Transgenealogia: Diário de Residência Artística

 

Eu tenho consciência da importância das micropolíticas pelas quais meu corpo passa, sei também que para mim a militância é bem mais uma ferramenta de sobrevivência do que uma opção. Mas me pergunto, por que me veem muito menos complexa do que quando eu era homem? Por que é cobrado de mim essa necessidade de ser sempre um corpo político? Pessoas trans não têm direito à subjetividade?

— Agrippina R. Manhattan

 

14 de fevereiro de 2018

(Daqui cinco dias abre a residência artística na Galeria Península em Porto Alegre.)

A realidade me lembra a todo momento quem sou, que lugar eu ocupo, e como a sociedade me trata e retrata. A todo momento eu percebo uma vida no garimpo. Garimpando banheiros, nomes, amigos, oportunidades e amores. Todos os meus momentos de alegria comprovam a tese de Schopenhauer, de que parte da vida é sofrimento, e de nada adianta nos livrarmos dele, logo um novo vem rápido ocupar o lugar do velho, ofuscando os momentos felizes. Não me lembro de nenhum instante em que eu tenha sido plenamente feliz sem que houvesse alguma preocupação, alguma recusa por parte de alguém, um desconforto com o lugar. Nenhum espaço de tempo em que meus rompantes de alegria momentânea não tivessem causado um furor nos outros. Mamãe não deixava que eu me exaltasse muito, e aconselhava discrição nos eventos familiares. Lembro dela brava porque eu cantava para meu avô paterno que me considerava um prodígio, mesmo que todos os outros primos soubessem que eu era um fracasso como cantora. Eu era muito pequena; não lembro se sua raiva era por mim, ou pelos outros. Mas eu lembro que nada foi fácil, assim como todas as estórias. Os problemas sempre foram, para tod@s nós, problemas que vão desde o banheiro até às relações afetivas mais complexas, envolvendo amores e família. Tudo parece deslocado, fora do lugar, uma roupa mal costurada, cuja manga apertada impede de esticar os braços para o mundo. Vivemos retraíd@s.

 

Vista da Galeria Península durante a residência artística. Arquivo pessoal da artista

 

Nossa realidade divide o dia e a noite como o abismo entre o sol e a lua, tudo muda ao cair das estrelas, possibilidades são descortinadas, violências, sexo, drogas, amores, e tudo o que o dia privou de desejar e ter. Travestis circulam pelas calçadas esperando uma abordagem qualquer que lhes garanta “algum”. Garanta alguma dignidade em meio à total falta dela. Ser travesti, ser transexual, é ser ambíguo, é conviver em todos os níveis com a ambiguidade de uma existência pautada por dois mundos distintos que coexistem, lutam um contra o outro, e onde não há perdedores ou vencedores. É como Sísifo empurrando em vão sua pedra ladeira acima, para que ela volte sempre a rolar ladeira a baixo.

 

Como Falar Sobre Tudo Isso?

 

19 de fevereiro de 2018 

(A residência artística abre hoje.)

Abro a galeria às 14h e logo chegam pessoas para visitar a exposição que está montada para o período de cinco dias que estarei lá. Para minha surpresa, nesse primeiro dia de atividades recebo a visita de uma travesti (manteremos o nome dela em sigilo por respeito ao seu momento original de relato, sendo aqui apenas uma reprodução), que iniciou seu processo de transformação a pouco mais de dois anos. Ela divide, com todos os que estão presentes durante a apresentação do trabalho da artista visual carioca Lyz Parayzo, sua vivência, suas dificuldades, e sua visão bastante consciente de toda a realidade que cerca a nós transexuais ou não-binários. Formada em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, seu relato é pautado pelas dificuldades diárias a que todas nós estamos sujeitas: dificuldade no acesso à saúde e a banheiros; metralhadora de olhares por todos os locais que frequentamos; a aceitação difícil dos pais; e o processo de hormonização que se iniciou tarde para ela, agora com 37 anos. O relato dessa mulher travesti ilustra todo o discurso teórico que antecedeu. Ela ilustra minha fala com suas próprias experiências, e compartilha corajosamente com uma plateia formada de diferentes pessoas e gêneros e raças de diversos recortes, seus desafios e conquistas enquanto mulher travesti. Ter a possibilidade de contar a si mesma, falar de si mesma, sobre si, para si e para os outros, em um espaço acolhedor, é o que pretendo com essa residência ao longo do tempo em que ela ainda vai acontecer. Pois é só a partir dos discursos del@s que toda minha pesquisa se volta, e pode ser possível.

