Bastão

 

Angelina Jolie, Scarlett Johansson, Kim Kardashian, Marion Cotillard e Taylor Swift. Atrizes e cantoras (ou simplesmente, como dito popularmente, “artistas”) de branca tez, lisos cabelos e boca carnuda. Esta última não fica sozinha; sobre sua superfície é espalhada, assim como tinta sobre tela, a gama de vermelhos oferecida por um batom. Os flashes são disparados e o tapete vermelho ganha um par em alguns dos rostos mais célebres da cultura de massa contemporânea.

Dezessete segundos é o tempo que Elen Gruber utiliza de modo semelhante esse mesmo bastão de maquiagem em um de seus vídeos produzidos no ano de 2012. Com o rosto em primeiro plano, tal qual um busto de mármore, a artista transforma sua boca em grandes lábios através do vermelho. Na sequência, o contorno é deixado de lado e suas mãos atacam a parte interna de seu corpo – dentes e língua são preenchidos pelo batom que se transforma em pincel. A estrutura que sustenta esse objeto é deixada de lado e suas próprias mãos se sujam para que toda a sua face seja coberta. De coadjuvante, o vermelho se torna protagonista; o brinco de pérola se transforma em pintura corporal.

Despede-se da civilização e se dá boas-vindas à barbárie. O tom decorativo da maquiagem feminina conota agora outro dado que poderíamos chamar, talvez, de “ancestral”; o tapete, em verdade, nunca foi vermelho e agora fica claro que é banhado de sangue. E qual origem poderíamos atribuir a esse líquido? Uma leitura seria a do confronto entre o falo masculino e o hímen, o rompimento da virgindade e o sangramento. O próprio ato de se passar o batom sobre os lábios (pequenos ou grandes) não ecoa a penetração? Por outro lado, como esquecer do sangue escorrido dos rostos daquelas celebridades que tentaram ampliar o tamanho de suas bocas?

Essa obra audiovisual consegue refletir tanto sobre a história da arte quanto sobre o estatuto da imagem contemporaneamente (se é que podemos pensar essas duas instâncias de modo separado). Olhar para esse rosto rubro de batom faz lembrar, apenas como exemplo rápido, da obra Il volto di Mae West, de Salvador Dalí (1934). Em 1937, o artista chega a transformar a boca, os lábios de sua obra inspirada na atriz Mae West em um móvel, um sofá, denominado como Mae West Lips Sofa; ou seja, um órgão pode ser um lugar de repouso e se sentar sobre uma boca vermelha remete ao caráter sexual desse orifício. Já Andy Warhol irá lidar com a repetição e saturação através da recoloração dos lábios e rostos de centenas de retratos de Marilyn Monroe (1962) – imagem à qual Madonna recorrerá na capa de Celebration (2009), coletânea de seus maiores sucessos. No lugar do sorriso, porém, os lábios semicerrados e uma expressão de superioridade.

Elen Gruber contribui com essa problematização de modo diverso de Dalí e de Warhol: trata-se de uma mulher que explora o seu próprio corpo através do embate com uma concepção socialmente institucionalizada sobre o que poderia vir a ser “feminino”. Nesse sentido, ao se colocar no lugar de sujeito e objeto, sua pesquisa pode ser relacionada com o trabalho da artista francesa Orlan. Sem recorrer às cirurgias plásticas, enfocando sua atenção sobre a superfície, a artista lança os holofotes sobre palavras-chave como apresentação, identidade e representação.

Todos corremos nossos cem metros com barreiras cosméticas a cada dia. Ao se olhar de modo perspectivo, talvez com o auxílio da História, nos damos conta da bagagem cultural jogada sobre os ombros das mulheres – nossa prova muda e nos vemos em outra corrida, um revezamento com bastão. Se olharmos com bastante atenção, ficaremos espantados: há mais Lindsay Lohans ao nosso lado do que podemos imaginar.

 

 

PARA CITAR ESTE TEXTO

FONSECA, Raphael. “Bastão”. eRevista Performatus, Inhumas, ano 1, n. 1, nov. 2012. ISSN: 2316-8102.

 

Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy

© 2012 eRevista Performatus e o autor

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