta mulheres, despetalando o buquê, deixando um rastro de pétalas e, quando chegaram à praça Oswaldo Cruz, elas enterraram os espinhos, que foi o que sobrou do buquê. Com uma pá, com terra, vestido de noiva, tudo desconectado. Acho que era super interessante pegar justamente isso, essa coisa toda desconectada: juntar o feminino e o masculino, que é a pá; vestido de noiva, que é um símbolo de uma construção de feminino mas que também aponta para um tipo masculino complementar, porque ninguém casa sozinho.

 

Beth Moysés, Memória do Afeto. Performance realizada na cidade de São Paulo, Brasil. Novembro de 2000. Fotografia de Patrícia Gato

 

Beth Moysés, Memória do Afeto. Performance realizada na cidade de São Paulo, Brasil. Novembro de 2000. Fotografia de Patrícia Gato

 

O Rafael Doctor viu esse trabalho no Chile, por acaso. Em uma exposição normal, coletiva, nada demais. Ele errou o caminho e entrou [na exposição], e de repente ele olhou um vídeo da performance e falou: “Nossa! Esse trabalho tem tudo a ver com a Espanha!”. Eu fiquei dez anos indo praticamente de três a quatro vezes por ano para a Espanha. Conheci a Espanha inteira, graças a esse começo. Duas críticas, muito queridas, que me apoiam muito na Espanha, são a Margarita Aizpuru e a Berta Sichel. A Berta é brasileira e vive na Espanha.

Uma brasileira, que foi importante e continua importante até hoje e que é uma pessoa querida, é a Kátia Canton. É uma pessoa que sempre entendeu meu trabalho, sempre apoiou muito, e é uma pessoa especial para mim e para a valorização do que eu faço no Brasil.

 

ARTHUR MOREAU: Você já achou que alguma obra sua foi exposta de modo equivocado em alguma galeria ou museu?

 

BETH MOYSÉS: Não, porque normalmente eu monto [os trabalhos]. Eu sou muito exigente na montagem do meu trabalho. Fiz um trabalho aqui, no meu ateliê, exatamente nessa parede [ela aponta]; fiz chover para um vídeo chamado Trans-bordando [de 2011]. Eram cem dedais. Troquei as mulheres pelos dedais. Coloquei os dedais para expressar justamente uma história que fala um pouco desse metal que defende o dedo da mulher, que defende uma parte dela, que a faz pensar estar protegida. Mas, na verdade, trata-se de uma proteção muito pequena. É preciso ficar atenta em relação a isso. Fiz chover muito. Não era chuva natural. Na época, as pessoas pensavam que coloquei os dedais na chuva. Mas não. Eu fiz uma montagem. Realmente fiz chover muito, alaguei o apartamento inteiro. Alagou tudo. Não conseguia nem parar para ver o alagamento. Todo mundo falando: “Beth, está alagando tudo!”. Mas a imagem estava demais! Não dava para parar! Então realmente é assim, eu sou movida por essa paixão, que é o trabalho, o fazer, o acaso.

 

Beth Moysés, frame de Trans-bordando, 2011

 

E o trabalho que eu faço com as mulheres também. Um trabalho muito importante. Aquilo que acontece nos bastidores é muito bom. O que faço dentro da Casa do Abrigo. É um lugar que foi instituído pelo governo para recolher mulheres que estão correndo risco de morte. Então elas ficam lá e tudo é sigiloso. Ninguém sabe o telefone, ninguém sabe nada. Tanto é que, quando fiz o trabalho com elas, me levaram para a Delegacia da Mulher. Deslocaram as mulheres da Casa do Abrigo para a Delegacia da Mulher. Porque não pode ser vazado o lugar onde elas estão, o que eu acho muito bom. Já na Espanha acontece diferente. Lá elas me levaram para dentro da Casa do Abrigo. Levo os vestidos brancos rodados, não de noiva, para elas escreverem no tecido, com canetinha vermelha, tudo o que aconteceu na vida delas, tudo o que elas quiserem escrever, tudo o que elas sentem. A ideia é essa: o meu trabalho é estar junto com elas. Eu quero mudar a situação das mulheres tanto quanto elas querem mudar. Então [digo a elas]: “Coloquem a alma nesses vestidos!”. Então elas começam a escrever. “Mas é muito grande o vestido!” – uma me falou. Daí eu falei: “Faz o que você puder. Escreve o que você quiser. Você tem essa liberdade!”. Por que o que é importante nesse trabalho coletivo é que elas possam participar. Então cada uma faz o que quiser: elas desenham, escrevem etc. Enfim, elas fazem parte do trabalho. Sou artista e elas também são um pouco artistas, porque elas também participam do trabalho. No começo, algumas falam que não têm tanta coisa para escrever, que o tecido é muito grande. Elas escrevem e ainda pedem mais caneta! E aí continuam escrevendo, escrevendo… Quando terminam, sentem um alívio! E quando vou ver o vestido, ele está todo escrito! Todo desenhado, todo preenchido. E outras vinte mulheres participam da performance. Então já é uma celebração. Porque essas mulheres trabalham em solidariedade. As que estão na Casa Abrigo escrevem no avesso dos vestidos e as outras vestem o vestido. O tecido todo branco está por fora e o texto, o conteúdo em vermelho, está por dentro. A performance é tirar o vestido e, neste momento, revelar o que estava no ambiente privado, trazer para o espaço público o que estava velado e lavar esse vestido em praça pública. Ao contrário do que diz o ditado popular “roupa suja se lava em casa, e não na rua”, elas lavam a roupa suja na rua. E todo esse conteúdo vermelho vai para a água e os vestidos ficam rosados, manchados. Porque nada sai por completo. Nada na vida sai por completo. Tem um poema do Carlos Drummond de Andrade, que eu adoro, que se chama “Resíduo”. “De tudo fica um pouco.” Sempre fica um pouco. E é nessa construção criativa do ser humano que os resíduos vão se transformando em outras coisas, como arte.

