A Breve História de um Homem entre o Ralo e o Litoral

 

It’s the same old S.O.S

But with brand new broken fortunes

And once again I turn to you

Once again I do I turn to you

Morrissey [1]

 

Renan Marcondes, A Breve História de um Homem entre o Ralo e o Litoral, 2017. Fotografia de Mariana Teixeira

 

O nome desse texto é também o nome de um trabalho que finalizo enquanto o escrevo. Nele, finas ripas de cedro rosa são unidas por imãs dourados de neodímio. Nos pontos de junção pela força de atração do imã, tufos de cabelo humano interferem na suposta limpeza e linearidade do trabalho. As ripas são suspensas formando uma diagonal no espaço, dispostas na altura média do sexo do público (aproximadamente 1 metro do chão). A relação de olhar não se finda apenas no objeto, mas no possível alcance do olhar para o sexo de outra pessoa que observa a obra do outro lado da sala. Obra-cruising que busca êxtase formal no meio do ralo e que, novamente, me coloca de frente a todas as coisas que eu já sei mas que não consigo nomear.

 

a gravidade é a melhor performer.

 

Penso que o processo de construção de uma obra artística é um processo inevitável de se encontrar consigo mesmo nos lugares mais inesperados. Em tempos da necessidade de um (suposto) engajamento social da arte, pode parecer fora do tempo falar de uma obra que, quase sempre, se volte para o artista como um reflexo indesejado de seu próprio mundo. Mas quanto mais dedico meu tempo para produzir formas a partir de determinadas questões, mais abro os olhos para o fato de que existem formações silenciosas que se repetem, materialidades que não escapam, articulações que possuem limites de alongamento. Quando se repetem determinados modos de fazer, a internalização do gesto nos leva para uma forma específica da execução. É possível perceber isso em uma aula de natação, quando se dobra roupas, ou mesmo quando se transa com uma mesma pessoa durante muito tempo. Mas quando se trata de um fazer artístico, essa percepção é mais borrada, pois nunca se sabe qual a forma inicial ou como será a forma a se chegar no final do processo. É um caminhar cego, cujo norte apontado nunca determina se o lugar a se chegar será seguro e estável. Estamos sempre sujeitos a sugerir uma forma que se desmorone e que, com isso, nos desmorone junto dela.

 

criar estruturas com centros fortes, que equilibrem a existência de dois polos.

 

Descobrir a linguagem tem a ver com adentrar um modo de funcionamento específico de determinado corpo ainda jovem (coletivo ou individual). Não existe linguagem a partir de conteúdo, e talvez esse seja um dos principais problemas de uma arte que se afirma enquanto projeto de melhoria de mundo. Algo que se reconhece e se afirma enquanto dispositivo de emancipação talvez seja mais aparato de melhoria do que algo em si, braço postiço de um sistema que já vê seu fim mas que o postergará até quando for possível. Não pretendo me aproximar disso, mas sim olhar para fenômenos que, via atrito, conseguirão desarticular noções básicas dessa suposta humanidade estável que nos ronda. Nesses termos, nossa única melhoria possível seria voltar a sermos quadrúpede.

 

acumular objetos inofensivos até que eles se tornem monstruosos.

 

Existe uma linguagem secreta das coisas, e é por acreditar na possibilidade de permuta entre essa e a nossa linguagem é que sigo produzindo. Não dá para acreditar que nós próprios nos bastaremos, e que tudo no mundo serve – não apenas no caso da arte, mas principalmente – para sair de nós e voltar para nós, sempre humanos. O processo artístico é, antes de tudo, uma troca com as coisas que não falam. Cézanne talvez tenha ouvido a paisagem como ninguém, e é quando nosso olho tropeça entre as coxas e o busto de uma banhista formados pela mesma massa de tinta marrom é que essa língua secreta parece se revelar. Acho que ela sempre se revela na forma de um espaço de significação vazia, de um campo que possibilita que dois elementos diferentes dessa nossa linguagem habitem secretamente: a morte e o pop, a mangueira e a fragilidade, o plástico e a psique. Essas fendas estão em todos os lugares, como em casas inabitadas marcadas por duas letras X em suas portas de vidro. É lindo pensar no poder da linguagem de fechar espaços desde a indicação bíblica de Moisés, que consistiu em passar sangue de cordeiro nas portas a fim de que o deus dos hebreus não matasse os primogênitos habitantes das casas assim marcadas, até um duplo X indicando a momentânea inexistência simbólica de um espaço.

