Entrevista com Arthur Scovino

 

Arthur Scovino, Caboclo Borboleta – Pantanal I, 2015

 

Arthur Scovino

Entrevista a Davi Giordano em 12 de junho de 2018

 

DAVI GIORDANO: Nos últimos anos, você recebeu importante reconhecimento do seu trabalho, como foram os prêmios dos Salões de Artes Visuais da Bahia de diferentes cidades desse estado, a participação na 3ª Bienal da Bahia e também na 31ª Bienal de São Paulo, suas indicações ao Prêmio PIPA, sua participação na exposição internacional Softpower – Arte Brasil, na Holanda, e sua mostra individual na Galeria Solyanka VPA, em Moscou. De que forma essas conquistas estão contribuindo para o seu trabalho no contexto atual? E como você vem criando a sua história no campo artístico?

 

ARTHUR SCOVINO: Gosto de perceber a minha história no campo artístico como uma busca independente que mistura arte, ficção, experiências pessoais e relacionais. Em relação a esses acontecimentos que você citou, gosto de pensar sempre que são reconhecimentos do meu trabalho que me deixam feliz e inspirado. Tudo isso me faz refletir sobre a minha ligação com o Caboclo e sobre a base da minha pesquisa, que é observar e analisar o mundo a partir da Bahia, do homem e da mulher que nascem na América do Sul, com suas histórias e questões. Passei minha infância e adolescência em São Gonçalo, no subúrbio do estado do Rio de Janeiro. Depois, com dezenove anos, fui morar com meu pai em Copacabana. Depois, com vinte e sete anos, me mudei para Salvador. Todas essas mudanças vieram naturalmente conforme a vida foi me apresentando experiências diversas. Fui para Copacabana para fazer faculdade e trabalhar. Depois de iniciar três faculdades (História; Comunicação; e Música), resolvi me mudar para Salvador, onde já ia uma vez por ano a passeio, para estudar na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, única que completei. Em Salvador também casei, separei, trabalhei, fiz amigos e consegui encontrar meu jeito de estar no mundo e de desenvolver minha espiritualidade através da arte, das pessoas e da natureza.

 

DAVI GIORDANO: Como todas essas questões foram surgindo em sua vida pessoal?

 

ARTHUR SCOVINO: Gosto de refletir sobre memórias da infância. Eu era uma criança introspectiva que, na passagem da infância para a adolescência, gostava de observar o mundo ao ficar horas no meu quarto, pintando, colecionando reportagens e montando catálogos. Na verdade, a pintura era apenas uma das muitas coisas que eu fazia. Eu gostava de gravar fitas cassetes misturando-as com coletâneas já existentes. A pintura estava nas capas das fitas, em cascas de ovos, bambu, pedaços de madeira, objetos diversos que tivessem histórias. Aliás, o que eu menos pintava era tela. Eu não considero que nada daquela experiência solitária fosse sofrimento. Pelo contrário, era uma vontade extrema de entender e me relacionar com o mundo através da poesia. Se me comparo à criança que eu era, hoje vivo cada vez mais diferente dela, pois estou o tempo todo trabalhando em parceria, rodeado de pessoas e apresentando trabalhos que incluem o público, convidando-o para debates e participações diversas. 

 

Arthur Scovino, Nhanderudson – Numa Velocidade Estonteante, 2013

 

DAVI GIORDANOVocê desenvolve a sua pesquisa artística com base nos conceitos de ecologia e de relações afetivas, explorando dispositivos de criação e linguagens como a performance, a instalação e outras categorias da arte contemporânea, com o objetivo de desvendar os processos históricos sobre a miscigenação brasileira, os símbolos religiosos e elementos da cultura popular. Quais as motivações que foram despertando seus interesses sobre tais temas?