Para a performance Memória do Afeto demorei dois anos para coletar os vestidos de noiva, dois anos para conseguir todos os vestidos para cento e cinquenta mulheres! Pedi para as amigas, nas casas de aluguel. Fiquei alucinada! Ligavam para mim: “Olha! Tem um aqui!”. Peguei, peguei, peguei. Ia lá buscar! Fui para Santo André, Campinas. Consegui esses vestidos de noiva, todos doados. Aí fui atrás das flores. Um senhor me falou: “É muito legal a sua causa. Estou abraçando a causa com você. Olha, eu tenho duas filhas e eu não quero que isto aconteça na vida delas. Então vou dar esses cento e cinquenta buquês para você fazer esse trabalho! Vou cooperar com esse trabalho!”. Ganhei esses cento e cinquenta buquês. E cada um cooperou do jeito que pôde. As mulheres cooperaram, e eram mulheres de todas as idades, de cores diferentes, todas juntas lutando para mudar essa situação da violência contra a mulher.

A primeira experiência foi a mais difícil. Cheguei à avenida Paulista sozinha, vestida de noiva, com buquê, não tinha ninguém. Então, além do mais, a performance tem essa coisa do risco. Podia aparecer gente como podia não aparecer ninguém. Eu estava lá esperando. Apareceram todas as mulheres. E foi lindo! Eu adorei. Foi uma coisa mágica, muito bacana.

Agora, o que muda na vida das mulheres, eu não sei. Porque eu nem pergunto para elas depois. Eu só fiquei sabendo de um caso de uma mulher que estava há sete anos sofrendo violência do marido, violência psicológica; ele mandava ela embora, mas ela não ia. Ela participou da performance, voltou para casa, arrumou a mala e foi embora. Ela foi forte. O trabalho no coletivo fica muito mais forte.

 

ARTHUR MOREAU: Qual é a sua opinião sobre os editais em esfera municipal, estadual e federal ligados às artes plásticas?

 

BETH MOYSÉS: Eu, particularmente, não trabalho por meio dos editais. Em 2011, fui convidada para participar de uma residência em uma instituição em Tóquio, Japão, por meio das Organizações de Mulheres em Tóquio, para trabalhar com a questão da violência contra a mulher, que é um assunto velado, não comentado, no país. No final da minha estadia, realizaria uma performance com trinta mulheres. O projeto foi aprovado pela Lei Rouanet, pois é fácil obter a aprovação, mas, depois de muita luta, não conseguimos a verba, porque meu trabalho não dá uma visibilidade de massa para uso publicitário das empresas. Acabei perdendo essa oportunidade.

Agora, com o Plano Nacional de Cultura, que destina verbas da União para uso obrigatório dos municípios para a cultura, surgiram novas oportunidades, mas ainda está em processo de implantação, a concorrência será grande e existe o risco de haver influência dos grupos políticos do poder local.

 

ARTHUR MOREAU: Nos países em que você já trabalhou, qual deles teve mais dificuldade para colocar em prática as suas performances?

 

BETH MOYSÉS: Na China.

 

Beth Moysés, Lembranças Veladas. Performance realizada em Shanghai, China. Novembro de 2008. Fotografia de Marina Moysés

 

ARTHUR MOREAU: Por quê?