 

Vista parcial da obra: Livro Subvertido: Menino Brinca de Boneca?, 2015-2017. Arquivo pessoal da artista

 

Assumir-se travesti no país que mais mata transexuais e travestis no mundo é um ato corajosamente político. Um gesto que vai para além da formação de uma identidade própria, extrapolando os limites do público e do privado. Ser travesti e assumir-se travesti é ter a atitude de não desculpar-se com a sociedade escolhendo um outro rótulo menos estigmatizado, higienizado, é devolver, aos olhos que nos fuzilam, um gesto corajoso de resistência e luta pela existência de um corpo que foge à regra cisheteronormativa, um corpo marcado pelos tabus da prostituição e da precariedade, um corpo e uma identidade marginalizada que grita sem ser ouvida e que muitas vezes é violentamente silenciada em seu direito de existir no mundo de forma digna e com todos os direitos e deveres reconhecidos. Nesse gesto está contido a luta por todos os corpos, por todas as raças, pois não há hoje na sociedade pessoas que sejam mais marginalizadas, violentadas, incompreendidas e não aceitas, do que as travestis e transexuais. O ato dessa mulher travesti de 37 anos, que iniciou tardiamente seu processo de transformação, pode mostrar ao público presente que não há tempo consumido, nem que é tarde para lutar por quem verdadeiramente sente que se é. Encerramos o primeiro dia de residência com uma mensagem bastante positiva de que a mulher travesti, de que o corpo travesti, não causa qualquer dano ou perigo à sociedade, como pensam muitos. Afirma-se que o corpo travesti é um corpo humano, um corpo a seu modo, de uma pessoa com sua identidade singular que merece ser respeitada e recebida como todas as outras. Trata-se de uma pessoa que estuda, que sofre, que paga contas, que vai ao mercado, espia o bolo no forno e sonha com um mundo melhor para tod@s.

A conclusão, o que nos possibilitou alargar nossa fala sobre o assunto, não foi somente uma investigação teórica distanciada do sujeito, mas também manifestou-se como prática do sujeito, através desse rico e empoderado relato em primeira pessoa. Tal conclusão não se dá pela investigação de uma cobaia para uma pesquisa, mas por vontade e impulso próprio, em um espaço compartilhado, dando-se em uma fala a seu modo sobre tudo isso. É preciso falar sobre travestis e transexualidade a partir de uma óptica do sujeito, dando a essas pessoas a possibilidade de representar-se e apresentar-se aos outros como sentem e verdadeiramente são. Só desse modo podemos falar sobre tudo isso, dando a el@s a possibilidade para que falem sobre si mesmas.

 

Os 22 Fatos

 

20 de fevereiro de 2018

1) A expectativa de vida de uma travesti é de 35 anos de idade;

2) De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), apenas em 2017 foram contabilizados 179 assassinatos de travestis ou transexuais. A cada 48 horas, uma pessoa trans é assassinada no Brasil;

3) Em 94% dos casos, os assassinatos foram contra pessoas do gênero feminino;

4) O Nordeste é a região que concentra o maior número de mortes;

5) Depois estão o Sudeste, com 57 vítimas; o Norte e Sul, com dezenove cada; e o Centro-Oeste, com quinze;

6) Minas Gerais é o estado que mais mata a população trans. Em 2017, vinte pessoas trans foram mortas;

7) Na Bahia, foram dezessete no total;

8) Em São Paulo, dezesseis, mesmo número do Ceará;

9) No Rio de Janeiro, quatorze vítimas;

10) Pernambuco, Alagoas, Espírito Santo e Tocantins registraram sete mortes cada um;

11) Mato Grosso, seis;

12) Cinco pessoas trans foram assassinadas no Amazonas, Goiás, Rio Grande do Sul e também em Santa Catarina;

13) No Tocantins foram três;

14) Já no Distrito Federal, Maranhão, Mato Grosso do Sul e Sergipe somam duas mortes cada;

15) Uma morte ocorreu no Acre, Amapá, Piauí, Rio Grande do Norte e Roraima;

16) De 111, 67,9% tinham entre 16 e 29 anos;

17) Com idade entre os 30 e 39 anos representam 23% do total;

18) Entre 40 e 49 anos, 7,3%;

19) Maiores de 50 anos, 1,8%;

20) Em sete casos não foi possível identificar o instrumento utilizado no assassinato;

21) 85% dos casos de assassinatos apresentam requintes de crueldade, como uso excessivo de violência, esquartejamentos, afogamentos e outras formas brutais de agressão;

22) 445 pessoas da comunidade LGBTQQIA+ foram mortas por crime de homofobia em 2017, aponta o Grupo Gay da Bahia (GGB).