 

ARTHUR SCOVINO: Como muitos artistas, tenho questões autobiográficas no meu trabalho, mesmo quando falo do outro. Quando falo de um caboclo, um nativo sul-americano, penso na arte ligada às questões de origem e de família, e, por consequência, na ação de um desenvolvimento espiritual. Minha primeira inspiração é a arte barroca, tudo que vi na igreja católica e também na minha própria casa, mas sempre misturada com algumas coisas da umbanda. Posso descrever isso através da seguinte imagem: um disco de Martinho da Vila tocando Festa de Caboclo numa vitrola, em cima de uma estante, ao lado de um relógio carrilhão, que toca Ave-Maria de Schubert às dezoito horas, tendo também ao seu lado uma imagem de Nossa Sra. da Conceição. Esse era um cenário típico da minha casa da infância, que eu inclusive cheguei a recriar através de uma instalação chamada Casa de Caboclo, que fiz para a 31ª Bienal de São Paulo em 2014. Minha família não tinha uma tradição forte de umbanda, contudo, eu morava em São Gonçalo, região metropolitana do Rio onde essa religião surgiu. É muito comum lá você ouvir alguém exclamar: “Êh, êh”, “hum, hum”, que é um som típico de preto velho. Depois, morando em Salvador, vi que as famílias católicas também se apropriam de símbolos tradicionais do Candomblé. Sempre vi isso tudo como um um misto de beleza e estranhamento. Hoje, por exemplo, quando estudo a história da Independência da Bahia, reflito em que medidas um baiano pode ser o oposto de alguém que nasce na região sul e sudeste do país. Talvez se eu tivesse seguido o curso de História, que foi a minha primeira faculdade, eu estaria escrevendo artigos sobre isso. Só que hoje eu faço isso através das minhas obras, com a criação de imagens e experiências. Todo meu trabalho busca falar dessa terra aqui: a América do Sul, a mistura de tantas culturas, de pensar o que fazer em relação à nossa existência depois de tanta injustiça que até hoje nos assombra. Falamos sempre da mistura dos povos de forma trágica ou bela. Optei por buscar um equilíbrio diante disso. Fico transitando entre essas formas dando meu depoimento e buscando o do outro nos trabalhos que faço.

 

Arthur Scovino 3

Arthur Scovino, QuiZera. Performance realizada na cidade de Salvador, Brasil. Maio de 2014. Fotografia de Alfredo Mascarenhas

 

DAVI GIORDANO: Algumas de suas obras, como Nhanderudson – Num Ponto Equidistante Entre o Atlântico e o PacíficoCaboclo Meio-Dia, Aperreável n. 3, Sessão Nudes a Fio, Performances para Borboletas, provocam a sensação de que você utiliza os elementos religiosos e naturais em sintonia com os rituais, e o erotismo, com o objetivo de trazer uma oferenda para o seu público. É como se, através de sua arte, você nos proporcionasse uma experiência extracotidiana para acessar esta sensação de habitar o mundo, de estar presente no aqui e no agora. Quais são os elementos mais importantes que você considera marcarem a estética e a poética do seu trabalho?

 

ARTHUR SCOVINO: Em minha visão, arte e erotismo vêm do mesmo lugar, que também é espiritual. Erotismo pelo sentido de tradução estética da energia sexual que, pra mim, é o início da conexão com o Divino. Acho que, para traduzir esse pensamento, sou um pouco exagerado, gosto do que é popular e um pouquinho caótico. Mais do que a questão da marca visual, eu tenho uma vontade de me aproximar da liberdade e da linguagem experimental. Por exemplo, tanto a religiosidade quanto a sexualidade são inspirações para a minha criação. A performance me permite entrar de fato nesse desejo de experimentar essas coisas com liberdade. É bom poder construir um trabalho diante das pessoas e poder conversar sobre isso no meio do processo. Sempre quis ritualizar a vida para que tudo tivesse uma representação importante, como fazem as religiões. Destacar pequenas coisas, guardar e expor relíquias, dividir experiências, acho que são esses alguns dos elementos que marcam minha poética.

 

Arthur Scovino, Aperreável n. 3. Performance realizada na cidade de Ouro Preto, Brasil. Outubro de 2017. Fotografia de Arthur Medrado

 

DAVI GIORDANO: Uma das suas obras que considero mais interessante é Levando os Elepês de Gal Para Passear. Com essa obra você performa um trânsito entre tempos, interfaces digitais, relação entre a música e a cidade, e, além de tudo, presta homenagem a uma das artistas mais importantes da música popular brasileira. Você criou algumas variações sobre esse trabalho. Seria interessante que falasse como foram essas experiências e de que forma elas foram recebidas pelos diferentes públicos.