 

BETH MOYSÉS: Porque, primeiro, um repórter chegou para mim e perguntou: “Posso saber por que você resolveu fazer esse trabalho aqui?”. Como se esse trabalho fosse uma coisa estranha naquele país… Resolvi fazer a performance Lembranças Veladas [isso foi em 2008], na qual cada mulher se vestia de noiva, cem mulheres, e carregavam e distribuíam nas ruas lembrancinhas que fazem parte da tradição chinesa. Eu busco sempre as características de cada país. Por exemplo, se eu fizer aqui, eu vou pegar amêndoas ou bem-casados que servem no final do casamento. Na China, eles pegam três frutos que dão sorte e os colocam em um pacotinho. Na performance usei um pacotinho amarradinho, e dentro dele tinha um cartãozinho com o nome da artista na frente, e, no interior, a palavra “medo”, em chinês. E atrás estava escrito “Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher. No mundo, a cada quinze segundos uma mulher é maltratada pelo marido”. Eles queriam pôr traduzido para o inglês. Eu falei: “Não estou fazendo esse trabalho para mais ninguém. Estou fazendo para vocês”. Tinha que ser em chinês. Ninguém mais precisava entender. Daí pus em chinês e eles fizeram tudo em chinês.

Fiquei muito surpresa quando aquele repórter, que imaginamos ser um cara culto, ou que deveria ser, perguntou para mim o motivo de fazer aquele trabalho específico na China, como se fosse natural a violência que a mulher sofre, como se a violência à mulher já fizesse parte do padrão das relações sociais, familiares etc. daquele país. Mais ou menos como se fosse comum, para a gente que vive aqui no Brasil, achar natural existir mendigos dormindo nas ruas. Toda e qualquer situação passa a ser natural no momento em que se torna hábito cultural. Falei para ele o seguinte: “Li dois livros sobre a vida da mulher na China e achei que seria importante fazer este trabalho aqui”.

Nas mulheres, eu via uma delicadeza muito grande… Mas não era uma delicadeza espontânea, e sim uma delicadeza de ditadura. Uma delicadeza que te obriga a ser assim. A mulher tem que se cobrir, tem que respeitar, pois a educação é essa: a mulher deve andar atrás e os homens na frente. Uma série de regras. Antes da revolução cultural, amarravam os pés das meninas para que eles não se desenvolvessem e para obrigar a mulher a andar atrás dos homens. Isso deformava os ossos e produzia um sofrimento terrível. Depois a revolução proibiu essa tortura. Uma escritora chinesa, Xinran, conta histórias absurdas. Ela é jornalista e trabalhava na rádio, em Nanquin. Ela não pôde editar seu livro na China. Foi proibida. Editou em todos os lugares, menos na China. Ela foi morar em Londres. O livro é tristíssimo, chorei muito, porque tem muitas histórias de maltratos absurdos que o pai impingi à filha, além das próprias questões pessoais da menina. A China limita a quantidade de filhos que cada um pode ter. Só é permitido que se tenha um filho. Os homens preferem que sejam filhos do sexo masculino para continuar com o nome da família. Se nasce uma mulher, eles doam ou matam. Há somente essas duas alternativas. Mesmo entregando a filha, essa alternativa não é tão confortadora, pois sabe-se que uma outra mulher é quem vai criar a sua filha, lá do outro lado do mundo, sendo que você tem condições e o desejo de criá-la. É triste demais, não é? Eu acho um absurdo. Sinceramente, é uma violência.

O trabalho foi difícil também por causa da língua. Havia uma menina que falava inglês. Levei um texto escrito e ela leu para todo mundo, traduzindo para o chinês. Ela fez a tradução simultânea, assim, rapidinho. Todo mundo entendeu muito bem. Mas ela modificou um pouco a performance para o jeito que eles queriam. A ordem existia, mas havia um distanciamento entre uma e outra. Era perfeita a organização, de tanta disciplina que elas recebem desde pequenas. E eu sofri vendo essas mulheres sendo maltratadas. Falam que elas são gentis, que elas são delicadas. Não sei até que ponto isso é verdade. Se isso acontece realmente. O que leva essas mulheres a serem assim a vida inteira? Então acho que foi difícil porque elas estão habituadas a não demonstrar o que elas sentem de verdade. O que é diferente, por exemplo, daqui e da Espanha onde mostramos mais o que sentimos. Foi uma performance mais fria, que não tem muito a ver com meu trabalho que costuma ter muita emoção. Meu trabalho tem muita emoção, ele precisa dessa emoção. As mulheres precisam realmente viver ele. Não é um teatro; as mulheres não são atrizes. São mulheres de verdade, que sofreram ou que querem mudar. Não são todas que sofreram. Mas tiveram algum tipo de violência do pai com a mãe ou viram essa dificuldade com alguém próximo e querem mudar a situação da mulher. Então, elas têm garra, essa coisa da luta, de pôr o vestido e sair para a rua e tentar transformar essa situação.

 

Beth Moysés, Despierta, 2010

 

ARTHUR MOREAU: De modo geral, como você entende a cor branca no seu trabalho?