 

o corpo não pode ser nada além de um resto.

 

Nesse silêncio, cada vez mais me vejo tentando falar com os mortos. Quero que Lygia me responda o que fazer agora que a proposta utópica de redescoberta dos corpos não se concretizou. Quero que Hélio me diga como sair dessa apatia que assola a cidade de São Paulo. Escrevo cartas para eles, busco-os em sonhos, sempre sem sucesso. Faz pouco tempo, Vito Acconci faleceu. Masturbei-me em sua homenagem, mas cai em prantos antes de gozar. No fundo, penso que talvez assim seja mais fácil de nos encontrarmos, pois agora ele pode ser, quando quiser, o observador hipotético com as quais sempre conversou. (Vito, você mora nas lentes de câmera agora?) Virar do avesso, estar de costas, cair no chão. Deixar de ser humano e virar fantasma para ocupar todos os lugares, para assombrar permanentemente os espaços com a força dos materiais. Quando Vito morreu, decidi que usaria um velho elevador de carga quebrado para uma performance que deveria fazer para a abertura da exposição “O que o Corpo Abriga”, individual minha de 2017, realizada no Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura na cidade de Guimarães em Portugal. No canto do espaço, o velho elevador empoeirado guardava os restos de uma obra feita em madeira, além de algumas aranhas e uma caixa de veneno de rato. Nunca foi usado. “Criar não é tarefa do artista. Sua tarefa é mudar o valor das coisas”, Oiticica me disse em um livro ou num sonho. Talvez isso me leve a limpar esse espaço ao longo da madrugada, retirar os insetos, tossir bastante, para me colocar – por um tempo ao menos – na mesma situação dessa coisa que não funciona. É preciso forçar o olhar para as coisas que não têm luz, como as casas com X na porta. Também sobre meu corpo coloquei um X, como uma membrana que impede a entrada total do olho ao mesmo tempo que o chama.

 

Renan Marcondes, Acconci e Céz-anne contra o Vertical. Performance realizada na cidade de Guimarães, Portugal. Maio de 2017. Fotografia da eRevista Performatus

 

brincar com a hipótese da morte.

 

Não sei o que desejo com meu trabalho. Passei algum tempo acreditando que meu trabalho tinha alguns conteúdos claros, enquanto a precariedade da forma explodia na pele. Penso que a arte é para todo corpo que, por algum motivo, transborda. Nesse sentido, as obras são como litorais que se formam para que esse escorrimento constante ganhe forma e possibilite algum conforto. Devolvo-me nas formas que eu mesmo criei, sobrevoando uma galeria circular imensa com muitos andares. Falo comigo mesmo mais velho e ele me diz que não será fácil continuar mas que não haverá outra alternativa. Meus amigos estão velhos e me abraçam com calma. Descubro com eles que pouca coisa mudou, exceto pelo fato de que minha gengiva sangra cada vez mais. Porque estou tão próximo de uma imagem precária do meu próprio corpo eu jamais saberei, mas entendo que todo recurso formal é um modo de reencontrar essa precariedade em centros que não existem, encaixes frágeis, apoios que quebram. Terra movediça que acompanha todo corpo que tropece.

 

tragédia.

 

Estou hipnotizado pelos imãs. Como é possível algo desse tamanho concentrar tanta força de atração e repulsa? Claro, eu sei teoricamente como é possível. Mas qual seria o tamanho do imã que conseguiria esmagar minha cabeça? Esse tipo de coisa nunca sabemos, a não ser quem se arrisca a colocar um X sobre o seu próprio corpo. Artur Danto uma vez escreveu que Andy Warhol jamais teria alcançado as sopas Campbell se não tivesse mergulhado nas latas de sardinha intoxicadas. Alcançar o horror do que é inapreensível e inescapável a essa mesma noção de humanidade de que tanto falo, um horror tão profundo que fará todas as palavras se perderem e só sobrar a força esmagadora de um imã de três milímetros.

 

Não acredito que a arte mudará o mundo.

Mas posso desejar que ela o destrua.

 

NOTA

[1] Canção “Life is a Pigsty”, de Morrissey, do álbum Ringleader of the Tormentors, lançada em 2006.

 

 

PARA CITAR ESTE TEXTO

MARCONDES, Renan. “A Breve História de um Homem entre o Ralo e o Litoral”. eRevista Performatus, Inhumas, ano 5, n. 18, jul. 2017. ISSN: 2316-8102.

 

 

Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy

© 2017 eRevista Performatus e o autor

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