 

ARTHUR SCOVINO: Em 2011, enquanto estava na faculdade, concebi um processo de criação pedindo a colaboração de pessoas para que me enviassem uma foto de algum lugar possível onde eu pudesse levar os elepês de Gal para passear. Fiz essa ação diariamente por sete meses, em 2011, procurando evidenciar os artistas visuais importantes da tropicália que fizeram as capas dos discos de Gal, como Hélio Oiticica, Dicinho, Edinízio Primo, Wally Salomão, Rogério Duarte, dentre outros. Havia a participação das pessoas na construção do trabalho, o que gerou, por consequência, diversas conversas sobre Gal Costa. Gosto muito desse trabalho justamente por isso. Enquanto isso, na academia, prosseguia minha pesquisa sobre os artistas da tropicália, enquanto algumas pessoas me diziam: “Você está fazendo arte relacional.”. Nisso, uma amiga me deu o livro Estética Relacional do Nicolas Bourriaud. Foi estudando performance que comecei a entender que essa era uma das modalidades do meu trabalho. Levando os Elepês de Gal Para Passear é um processo que não vai terminar.

 

Arthur Scovino, Levando os Elepês de Gal Para Passear. Performance realizada na cidade de Moscou, Rússia. Junho de 2016. Fotografia de Rafal Aksnowicz

 

DAVI GIORDANO: Com isso, a linguagem da performance foi provocando novos direcionamentos no seu trabalho? Quais foram as principais referências que trouxeram mobilização para as práticas do seu repertório artístico?

 

ARTHUR SCOVINO: A performance foi a maneira mais intensa que encontrei para compartilhar essas histórias dialogando com a arte contemporânea. A arte da performance me questiona o tempo todo. Posso dizer que minha inspiração está nos artistas dos anos 1960 e 1970, que prezavam pela liberdade e pela experimentação, como Hélio Oiticica e Lygia Clark. Tudo o que venho fazendo segue na busca por despertar relação com as outras pessoas. A performance é o ritual para celebrar isso.

 

DAVI GIORDANO: Você criou uma série de performances que tratam da figura do Caboclo, que é uma das principais entidades da umbanda. Isso aparece em alguns dos seus trabalhos, como: Caboclo dos Aflitos, Caboclo Pena Rosa, Caboclo Samambaia, Caboclo Borboleta, Oráculo Caboclo. Essa imagem iconográfica do Caboclo está relacionada a alguma forma de espiritualidade ou religião que você pratica em sua vida pessoal? Por que essa figura recebe tamanha importância em seu trabalho artístico? Como são trabalhados nessas obras os procedimentos entre ritual, sensualidade, superstição, dicotomia sagrado-profano, o tangível e o intangível?

 

ARTHUR SCOVINO: Sempre me relacionei com a ideia de Caboclo como uma palavra chave através da qual eu pudesse falar sobre tudo: cultura popular, brasileira e sul-americana. Poderia falar também sobre história, sexualidade, religião e sincretismo. A palavra “Caboclo” é muito ampla e pode trazer muitas ideias opostas em uma mesma dimensão, como: injustiça, equívoco, força e beleza. O Caboclo é o meu guia de conexão com o mundo. É o mestiço brasileiro, a entidade da umbanda, minha família, meus amigos e todo mundo. É também uma alegoria que representa o herói que lutou na Guerra da Independência da Bahia. Com o tempo fui vivenciando algumas aparições do Caboclo, que trouxeram encantamento e se misturaram com questões pessoais. Não estou falando de religião, mas da conexão com a espiritualidade que optei por acessar através da arte. Por isso fui transformando algumas vivências em imagens, ações e narrativas. Posso trazer como exemplo a série que intitulei Caboclo Borboleta, a qual contempla múltiplos trabalhos de diversas linguagens, como o vídeo, a performance, a fotografia e o desenho. Na 31ª Bienal de São Paulo, criei uma instalação onde eu mostrava algumas fotos da minha relação com as lagartas e borboletas no meu quintal em Salvador. Quando eu trabalho com a figura do Caboclo, sempre tem uma licença poética. Sinto-me prestando uma homenagem a algo que sempre foi uma forte inspiração em minha vida. Minha vida e meu trabalho têm sido guiados por esses Caboclos, em sua diversidade e força. Inclusive estou abrindo minha nova exposição no Centro Cultural Casa da Luzem São Paulo, onde faço residência em homenagem ao Caboclo.