 

BETH MOYSÉS: Acho legal explicar mais ou menos, cronologicamente, como cheguei a ela. Eu brigava muito com a tela. Comecei a ter aulas com o Carlos Fajardo e aí eu colava na tela um monte de material, e pintava. “Beth, sabe que seu trabalho tem a ver com o Nuno Ramos?” Eu adoro o trabalho do Nuno Ramos. Eu ia colando coisas femininas: era meia de seda, tule, todas essas coisas que faziam parte do meu universo, e pintava. Era uma guerra entre eu e a tela. Eu arrancava… Daí resolvi fazer o seguinte: tirar a tinta por completo do meu trabalho e ele ficou branco e vi alguma coisa de noiva nele, o que me fez buscar um vestido de noiva em uma loja. Resolvi comprar uns vestidos já muito usados que já não serviam para uma noiva se casar. Eles já estavam roídos por traças, antigos mesmo. Pedi, também, vestidos de noiva para as amigas. Então me interessei por esses vestidos e comprei mais. Eu os recortava e criava objetos com eles.

Mas todo esse volume me levou a um lugar. Quando pego nos vestidos que fui recolhendo por aí, tenho uma memória involuntária, vou lá atrás no meu passado e trago todas as referências que tive de relacionamentos, de casamentos, do que eu via entre meu pai e minha mãe, do que eu não concordava. Sempre fui supersensível. Era uma coisa muito complicada aquele relacionamento entre o meu pai e minha mãe. Eu poderia estar cuidando da minha vida, estudando, sei lá o que, mas ficava cuidando dos dois, envolvida com os problemas deles. À maneira que encontrei para me expressar foi através da arte. Os vestidos de noiva me levaram para esse lugar.

Aí eu trouxe e juntei este conceito ao meu trabalho: o casamento regido pelo Amor Romântico, a identidade de gênero sexual dentro dele, a relação de poder do homem sobre a mulher, a frustração. Então, quando comecei a fazer, eu não parava. Não parava porque era muita coisa. Era um trabalho atrás do outro. Era uma compulsão. Iam brotando trabalhos, sabe. Brotando, brotando, brotando, eu não parava. Eu sentia que naquilo tinha uma verdade. As pessoas comentavam: “Da onde é que você tirou isso?”. Eu respondia: “Nem eu sei!”. Sabe, a coisa foi nascendo, nascendo, nascendo pelo amor que eu tinha pelo fazer, e de toda a história que eu carregava dentro de mim. Juntei as duas coisas e aí nasceu o meu trabalho. Quando tirei a tinta, ficou o branco, e tudo mais veio desse branco.

 

ARTHUR MOREAU: Quais são os seus principais modos de se alimentar para criar sua arte?

 

BETH MOYSÉS: Leio muito. É incrível. Lembro-me de uma coisa curiosa que estava lendo e aí, de repente, começo a imaginar. Fui fazer um trabalho dentro de um hotel, uma proposta de uma artista que convidou trinta artistas para pegar um quarto do hotel e transformar no que quisesse. Então, a primeira proposta que eu tinha era rechear um quarto de terra, do jeito que estava. A pessoa iria abrir a porta e dar de cara com a terra, mas não conseguiria passar pela porta. Não me deixaram fazer isso. Era o Lord Palace Hotel, antigo pra caramba, no centro da cidade [de São Paulo]. Eles falaram que a estrutura não iria suportar. Acabei mudando e achei que fui feliz na mudança. Transformei o quarto do hotel em um quarto de hospital de casal. O quarto parecia de hospital mesmo, todo branco, asséptico. Transformei uma cama de solteiro de hospital em cama de casal, porque não existe cama de casal hospitalar. Cortei e reformei. E, no dia da inauguração, fizemos uma performance. Um casal ficou deitado, unido só por uma sonda, onde se alimentavam um do outro e ao mesmo tempo se doavam um ao outro. Tratava-se de um sistema circular de dar e receber ao tempo todo, mas dentro de uma patologia, de uma codependência entre o maltratador e a maltratada. Ela precisa dele, ele precisa dela.

 

Beth Moysés, Frente e Verso. Performance/instalação realizada na cidade de São Paulo, Brasil. Setembro de 2004. Fotografia de Beth Moysés

 

Tanto é que, na delegacia da mulher, a delegada me contou que uma mulher teve o olho furado pelo marido dela. A delegada cuidou dessa mulher com todo amor e carinho, levou a mulher para o hospital, cuidou dessa situação. Depois de dois anos, ela [a delegada] resolveu ver o que aconteceu com essa mulher. Ela tinha voltado para o marido…

Quando comecei a desenvolver trabalhos na delegacia da mulher, a delegada me falou: “Beth, por um lado você está ajudando, porque vejo que elas falam com você e chegam muito mais tranquilas para fazer a denúncia. Mas, por outro lado, você está me atrapalhando, porque não quero que elas se separem dos seus maridos”. Ouça essa história! “Eu não quero que elas se separem. Porque o cara doente, quando se separar, vai arranjar outra mulher. E ele vai formar outra família doente. Entendeu? Então a sociedade vai ser contaminada por essa doença.” Então, eu falei: “É muito melhor essa mulher continuar aguentando? É isso o que você quer dizer?”. E ela respondeu: “Não, é melhor cuidar desse casal”. E eu falei: “Você consegue cuidar desse casal?”. É difícil.

