Transbordação

 

Um paredão de mulheres lado a lado, de pé, vestindo calças, inspiram e expiram em uníssono até transbordarem no tempo de cada corpo. Um ato ao mesmo tempo íntimo, individual e coletivo.

 

Dora Smék, Transbordação. Performance realizada no evento Per-forma – Biopolíticas: Formas de (Re)Existir do Sesc Bom Retiro na cidade de São Paulo, Brasil. Setembro de 2016. Fotografia de Paul Setúbal

 

Ao longo da vida em sociedade, somos condicionados a diferentes tipos de comportamentos e condutas que nos constitui como indivíduos sociais. Tais condicionamentos, que acarretam uma série de embates ideológicos, políticos, econômicos e sociais, instituem expectativas de conduta da vida em sociedade. Moldes ou modelos de comportamento habitam diversas camadas do corpo, seja de forma consciente ou inconsciente.

Nas etapas do desenvolvimento humano, a capacidade de controlar as necessidades fisiológicas é um dos primeiros indícios de autocontrole do corpo. No desenvolvimento da criança, a capacidade de controlar os esfíncteres do corpo estabelece um dos primeiros traços de independência em relação aos pais, envolvendo a sua própria consciência dos modelos de conduta no convívio social. Juntamente com o autocontrole fisiológico e a identificação do local adequado para tais necessidades (banheiro), também se instaura a distinção social entre público e privado.

Todos que adquirem essa capacidade na vida adulta, carregam memórias corporais desse período de transição em que as fronteiras entre público e privado ainda estão borradas. Transbordação acessa tais memórias de transição de uma primeira autonomia do indivíduo, expressa na capacidade de discernimento sobre o que é adequado ou inadequado em determinado contexto.

Uma vez que o corpo adulto já está condicionado a controlar o momento adequado de urinar, Transbordação propõe uma inversão: desautomatizar os processos adestrados do corpo como possibilidade de “controlar o descontrole”. Esse deslocamento acessa inevitavelmente uma gama considerável de embates internos, que a partir do ato intencional de urinar nas calças em público, se expande para toda uma rede complexa de condicionamentos incorporados ao longo da vida, como as próprias noções dicotômicas que fundamentam o conceito de adequação ou inadequação.

O descontrole fisiológico do corpo nos remete a situações de fragilidade presentes tanto na infância, em que estamos adquirindo habilidades de autocontrole, como também na idade avançada, em que tais controles adquiridos começam a falhar. Encarar o descontrole nos coloca em contato direto com a vulnerabilidade acentuada do corpo nas fases extremas da vida.

A macro sociedade contemporânea com seus excessivos mecanismos midiáticos e de controle, tão distantes da dimensão humana em seus meios de ação e produção, tem como contraponto uma crescente necessidade de se voltar para o corpo como retomada de micropolíticas necessárias à vida. As necessidades de reconexão com o próprio corpo, e com o corpo do outro, acabam conduzindo os interesses que unem mulheres dispostas a transbordar em coletivo.

A ação, quando proposta, passa a existir desde o momento da divulgação da convocatória pública, com a atitude de inscrição das interessadas, em que cada uma se conecta diretamente com a proposição, e segue nos encontros de preparação. No dia da ação a concentração se estrutura em exercícios de conexão e aterramento, explorando a capacidade de aprofundar questões pulsantes nas esferas íntima, individual e coletiva em cada corpo. Além dessas três esferas e tantas outras, estão presentes as reações e negociações com todos os corpos que performam em relação direta com o público, além de todas as imprevisibilidades incalculáveis durante a ação.

Transbordação se dilata em diversas camadas, acessa níveis micropolíticos e se expande em um paredão de corpos autoproclamados como femininos, atravessados pelas complexidades do presente.

 

Junho de 2017

 

Dora Smék, Fernanda, da série Transborda, 2015

 

 

PARA CITAR ESTE TEXTO

SMÉK, Dora. “Transbordação”. eRevista Performatus, Inhumas, ano 5, n. 18, jul. 2017. ISSN: 2316-8102.

 

Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy

© 2017 eRevista Performatus e a autora

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