 

Arthur Scovino, Caboclo Meio-Dia, 2015. Fotografia de Fabio Motta

 

DAVI GIORDANO: Aproveitando a oportunidade, seria interessante que falasse um pouco sobre a sua recente exposição na Casa da Luz em São Paulo.

 

ARTHUR SCOVINO: Essa exposição tem algo diferente, pois é a primeira vez que estou fazendo tudo de forma independente, sem ter recebido o convite de um curador, instituição ou galeria. A Casa da Luz é um espaço alternativo até mesmo na relação que estabeleço como artista residente. É um lugar interessante para fazer o que chamei de uma homenagem ao Caboclo, falando algo mais pessoal, apresentando ligações de ancestralidade através de um trabalho feito em colaboração com meu pai. Ele bordou um desenho meu, como já havia feito em 2014 na Bienal da Bahia, e montou uma estrutura com fuxico num formato que desenhei. Sempre apresentei alguma peça do meu pai em minhas instalações como forma de ativar um pensamento de ancestralidade e família. Meu pai faz fuxico e bordado desde que eu era criança e é um trabalho que não comercializa. Ele faz as peças para sua própria casa ou para presentear parentes. Isso é o que entendi primeiro como relação entre arte e vida. Essa peça tem o título da exposição, Um Caboclo, e pretendo iniciar uma série a partir dela. Tem também obras que sinalizam minhas pesquisas realizadas na Bahia e no Mato Grosso, que resultaram agora em uma performance que apresento diariamente às 18h até o final da exposição. O público pode conferir fotografias, objetos, desenhos, esculturas, vídeos e performances que eu relaciono com o espaço e as marcas do tempo nas paredes da Casa da Luz, procurando evidenciar também sua história como um prédio importante no centro de São Paulo, que já viveu o luxo, a decadência e agora se estabelece como um lugar importante na cena independente e cultural da cidade. 

 

Arthur Scovino, Um Caboclo, 2018. Instalação, dimensões variadas. Fotografia de Carlo Zuffellato

 

DAVI GIORDANOQuais trabalhos você vem desenvolvendo atualmente e que projetos ainda não realizados pretende lançar nos próximos ciclos de sua carreira? Por qual rito de passagem você vem passando agora?

 

ARTHUR SCOVINO: Posso comentar sobre o filme Conexão Caboclo: A Ponte, que acabou de ser lançado junto com minha exposição da Casa da Luz. Realizei esse filme ano passado com o fotógrafo Thiago Borba, tendo editado agora com o artista Gabriel Pessoto, quem também está me auxiliando na montagem dessa exposição. Esse filme de dezessete minutos é o primeiro de uma série, que vem de um desejo antigo de estabelecer parcerias com outras pessoas, não necessariamente artistas. O segundo, que ainda está em processo de edição, fiz em Minas Gerais com uma amiga de Salvador que trabalha como securitária. Há outros projetos na gaveta como Nudes a Fio, que parte de uma oficina de desenho com modelo vivo, onde subverto os métodos tradicionais. Tenho feito esse trabalho há alguns anos em sessões individuais e também em dinâmicas de grupo.

 

 

PARA CITAR ESTA PUBLICAÇÃO

GIORDANO, Davi. “Entrevista com Arthur Scovino”. eRevista Performatus, Inhumas, ano 7, n. 20, abr. 2019. ISSN: 2316-8102.

 

Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy

Edição de Paulo Aureliano da Mata

© 2019 eRevista Performatus e o autor

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