Acho que o artista está totalmente conectado à arte. O tempo todo. A arte surge da observação, das tentativas, das associações. Eu, pelo menos, sou assim.

 

Beth Moysés, frame de Gotejando, 2001

 

Beth Moysés, frame de Gotejando, 2001

 

Minha filha divide a ação comigo no vídeo Gotejando [de 2001]. Somos eu e ela. Minha filha tinha oito, nove anos na época. Ela era nova e pedi para ela participar. Ela é muito tímida. Disse a ela: “É um trabalho muito bacana, e tal”. Eu tinha tido um sonho com ela. Sonhei que eu vomitava e ela observava o vômito e dizia: “Isso aqui não serve para mim. Isso aqui serve. Isso aqui também”. Quer dizer, o meu inconsciente trouxe o meu trabalho. Eu transformei o vômito em pérolas. Fiz esse trabalho que era só eu e ela. A gente vai conversando em silêncio, no ato de bordar. As duas juntas, uma de frente para a outra. Os vestidos se misturavam, aquele branco se misturava. Meu vestido de noiva e ela com um vestidinho branco. Então ela ia cortando as pérolas do meu vestido e eu costurando as pérolas no dela. A ideia desse trabalho foi não somente falar dessa comunicação que existe dentro de casa, mas sobre quais referências deixamos para nossos filhos, o que de nós se torna deles. Muitos colecionadores que não compravam meu trabalho, segundo meu galerista, eram muito machistas. Eles não queriam ter um trabalho desses na casa deles. O meu trabalho não é um trabalho vendável. É um trabalho que fala de uma coisa que ninguém quer saber. Quem quer falar sobre violência doméstica? Ainda mais num país onde a cultura é machista. Violência doméstica não é uma coisa que interessa para eles. “É uma coisa que acontece dentro das casas, que eu não quero saber e que ninguém meta a colher nessa história.”

Então, a ideia deste trabalho com minha filha foi mostrar que o que acontece no ambiente privado é importante socialmente e sai para a rua; está relacionado com o modo de vida de outras pessoas. Então acaba sendo um trabalho social. Não é um problema individual, é um problema social. Se as pessoas ficassem presas dentro de casa, se ficassem presas, ninguém saberia o que aconteceu ali. Não. Essas pessoas saem pelas ruas, se comunicam e fazem parte de uma sociedade. Então eu tiro o que acontece no ambiente privado com as mulheres que já sofreram e coloco na rua, no ambiente público e político. A minha ideia é fazer com que as pessoas reflitam a respeito do tema, é sugerir que parem um pouco para pensar. Já é um primeiro passo.

 

ARTHUR MOREAU: Com quais artistas você conversa artisticamente? Quais artistas fazem trabalhos com os quais você tem mais afinidade?

 

BETH MOYSÉS: Sou muito amiga da Sandra Tucci, Del Pilar Sallum, do Paulo Bueno; nós temos uma troca muito boa. Gosto muito da Shirley Paes Leme, Pazé, Caetano Dias, Ana Teixeira e Marina Nunes, da Espanha. Acho que no Brasil tem vários artistas bacanas; me identifico com a Rosana Paulino, Fernanda Chieco e muitos outros.

Andei um pouco solitária, mas estou querendo me abrir de novo. Precisei de um momento de reclusão porque tive um problema de saúde que me fez ficar um pouco mais em casa. Acabei ficando solitária. Eu, os livros e o meu trabalho, pensando… Dentro de casa. O bom é que o artista consegue criar em qualquer lugar. E a leitura ajuda muito. Quanto mais conhecimento você tem, mais condições você tem de expandir seu trabalho.

 

ARTHUR MOREAU: Você fez graduação na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e mestrado na Unicamp. Como foram essas experiências para você?

 

BETH MOYSÉS: A FAAP foi um presente. Eu era muito nova quando entrei na FAAP e fiquei louca. Era demais. Era tudo o que eu queria. Eu não era boa aluna na escola. Foi só depois de descobrir a arte que me transformei numa aluna superboa. Entrei na FAAP e me lembro de um trabalho em que tirei dez! Eu realmente fui muito dedicada ao trabalho. Meu negócio era arte e a arte era o meu alimento. Era tudo o que eu queria fazer. Tinha certeza do que eu queria fazer. A primeira opção, arte; a segunda opção, arte; a terceira opção, arte. Gosto de arte, amo arte.