 

Elle de Bernardini 5

 

O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, sendo que o segundo, o México, mata quatro vezes menos. Em levantamento feito pela ONG Transgender Europe (TGEu), o Brasil matou ao menos 868 travestis e transexuais nos últimos oito anos. Em 2014, um pai espancou até a morte uma criança de oito anos para ensiná-la “a ser homem”. Um garoto de treze anos, de Araraquara (SP), foi encontrado morto com quinze facadas pelo corpo, vítima de exploração sexual. Em 2010, em Maceió, uma menina de quatorze anos foi alvejada com onze tiros. Entre os motivos apontados pelas diferentes pesquisas para o grande número de mortes no Brasil estão a alta vulnerabilidade de travestis na prostituição, a falha do Estado em investigar e prevenir os crimes, e os grandes níveis de violência no contexto histórico do colonialismo, escravidão e ditaduras.

 

PRECISAM PARAR DE NOS MATAR

PRECISAMOS PARAR DE MORRER

PRECISAMOS TER DIREITO À VIDA

PRECISAMOS TER DIREITO À ARTE

 

Somos Almas Siliconadas Poderosas

 

21 de fevereiro de 2018

“Cuerpos para odiar”, afirma a escritora travesti chilena Claudia Rodríguez, abaixo de um desenho seu onde o pênis, os peitos e o rosto feminino aparecem em contraste, ao final de seu livro Manifesto Horrorista e Outros Escritos, publicado pela Vento Norte Cartonero no Brasil em 2016. Somos corpos horrorosos, corpos abjetos, marginalizados, corpos que não servem para o dia, para o trabalho. Corpos que só servem para a precariedade, para a sujeira, para realizar desejos insanos e violentos. Nossos corpos tão fetichizados são desejados e odiados, são campos de batalha onde nós traçamos com faca nossa identidade; tirando alguma coisa ali ou injetando um silicone industrial aqui, nunca estarão acabados, nunca ficarão perfeitos, mas são corpos, são nossos corpos, são corpos humanos, corpos de sujeitos. A todo instante um mundo inteiro é negado a nós; seria ingenuidade pensar que nosso maior problema está no acesso ao banheiro ou no reconhecimento do nome. Existe todo um mundo de oportunidades, de lugares que nunca estiveram e permanecem não estando acessíveis a nós, porque nossos corpos feitos para odiar não podem habitá-los. A nós é negado o direito à vida a cada minuto que passa. Cunhamos termos para todo nosso universo particular, oferecendo constantes explicações sobre o que somos: Passibilidade: capacidade de passar socialmente de dia de acordo com o gênero que se identifica sem ser reconhecido como trans; Identidade de Gênero: como nos percebemos dentro do espectro que vai do masculino ao feminino; Transfake: pessoas cisgênero (cujo gênero corresponde ao designado no nascimento devido ao sexo) interpretando papéis de vida de pessoas trans no cinema ou no teatro; Representatividade Trans: abrir uma revista, um jornal, ver uma propaganda e encontrar, nesses espaços, pelo menos uma pessoa trans. Estamos lutando para ocupar os lugares, e precisamos sempre dar uma explicação sobre nós mesmas em troca. Sinto como se estivéssemos o tempo todo debatendo quem somos, tendo de dar maiores explicações sobre quem somos, sendo que nem sempre sabemos ao certo. Sinto-me presa à condição de pedagoga de gênero, explicando ao outro, que vem ter qualquer interação comigo, a diferença de sexo e gênero, para que essa pessoa possa me ver de outro modo menos estranho e hostil. Somos aqueles que precisam sempre explicar quem somos ao próximo. E é assim que tem sido desde sempre, sabemos que no fundo tais explicações não esgotam a questão, que as respostas oferecidas são demasiadamente simples para expor uma existência cujo gênero, por um motivo qualquer, não se identificou com o sexo, mas ainda assim elas são o que possuímos como escudo contra a cisheteronormatividade compulsória. Nosso corpo sempre foi visto como esse não lugar onde não aconteceram estórias, no qual ninguém tocou, corpos que ninguém amou, que ninguém revelou, a menos que eles falem e discursem sobre si, subjetivem-se para os outros, e revelem essa ALMA SILICONADA PODEROSA que ele é.

