Impávido Compromisso (Des)Cumprido

 

Tendo a consciência sobre o que Peggy Phelan afirmou acerca da performance ao vivo e de uma produção escrita posteriormente à ação, chamo a atenção para esta sequência de palavras em que ela disse que “tentar escrever sobre o evento indocumentável da performance é invocar as regras do documento escrito e, logo, alterar o evento em si mesmo” [1]. Ponderado isso, venho justamente apresentar algo que não diz respeito ao que ocorreu de forma integralmente empírica, porque não estive presencialmente no acontecimento; foi por intermédio do vídeo que experienciei a poderosa ação do performer OutroLuiz durante o evento Convergências 2016 acontecido no Sesc-TO na cidade de Palmas (Tocantins, Brasil), em outubro de 2016. As palavras escritas aqui são impressões de quem esteve confortavelmente sentada sobre a cadeira do próprio escritório, com fones de ouvido, para assistir ao registro em vídeo através do computador da minha mesa de trabalho. Não se trata da observação de uma ação ao vivo, mas sim do seu desdobramento em planos de imagens em movimento editadas formando um único arquivo que pode ser sempre visto on-line [ver em: https://youtu.be/nth6TKu_REA], o que torna ainda mais distante a vivência de quem esteve no mesmo tempo-espaço da ação com relação à minha.

Nesse sentido, se Phelan observa que “críticos de eventos performativos compreendem que o trabalho de escrever sobre performance (e, deste modo, ‘preservá-la’) é igualmente um trabalho que fundamentalmente altera esse evento” [2], fazer a crítica a partir de um vestígio da ação é provavelmente assumir o risco de deturpar por completo o ocorrido. Dito isso, assumo tais perigos e me atrevo a tentar avaliar o documento que está à disposição de qualquer um que tenha acesso à internet.

 

1964 Golpes, de OutroLuiz. Performance apresentada na cidade de Palmas, Brasil. Outubro de 2016. Fotografias da equipe do Sesc-TO

 

Pelo que podemos ver nesse registro da ação 1964 Golpes, o artista se propôs a dar socos, unicamente com a mão direita, em um saco vermelho de pancada sem a proteção das tradicionais luvas de boxe, erigindo o seu corpo em contato direto com uma superfície extremamente bruta. Vestido com calça social, camisa e blazer em tons pretos e brancos, inicialmente, antes dos tais golpes propostos, vemos o artista de joelhos, concentrado no seu intento. Então, com calma, ele recolhe algumas pedras dispostas no chão e as coloca no saco vermelho, o qual é embrulhado com uma bandeira do Brasil e preso a uma corda que já estava suspensa anteriormente ali. Feito isso, OutroLuiz encara o objeto e, determinado, dá o primeiro golpe com bastante força. O segundo, o terceiro e o quarto ainda são investidos com entusiasmo, mas do décimo segundo soco em diante, gradativamente, a força é extenuada devido à luxação da sua mão e à presumível dor consequente. Uma pausa enorme acontece. OutroLuiz está a suar e, apesar do seu impávido compromisso assumido, hesita e verbaliza a sua desistência. Vozes de incentivo para que ele continue se mesclam aos olhares de pura aflição que quase suplicam o contrário do que as vozes pregam. “Vinte e cinco”, continua OutroLuiz a contar enquanto avança com outra sequência de murros intensos no saco vermelho embrulhado pela bandeira do Brasil. “Trinta e três, trinta e quatro” e assim sucessivamente até completar sessenta e quatro golpes, ou seja, mil e novecentos a menos do que supunha conseguir. E, mesmo não tendo completado o objetivo, arredondou o signo da ação na abreviada forma de nos referirmos ao ano do Golpe Militar de abril de 1964 ocorrido no Brasil como, simplesmente, o Golpe de 64. OutroLuiz cumpriu o seu compromisso.

Com o seu corpo violentado, aludindo ao tal Golpe Militar, o artista posiciona-se como uma metáfora ao Golpe de 2016 liderado por políticos de direita envolvidos em escândalos de corrupção, sendo, ao mesmo tempo, a mão direita que aplica o golpe e o cidadão que sofre a consequência drástica dessa manobra da direita que despreza por completo qualquer noção do significado de democracia. OutroLuiz justapõe dois contextos que fatalmente estão relacionados: o ano de 1964, quando as manifestações “da família com Deus pela liberdade” preparavam o terreno para acontecer o golpe contra o então presidente João Goulart e o ano de 2016, quando as multidões – influenciadas pela mídia de que o movimento era “contra a corrupção” – batiam panelas contra a presidenta Dilma Rousseff e desfilavam como “bons cidadãos” com camisetas da CBF sob uma aparente manifestação patriótica.

 

1964 Golpes, de OutroLuiz. Performance apresentada na cidade de Palmas, Brasil. Outubro de 2016. Fotografia de Grasiele Arsego

 

Com essa ação, que não deixa cair no esquecimento a barbárie vivida no Brasil (e em outros países latino-americanos) durante a ditadura militar em que muitas(os) foram torturadas(os) de forma sádica, o performer denota/conota o quanto esses golpes doem e deixam sequelas que não são facilmente sanadas; a mágoa ecoa por bastante tempo, atravessa anos, décadas, imobiliza, traumatiza fisicamente e psicologicamente e, muitas vezes, mata.

Embora a ação vista por intermédio do vídeo tenha realmente me impressionado e esteja a ecoar por dias sem cessar em minha memória, mantendo uma reminiscência da comoção sentida e a análise contextual e crítica pulsantes todo o tempo em mim, tenho a noção de que se estivesse sentada (ou em pé) juntamente com a audiência para ver in situ a performance, o resultado da minha experiência seria dessemelhante e cogito que muito mais ardente, afinal, como alertou Amélia Jones, “a experiência de olhar uma fotografia e ler um texto é claramente diferente daquela de estar sentada em uma salinha assistindo a um artista fazer uma performance” [3].

 

 

NOTAS

[1] PHELAN, Peggy. “A Ontologia da Performance: Representação sem Produção”. In: Revista de Comunicação e Linguagens. Lisboa, n. 24, 1997, p. 173.

[2] Ibidem.

[3] JONES, Amelia. “‘Presença’ in Absentia: A Experiência da Performance como Documentação”. eRevista Performatus, Inhumas, ano 1, n. 6, set. 2013, p. 9.

 

 

PARA CITAR ESTA PUBLICAÇÃO

PELISON, Julia. “Impávido Compromisso (Des)Cumprido”. eRevista Performatus, Inhumas, ano 5, n. 17, jan. 2017. ISSN: 2316-8102.

 

Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy

© 2017 eRevista Performatus e a autora

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