A Unicamp me trouxe a reflexão do trabalho, o aprofundamento. Achei que foi superimportante porque, quando entrei nessa universidade, já estava mais madura. É muito importante você refletir sobre o trabalho porque quanto mais você reflete, mais você cria. Mais portas se abrem para você criar. Pensamento é criação, e quanto você pensa mais você cria. Foi aí que eu fiz a performance da [avenida] Paulista. Fiz primeiro uma performance na Unicamp, sozinha. O meu trabalho sempre parte do individual para o coletivo. Fiz uma performance na Unicamp. Eu com um vestido de noiva e segurando buquê de rosas que eu ia despetalando. Desse pequeno trabalho com vestido de noiva e com buquê de rosas veio a ideia de trabalhar com o coletivo.

 

Beth Moysés, Forro de Sonhos Pálidos. Instalação realizada na cidade de São Paulo, Brasil. Novembro de 1996. Fotografia de Romulo Fialdini

 

De um vestido de noiva que eu desmanchava, desconstruía e dava uma outra forma a ele, nasceu a ideia de forrar o teto da Capela do Morumbi com vários vestidos de noiva. O teto tem vinte e cinco metros por cinco metros. É muita coisa. Fiz o forro desse teto durante seis meses. Eu ia costurando com uma lona e ia enrolando, porque não cabia no ateliê, que [tem uma área] de três por três metros. Então você imagina fazer esse trabalho no ateliê, enrolando e sem saber o que iria acontecer quando eu subisse no teto. Então fui fazendo, costurando, costurando, costurando, costurando… Sei que costurei muito. Durante seis meses fiquei costurando. Furava o dedo, me machucava, tem até sangue no vestido e eu não sabia o que iria acontecer com ele. No dia em que subiu o trabalho, falei: ”Gente!, não acredito! Ele ficou divino”. Para mim era divino. Foi uma surpresa. Ele parecia nuvem, tinha brilho. E aí, depois, apareceram milhões de outros conceitos. O sonho estava distante do palpável. Adorei esse trabalho. Foi um mês só e nunca mais apresentei.

Depois de dois anos, metaforicamente, esse teto desaba no chão da Galeria Thomas Cohn, com todos os vestidos presentes. As pessoas podiam caminhar descalças, sentir as pérolas, os vidrilhos. Senti, emprestando as palavras de Benjamin Prado, um poeta espanhol que caminhou sobre os vestidos dessa instalação na Espanha em 2002, o que era pisar em uma mulher. Eram vestidos que eram pisados. Não estávamos acostumados a ver isso. Não estamos acostumados a ver vestidos de noiva nessa condição. Se você põe no teto, ele fica no alto, idealizado. Agora, se você pisa em cima…

Depois de dois anos de pesquisa resolvi que esses vestidos seriam preenchidos por mulheres de verdade. Foi quando o trabalho não dava mais conta. Então me perguntam: “Beth, afinal de contas, que mídia você usa?”. Eu uso a mídia que o trabalho pede. Se for vídeo, vai ser vídeo. Se tiver movimento, será vídeo. Se a escultura não esta dando conta, porque não se mexe, então a performance realiza um rito, com o corpo, na ação das próprias pessoas num espaço coletivo. A ideia era que cada mulher convidada vestisse e saísse na rua e pudesse colocar a emoção para fora e questionar os mitos que as mantêm nessas condições. Tirar o que fica preso, retido no ambiente privado e levar para o ambiente público.

 

ARTHUR MOREAU: Você tem algum treinamento corporal que antecipa as suas performances?

 

BETH MOYSÉS: Só emocional.

 

ARTHUR MOREAU: E como ele é mais ou menos?

 

BETH MOYSÉS: É falar. É através da fala que a gente discute a violência doméstica e, com essa conversa, a gente consegue tocar no sentido muito profundo de cada uma das mulheres que participam da performance. E é através desse sentido que cada uma dessas mulheres vai às ruas e consegue fazer o trabalho. Porque, na verdade, é difícil uma mulher se vestir de noiva e sair na rua sem que achem que ela é louca.

Na verdade, isso aconteceu comigo. Eu tinha uma amiga e pedi um vestido emprestado para ela. Ela me falou: “Beth, acho que você não está passando bem. Acho que você está ficando maluca”. Ela não era artista, mas tinha condições de entender que eu estava propondo um trabalho. Até artista já me recomendou: “Acho que você não deve fazer esse trabalho”. Essa recomendação foi endereçada à performance Memória do Afeto [de 2000], que fiz com 150 mulheres caminhando pela avenida Paulista. Lutei muito e fiz o trabalho. Acreditava muito nele. Muita gente falou para mim que eu não deveria fazer, que iria ferrar com a minha carreira. Eu falei: “Olha, ser artista pra mim, em primeiro lugar, é risco. Tem que arriscar”. Tem que arriscar. Para ser artista você tem que arriscar o tempo todo. Tem que sair de cima do muro, você tem que dar a cara pra bater. E é assim que eu sou.

