O Mar e o Céu de Suzana Queiroga

 

Suzana Queiroga, frame de Atlas, 2015

 

Água e ar são dois elementos essenciais à vida que marcam a Natureza e o globo. Considerados pelos antigos filósofos como parte dos quatro elementos básicos da constituição de toda a matéria [1], são uma referência em práticas de expressão artística. É com essa mesma força incontestável que se assume a exposição de Suzana Queiroga.

Os curadores Paulo Aureliano da Mata e Tales Frey trazem ao Centro para os Assuntos da Arte e da Arquitectura (CAAA), em Guimarães, a artista luso-brasileira, proporcionando a oportunidade ao público português de vê-la antes da sua participação, este ano 2015, na XVIII Bienal de Vila Nova de Cerveira. Para aqueles que não estão familiarizados com o trabalho desta artista, filha de mãe brasileira e pai português, logo junto à entrada do Centro encontra-se a projeção em vídeo de uma entrevista (2014) [2] da própria, na qual refere trabalhos prévios e abre as portas para o seu universo de criação. Nesse diálogo, fala já dos grandes espaços, do céu e do mar, que a levam a querer produzir lugares dessas duas dimensões, como é o caso da peça O Grande Azul. Esta, composta por um insuflável azul de grandes dimensões, material que a artista experimentou múltiplas vezes, possibilita uma vivência espacial, cria experiências para o público, de modo que este se aproprie dos seus objetos tornando-os vivos.

Suzana Queiroga, artista reconhecida internacionalmente desde a sua participação na exposição Como Vai Você, Geração 80? (Rio de Janeiro, 1984), apresenta aqui uma parte do seu espólio de trabalho, exposto com uma tal harmonia, que se torna detentora, simultaneamente, de leveza visual e peso conceptual.

As obras, que se espalham ao longo das três galerias, alternam entre o desenho, a fotografia, o vídeo e a instalação, mas, para a artista luso-brasileira, tratam-se de pinturas expandidas. Para a criadora, as pinturas têm a necessidade de sair do seu suporte após aí nascerem como esboços e estudos. Nesta fase do seu percurso artístico, Suzana Queiroga aproxima-se de um registo biográfico através da imersão dos seus medos e inquietações nos dois grandes elementos naturais: a água e o ar.

Nas obras, a água é o mar e o ar é, sem dúvida, o céu e o vento. O tempo, o espaço e a continuidade são vistos pela artista como forças de movimento, de percursos e fluxos nas paisagens que atravessa no seu balão de ar quente, Velofluxo, projetado em 2006 e construído em 2008. Esse objeto funciona, para a artista, como uma ampulheta na qual, ao mesmo tempo que a sua idade avança, passa o tempo da morte do seu pai. Este faleceu num trágico episódio quando o avião em que viajava se despenhou no mar. Esse dia estava próximo do nascimento de Suzana Queiroga. Assim, a passagem do tempo terá sempre uma dupla significação e os aniversários serão sempre de emoções ambivalentes. O balão é também a forma física do seu ponto de contacto entre a dimensão da criação e do imaginário, a parte superior do balão, e a da vida real, a área de baixo, onde pousa os pés. O balão é aqui representado, numa pequena escala, na Galeria 2 ou Sala dos Voos, onde remete para as paredes que o rodeiam, repletas de registos fotográficos das viagens nele realizadas, no Brasil. As imagens captadas aparecem intercaladas com outras que se fundem na obra da vida da artista, desde os tempos de criança, passando pelas suas tatuagens sobre o fluxo da água, até às imagens do que a motiva e move na sua pesquisa incansável. Também, num carácter documental, apresenta o certificado do seu primeiro voo. Essas provas fotográficas distribuem-se nas paredes como se elas próprias se tratassem de percursos, de cartografias e mapas dos voos no balão. Assim, a paisagem, aqui, deixa de ser meramente um elemento natural, passando para a ordem do experiencial, psicológico e emotivo, como parte da existência humana.