 

Vista parcial de corpo coberto de ouro para a performance Dance With Me. Fotografia de Filipe Conde

 

O Mito

 

22 de fevereiro de 2018

A travestilidade na história da arte está escrita sob à alcunha da androginia desde o faraó egípcio, Akhenaton, marido de Nefertiti, que se utilizou conscientemente dos elementos andróginos como estratégia de poder. Ele representava a si mesmo como um ser de gênero indefinido para distanciar-se das pessoas comuns e aproximar-se de Hórus, o deus sol que tanto venerava. Quando voltamos a olhar para as imagens desse faraó e de sua esposa sob os raios de sol que os ilumina, a diferença entre um e outro aparentemente e anatomicamente são quase imperceptíveis. A história da arte já provou como os egípcios se utilizaram da própria arte a serviço do poder da figura do faraó.

Mais tarde, na Grécia antiga, surge a figura mitológica do ser andrógino, denominado por Platão, em O Banquete, como um ser proto-humano, cujo feminino colou-se ao masculino. Segundo o mito descrito por Aristófanes no livro O Comediógrafo, haviam antes três criaturas: Andros, Gynos e Androgynos. Andros era uma entidade masculina composta de oito membros e duas cabeças, ambas masculinas; Gynos, uma entidade feminina mas com características semelhantes; e, por fim, Androgynos, composto por uma metade masculina e outra metade feminina. Os Androgynos não agradavam os deuses, que viam seu poder ameaçado. Resolveram separá-los/dividi-los em duas partes, para que se tornassem menos poderosos. Eis talvez a possibilidade de uma leitura da origem do mito nas práticas de controle dos corpos que ameaçam o poder estabelecido.

Ainda segundo Aristófanes, o mito oferece também uma explicação sobre o surgimento de homossexuais, heterossexuais e lésbicas. Quando Andros foi dividido, originaram-se dois homens, que agora tinham seus corpos separados, mas suas almas ligadas, e por isso ainda eram atraídos um pelo outro. O mesmo teria ocorrido com as outras duas criaturas, Gynos e Androgynos. Andros deu origem aos homens homossexuais, Gynos às lésbicas e Androgynos aos heterossexuais. Séculos mais tarde, o que parecia parte integrante da vida, um processo natural pelo qual se deu a existência das pessoas, torna-se, como advento da modernidade e dos discursos e laudos médicos, uma doença chamada disforia de gênero, que supostamente acometeria alguém que não se identifica com o sexo (genitália) de nascença. Tal doença, como todas as outras, prescreve uma cura, e, nesse caso, a cura é a cirurgia de redesignação sexual. Esse talvez seja o maior de todos os estigmas que nós transexuais e travestis carregamos, o estigma de pessoas doentes, de pessoas que não estão bem, que apresentam algo errado em si mesmas. Na verdade, porém, o que sentimos deveria bastar, a liberdade de nossas escolhas deveria ser respeitada e, de uma vez por todas, é urgente que compreendam que ser homem e ser mulher não é algo biológico como nascer com pênis ou vagina, mas, assim como ocorre à ciência, à religião, à linguagem, o gênero é, da mesma forma que os casos mencionados acima, uma convenção, invenção, paradigma, que pode e deve ser (res)significado, (re)pensado, e ter sua compreensão profundamente alargada, para que pessoas como eu, como minhas semelhantes, parem de morrer, de ser brutalmente assassinad@s por uma escolha que nem é escolha, por uma culpa que não é culpa e não pertence a ninguém, por motivos que não justificam os fins, nem jamais serão suficientes e necessários para explicar os meios. Digamos não à perda brutal de nossos anos, ao esfacelar de nossos sonhos, e ao roubo diário de nossas vidas.