 

ARTHUR MOREAU: Quando era jovem, o que fez você decidir trabalhar com arte?

 

BETH MOYSÉS: Eu era uma péssima aluna. Eu só estudava quando tinha que estudar muito. E a minha mãe me colocou no [Colégio] Dante Alighieri. Imagina eu, no Dante Alighieri!?

Eu me apaixonei por um menino quando tinha sete anos de idade. Me apaixonei desse jeito que sou, passional. Aí houve uma prova em que eu não tinha nada para escrever nela, porque, na verdade, eu só tinha na cabeça a paixão por aquele menino. Então escrevi o nome dele do começo ao fim. Em todas as perguntas, minhas respostas eram: “Gustavo”. Escrevi Gustavo, Gustavo, Gustavo. A orientadora da escola, tradicional do jeito que era, chamou minha mãe e falou “Olha, sua filha não é normal. Olha o que ela fez”. Ela disse que eu fiz a prova e escrevi “Gustavo”. Minha mãe falou: “É! Ela anda falando desse menininho. Acho que é amiguinho dela ou coisa parecida”. As pessoas não me entendiam muito bem. Eu era sensível e não compreendida. Mas, percebendo aquela situação com o olhar de hoje, considero essa prova como meu primeiro trabalho artístico.

Aí resolvi fazer o Mackenzie, curso de especialização em decoração. Tive sorte de ter aulas de história da arte. Uma aula por semana. Eu só tirava dez. Era a única aluna que ficava na primeira cadeira, alucinada pela professora. Ela falava sobre história da arte e eu pensava: “Que coisa maravilhosa! É isso que eu quero”.

Eu não tinha oportunidade de viajar nem de ir aos museus. Minha mãe não ia e meu pai, embora tivesse muito talento, ao mesmo tempo tinha muitos problemas. O primeiro contato que tive com arte foi com 14, 15 anos, nas aulas de história da arte de que falei. Eu desenhava também, e me sobressaía desenhando na escola. Ficava desenhando o tempo todo nas aulas. Em vez de prestar atenção, eu ficava desenhando nas aulas. Desenhava, desenhava… Na aula de desenho, ia muito bem. Era a única que ia bem. São poucos os alunos que querem arte. Na minha época, a coisa era um pouco mais difícil. Lembro que quando entrei na FAAP eu estava muito mal porque tinha sofrido um acidente. Fiquei de cama. Eu falei: “Puta, vou prestar vestibular, mas não vou fazer nada!”. Estava de cama e mal pra caramba. Mas aí fiz uma coisa. Eles [examinadores do vestibular da FAAP] pediram material, lápis, papel, essas coisas. No dia da prova falaram assim: “Faça um desenho exatamente com o material que a gente pediu. Não acrescente nada mais”. Era um desenho de observação. Como é que eu iria observar o lápis e desenhar ao mesmo tempo? Aí eu pensei: “Vou colocar a minha mão nesse desenho”. Desenhei a minha mão desenhando o lápis. Acrescentei alguma coisa, arrisquei. Quer dizer, poderiam ter negado a minha entrada na faculdade por causa disso. Mas eu coloquei a mão fazendo todos os objetos que eles pediram, inclusive o lápis. E só. O lápis estava na minha mão. Foi isso. O professor que fez parte da seleção me disse depois: “Olha, se você foi bem ou mal nesse vestibular, eu não sei. Só sei que todo mundo que pôs a mão lá, que foram poucos, entrou. E você é uma dessas pessoas!”. Achei superinteressante isso!

 

Beth Moysés, Almas Prematuras. Instalação realizada na cidade de São Paulo, Brasil. Março de 2003. Fotografia de Romulo Fialdini

 

Beth Moysés, Almas Prematuras (detalhe). Instalação realizada na cidade de São Paulo, Brasil. Março de 2003. Fotografia de Romulo Fialdini

 

ARTHUR MOREAU: Há algo que você tentou criar a partir de um tema mas não conseguiu?

 

BETH MOYSÉS: Olha, nada do que tentei deixei de conseguir fazer. Luto tanto… Sou muito perseverante. Por exemplo, não consegui fazer esse trabalho da terra no quarto do hotel, mas transformei a ideia inicial em outra coisa. Tanto o hotel quanto o hospital são lugares de passagem. E eu transformei um lugar de passagem em um outro lugar de passagem, mas outro tipo de passagem, uma passagem ritualizada na arte, uma passagem que transforma alguma coisa.