 

Visita Guiada/ Conversa com a artista Suzana Queiroga e o curador Paulo Aureliano da Mata na exposição ÁguaAr. Fotografia de Maria Luis Neiva/ Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura (CAAA)

 

Desde 2002 os seus mapas, repletos de caminhos, são, na realidade, percursos desses fluxos de energia, numa outra dimensão que não a do real. Num primeiro olhar, os seus trabalhos (pintura sobre papel) de um azul intenso assemelham-se a redes de algas, que se prendem em caminhos imaginários, completamente fundidos e afogados na água, no mar, representado pelo forte azul oceânico que preenche a Galeria 1. Nesta, intitulada pela artista como a Sala ÁguaAr, há uma sensação global de acolhimento, de vontade de entrar e aí permanecer. A peça que se encontra na parede direita, ocupando uma posição central, está no limiar entre uma alga, mapa ou tecido, pela sua forma aleatória, natural e retalhada de cor azul, pendurada como se fosse um pequeno manto para o espectador acolher nos seus ombros.

Na verdade, há um convite para entrar nas águas de Suzana Queiroga do mesmo modo que haverá um ímpeto da própria em se perder no mar. A sensação que provoca não está, possivelmente, longe da realidade evocada. A maioria das obras presentes nesta exposição interligam o confronto da artista com o desaparecimento do seu pai. Assim, ela mesma coloca-se em viagens pelo ar, em pesquisas na água, e, no vídeo de 2013, Olhos d’Água (Galeria 3), de pés na areia e olhar focado e centrado no horizonte, na linha onde o mar e o céu se tocam. Os fluxos das pequenas ondas aproximam-se dos seus pés e afastam-se de novo, como que a chamando e enfrentando. A sua postura, calma, deixa-se afogar na sensação de espera, na confluência da água, do ar e do tempo. Nessa cena intensa, são notórios o temor e a simultânea força e determinação com que encara aquele que é, provavelmente, o seu maior medo: o oceano.

A exposição aproxima-se do fim com o surgimento de um fluxo e movimento diferentes; o vídeo Atlas, onde a cartografia avança, como se de um voo ou navegação se tratasse, em constante rotação em torno do centro, o olho da artista. Ao examinar a obra, compreende-se que o olhar de Suzana Queiroga observa a metade que não se encontra presente neste globo: o hemisfério sul. É então um olhar vindo do norte, dominador, do lado das grandes potências econômicas e políticas. Afasta-se aqui do prévio carácter biográfico, assumindo uma postura de consciencialização do que se passa hoje no mundo. Contudo, em todo esse universo, a artista manifesta a constante preocupação com o oceano e com a água e, assim, interligam-se irrefutavelmente com todo o corpo de trabalho aqui apresentado.

A intervenção das obras no espaço fornece uma nova experiência ao espectador, em que o imaginário e o real se conjugam e dialogam de forma singular como, para a própria artista, as cidades da sua mente e da sua vida. Independentemente das pequenas variações temáticas e das múltiplas técnicas artísticas que são apresentadas, a água e o ar constituem o contexto e o objeto artístico e, ao mesmo tempo, os elementos que operam no corpo e na vida.

O conjunto de trabalho está nesta exposição ÁguaAr a emanar uma energia intensa e marcante, a de Suzana Queiroga, que permanecerá ativa no CAAA até 9 de agosto de 2015.

 

NOTAS

[1] A Enciclopédia, Editorial Verbo, 2004.

[2] Ver em: <http://revistaportfolioeav.rj.gov.br/edicoes/03/?p=1400>. Acesso em: 02 de julho de 2015.

 

 

PARA CITAR ESTE TEXTO

BABO, Constança. “O Mar e o Céu de Suzana Queiroga”.

eRevista Performatus, Inhumas, ano 3, n. 14, jul. 2015. ISSN: 2316-8102.

 

Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy

© 2015 eRevista Performatus e a autora

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