 

Dança Comigo

 

23 de fevereiro de 2018

 

Porque nos dizem que temos que nos contentar com pouco. Se me tratam no feminino devo ficar agradecida, se não erram meu nome tenho que dar pulos de alegria. É como se toda forma civilizada de relação fosse um luxo para mim. Nas relações afetivas, se um homem demostra atenção por mim devo ficar agradecida. Isso porque os homens se sentem bondosos quando me chamam para ir ao motel. Afinal, como alguém tão abjeto como eu poderia negar uma chance de ter afeto? Porque eu não sou Agrippina, eles não se interessam por mim, não alcanço sequer a categoria de ser humano. Para eles eu sou uma entidade que está aqui para servi-los e devo ficar grata porque fui escolhida.

— Agrippina R. Manhattan

 

A sensação que constantemente povoa meu peito e perturba minha mente é o medo de estar sempre só. Conversando com outr@s, pude perceber que o mesmo medo as povoava também. Como corpos vistos pela sociedade de modo indesejado, ou disponível somente para ocasiões muito particulares, a possibilidade de que o amor, o romance e a paixão surja na vida da gente é muito remota. Os casos relatados pelas travestis são, em sua maioria, “vícios”, aqueles clientes que elas não cobram mais pois desenvolveram um certo afeto ou se apaixonaram mesmo por eles. Mas da pista para uma vida juntos, os relatos são quase inexistentes. Passo o tempo todo a me perguntar se o maior preço que estou sendo obrigada a pagar por não performar um gênero que corresponda ao meu sexo de nascimento, é a privação de uma vida amorosa/afetiva. Nos outros campos parece que há brechas, corredores estreitos, alguns buracos, por onde se infiltrar e obter algum êxito, mas nesse aspecto da vida não existem atalhos. Quando dois corpos se encontram, quando olhos se fitam, ou eles vivem o que há para viver dessa estória a dois, ou um deles sempre termina por fugir dela, como se envolver-se com uma pessoa transexual fosse uma morte social.

Não preciso nem citar os inúmeros homens que entram em contato com travestis e transexuais e não-binários pedindo encontros escondidos. Há sempre uma condição, um “mas”, por trás de toda interação afetiva entre uma pessoa trans e outra cis; esse “mas” é o sigilo. Ninguém pode ficar sabendo! É difícil às vezes ter de repetir o mantra de que não há nada de errado comigo, e também não fiz nada de errado para precisar me esconder ou sair escondida com alguém. É doloroso ter de explicar minha condição, dar esboços do que sou, descrever-me, para não ser vista como um ser de outro mundo, para daí conseguir uma miséria de afeto, uma migalha de carinho, ou um pouco de prazer.

 

Minha vida toda foi espera de uma tarde de verão longa que insistia em não findar. Hoje parece que minha vida foi uma desculpa, uma tentativa frustrada de conforto, uma mendicância de amor.

 

Quando me propus a fazer a performance Dance With Me, no encerramento da residência, eu queria possibilitar, dentro da minha pesquisa, com os mecanismos de aceitação de um corpo, de um sujeito pela sociedade, como já venho desenvolvendo em outros trabalhos, um desdobramento para um contato mais próximo com o outro, de preferência cis. Deste modo, não estaria ali vestida, ou coberta de ouro para ser vista somente, mas estaria ali coberta de ouro, inteiramente presente, pedindo aos que viessem me ver que me tirassem para dançar, que trocassem esse momento de afeto e carinho comigo, que tocassem meu corpo trans desnudo e dele levassem em seus corpos o metal mais precioso que temos na terra, ouro. Dance With Me tem como proposta mostrar que não há o que temer, não há sujeira, precariedade, desumanidade em um corpo trans, pelo contrário, há beleza também, há riqueza também, e ele pode fazer e se transformar em algo belo. Com esse convite à dança, ao dançar comigo, nua e coberta de ouro, esse convite para conhecer de perto, tocar, se perguntar, entender e aceitar, eu terminei a residência. Para mim a mensagem positiva de tudo isso é a de que podemos. Sim! Nós podemos.

 

Durante a performance Dance With Me, encerramento da residência no dia 23 de fevereiro de 2018. Fotografia de Filipe Conde

 

 

PARA CITAR ESTA PUBLICAÇÃO

BERNARDINI, Élle de. “Transgenealogia: Diário de Residência Artística”. eRevista Performatus, Inhumas, ano 7, n. 20, fev. 2019. ISSN: 2316-8102.

 

Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy

Edição de Paulo Aureliano da Mata

© 2019 eRevista Performatus e a autora

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