Almas Prematuras [de 2003], que foi uma instalação hospitalar que eu enchi com duzentos corações feitos de argila branca colocados em uma incubadora, eu estava no hospital com a minha filha doente. A minha cunhada, que é médica, estava atendendo. Ela me disse: “Não pode entrar nessa sala. É onde ficam as incubadoras”. Fiquei olhando pelo vidro enquanto ela foi examinar minha filha. Fiquei ali olhando, perto da porta, e comecei a imaginar aquilo recheado de corações. Eu queria encher com corações de verdade, mas enchi de corações de argila porque é o que foi possível fazer. Conseguir uma incubadora era a coisa mais difícil, porque você não consegue uma incubadora de dentro do hospital. Eles mandam para o lixão e desmontam tudo, porque já passaram milhões de doenças por ali. Mas consegui, de tanto batalhar e ir atrás, uma incubadora antiga. Estava escrito nela: “Incubadora para recém-nascidos”. Tirei esse escrito e troquei por: “Incubadora para almas prematuras”. Se as almas não fossem prematuras, muito provavelmente meu trabalho não existiria. Mais amor, mais solidariedade, mais respeito, mais amizade, mais troca de verdade. Faço análise duas vezes por semana e o tempo todo na análise trabalhamos a questão “acreditar no outro”. Trata-se de se desarmar e acreditar no outro. Adoraria poder acreditar no outro. Se esse planeta fosse assim, se pudéssemos acreditar nas pessoas, desarmados, se pudéssemos deixar as portas abertas, ou então não ter chave. Viver em um mundo assim, não sei se é uma fantasia, não sei se um dia a gente ainda vai ter esse mundo, mas eu quero que a gente o tenha.

 

ARTHUR MOREAU: O que você tem lido?

 

BETH MOYSÉS: Estou lendo Barthes [Roland Barthes, filósofo e semiólogo francês, 1915-1980]. Orides Fontela [poetisa brasileira, 1940-1998], que eu amo, estou sempre lendo, inclusive já usei um poema dela em meu trabalho. Adoro a Barbara Kruger [artista norte-americana, nascida em 1945]. Doris Salcedo [artista colombiana, nascida em 1958], amo demais o trabalho dela. Já li bastante sobre ela. Estou sempre remexendo nos meus livros, lendo e relendo. A Orlan [artista francesa, nascida em 1947], amo! Acho que é uma pessoa que arrisca! Vai além da conta. Não tem muito a ver com o meu trabalho, mas eu gosto muito, já li muito sobre ela. Ana Mendieta, Marina Abramović, Louise Bourgeois… São muitas referências.

A Paula Rego [artista plástica portuguesa nascida em 1935] é demais! O trabalho dela é demais. Ela trata da violência desenhando com pastel. Ela tem um domínio do desenho, da pintura, maravilhoso. É um trabalho que tem muita identidade: você olha pra ele e você vê que é totalmente dela. Isso que é bacana, não é? Você olha e identifica. Eu falava muito para os alunos isso: é melhor vocês buscarem dentro de vocês. A busca é interna. Você vai absorver mais, e vai absorver de forma diferente. Porque quanto mais maturidade você tiver, mais vai compreender e vai compreender de forma diferente. O próprio Deleuze dizia que em uma situação circular, por mais que seja repetida, a pessoa nunca faz o mesmo movimento.

 

ARTHUR MOREAU: Beth, o que você acha do trabalho da Marina Abramović?

 

BETH MOYSÉS: Acho maravilhoso, ela dá o sangue pelo trabalho. É isso que considero ser artista. Aquele que se entrega. Só tem um trabalho dela que acho que eu não conseguiria fazer, que é aquele em que ela se coloca nua e oferece o seu próprio corpo para as pessoas fazerem dele o que quiserem durante seis horas. Esse trabalho me agride demais. Eu seria capaz de tirar ela de lá, de tanto que esse trabalho me machuca. Eu não conseguiria nunca fazer aquele trabalho. Ela foi corajosa. Agora, o trabalho da cebola tem muito a ver comigo. Acho que eu comeria a cebola inteira e choraria junto com ela. O trabalho da Muralha da China, onde ela caminha para se despedir do Ulay, aquilo lá é demais pra mim! Amo, amo de paixão. E aquela performance que ela fez no MoMA, agora recentemente, que é linda! Na hora em que ela está de olhos fechados e depois abre os olhos e vê aquele cara, pelo qual ela foi apaixonada, que foi companheiro dela… Acho que foi uma coisa muito emocionante! Chorei. Fiquei tocada. A Marina tem uma força muito grande. Ela se entrega. Se colocar no batente da porta, nua, e o Ulay. As pessoas tinham que passar e escolher se ficariam de frente para ele ou para ela. É demais! Ela consegue, através da arte, mobilizar tudo. Uma coisa muito legal que ela falava, e que eu acho interessante, é que todo mundo tem que pegar um trem e seguir sem olhar para onde ele está indo. Acho que isso é que é arriscar.

 

 

PARA CITAR ESTA ENTREVISTA

MOREAU, Arthur. “Entrevista com Beth Moysés”. eRevista Performatus, Inhumas, ano 2, n. 8, jan. 2014. ISSN: 2316-8102.

 

Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy

© 2014 eRevista Performatus e o autor

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