A Festa de Snežana Golubović

 

Snežana Golubović, I love you. Performance na cidade de Chicago, Estados Unidos. Junho de 2012. Fotografia de Jamie Gannon

 

Poderia Snežana Golubović, na performance-instalação I Love You, estar recordando o casal Johnny e Judy da traumática festa de aniversário da famosa música It’s My Party cantada por Lesley Gore? Podemos dizer que, quando a performer se confronta com sua imagem refletida no espelho, seus olhos brilham e refletem toda uma história vivida. O traje de festa composto por um vestido de paetê azul, meia calça fina, salto alto, penteado elegante, batom vermelho e um microfone antigo (tipo o do Elvis Presley) imbuem, com a idade da performer, um retorno poético visual das grandes divas do jazz do passado. Tal afirmação se justifica, também, quando são inseridos inúmeros vinis de diversos títulos no espaço de intervenção.

Diferente da situação em que o público ama a grande musa cantora, aqui, ao contrário, Golubović procura amar o público estadunidense ao direcionar seu olhar, com ou sem a intermediação do espelho, ao dizer a expressão “I love you”. Em uma única apresentação, que faz parte do programa do Rapid Pulse International Performance Art Festival – evento organizado pela Defibrillator Performance Art Gallery da cidade de Chicago –, a performer conta com o espaço da própria vitrine da galeria de arte que promove esse festival para a realização de sua performance-instalação. O público que presenciou essa intervenção era composto por transeuntes ou pessoas ligadas ao festival, ou seja, qualquer pessoa que passasse diante da vitrine poderia ser provocada pela performer.

Nessa ação performática, ao discurso verbal da ação não cabe nada além da expressão “I love you” e, com isso, poderíamos ligar o efeito dessa ação no espectador com o que o sociólogo polaco Zygmunt Bauman, em sua obra Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos, aponta em Ralph Waldo Emerson: “quando se esquia sobre gelo fino, a salvação está na velocidade” e “tende-se a buscar a desforra na quantidade” [1] de relacionamentos. Com essa afirmação, notamos que a expressão “I love you” foi pervertida por habitualmente ser utilizada em filmes, novelas, músicas etc. e, com isso, torna-se pouco utilizada no plano da realidade. Com a chegada da velocidade inserida por esses meios de comunicação e, mais ainda, pelas redes sociais (Orkut, Facebook, Twitter etc.), o corpo humano consegue desacelerar o processo de distância, mas não salva as suas relações.

O economista norte-americano Herbert Simon alegou em 1971 que:

 

Em um mundo rico em informações, a riqueza da informação implica a carência de outra coisa: escassez daquilo que a informação consome. O que a informação consome é bastante óbvio: ela consome a atenção de seus destinatários. Dessa forma, a abundância de informação gera carência de tempo. [2]

 

Visionário, Simon previu o mundo atual, um mundo hiperconectado, onde a abundância de informação na rotina diária leva a uma escassez de atenção. Ora, apesar da potencialidade dos meios de comunicação, a capacidade de tempo e atenção dos seres humanos ainda é restrita e, com isso, se torna impossível concentrar um tão grande número de informações.

 

Snežana Golubović, I love you. Performance na cidade de Chicago, Estados Unidos. Junho de 2012. Fotografia de Autumn Hays

 

Em sua festa, Golubović leva a cabo um ritual que se supõe uma ocasião feliz em que, na realidade, tal evento, ocorrido através da performance-instalação I Love You, coloca o espectador numa posição de confronto com sua própria verdade no reflexo do vidro da vitrine. Portanto, é claro que se a performer fosse a humilhada adolescente de Lesley Gore, provavelmente diria “You would cry too if it’s happened to you” [Você também choraria se isso acontecesse com você], como noutros tempos em que essa jovem, trocada por Judy, cantava “It’s my party and i’ll cry if I want to” [A festa é minha e vou chorar se eu quiser].

 

 

NOTAS

[1] BAUMAN, Z. Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004, p. 13.

[2] SIMON, H. Designing Organizations for an Information-Rich World. In: GREENBERGER, Martin. Computers, Communication, and the Public Interest. Baltimore, MD: The Johns Hopkins Press, 1971. Apud ANDERSON, Chris. Free – O Futuro dos Preços. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009, p. 183.

 

 

PARA CITAR ESTE TEXTO

MATA, Paulo Aureliano da. “A Festa de Snežana Golubović”.

eRevista Performatus, Inhumas, ano 1, n. 1, nov. 2012. ISSN: 2316-8102.

 

Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy

© 2012 eRevista Performatus e o autor

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